Ao pensar em um grande evento, é comum que as primeiras imagens remetam ao palco, aos artistas, aos trios elétricos e ao público. No entanto, existe outra dimensão que ocorre antes, durante e depois da festa e, frequentemente, não é percebida por quem apenas vivencia aquele instante: a movimentação econômica que se desenvolve ao seu redor. O Vital é um exemplo notável desse fenômeno.
Um evento dessa magnitude não tem início quando os portões se abrem. Ele começa bem antes, quando profissionais, fornecedores, empresas e prestadores de serviços entram em ação para que tudo esteja preparado.
A montagem do Vital, por exemplo, se prolonga por cerca de um mês e mobiliza aproximadamente mil profissionais em diferentes fases, preparando uma área superior a 20 mil metros quadrados.
São profissionais e empresas de diversas áreas empenhados para que a estrutura se concretize. E essa é somente a parcela diretamente vinculada à organização do evento.
Ao olhar para fora dos portões, encontra-se uma cadeia ainda mais abrangente. O público que chega a Vitória precisa se deslocar, se alimentar, se hospedar, consumir e, muitas vezes, permanecer na cidade por mais tempo.
Restaurantes, bares, hotéis, transporte, comércio, serviços e trabalhadores autônomos passam a integrar, de alguma forma, essa movimentação.
Impacto econômico do Vital
Para 2026, a perspectiva é que o Vital movimente aproximadamente R$ 60 milhões na economia capixaba, levando em conta impactos diretos e indiretos em variados setores.
O evento deverá atrair mais de 5 mil turistas de outros estados, além de visitantes internacionais, incluindo provenientes dos Estados Unidos e da Europa.
Os dados do mercado brasileiro de eventos ajudam a dimensionar a força desse setor. De acordo com a Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape), a expectativa é que o consumo no segmento de recreação atinja R$ 151,9 bilhões em 2026, um aumento de 7,8% em relação à estimativa de R$ 140,8 bilhões para 2025.
O impacto também se reflete na geração de empregos. Em julho de 2026, o setor de eventos contabilizava 209.034 empregos formais, enquanto o denominado hub setorial, que agrega atividades influenciadas pelos eventos, alcançava 4,37 milhões de trabalhadores com carteira assinada.
Um dado particularmente relevante é o efeito multiplicador dessa cadeia: no primeiro trimestre de 2026, para cada vaga criada no núcleo dos eventos, aproximadamente 16 surgiram nas atividades relacionadas, como turismo, hospedagem e alimentação.
Por essa razão, discutir o impacto de um grande evento não deveria se limitar a analisar apenas o faturamento gerado diretamente pela bilheteria ou pela estrutura da festa. É necessário observar tudo o que ocorre ao redor dela.
O Vital, nesse sentido, representa também uma oportunidade para Vitória e para o Espírito Santo. Ao atrair pessoas de outras cidades e estados, o evento coloca o destino em evidência e cria uma oportunidade para que o visitante conheça outros espaços, consuma em diferentes estabelecimentos e tenha contato com a cidade além do evento.
Turismo de eventos e seus efeitos
Esse movimento é especialmente importante porque o turismo de eventos possui uma característica estratégica: ele cria um motivo específico para as pessoas viajarem em determinada época do ano.
Em vez de depender somente dos períodos tradicionais de férias ou de alta temporada, o calendário de eventos pode contribuir para distribuir esse fluxo ao longo do ano. E isso interessa não apenas à cidade que sedia a festa.
Quando um visitante chega a Vitória para participar do Vital, a movimentação pode atingir diferentes municípios da Região Metropolitana.
O dinheiro circula por uma cadeia que não se encerra no local do evento. É o transporte que conduz o visitante, o restaurante que recebe um grupo de amigos, o comércio que vende um produto, o profissional que presta um serviço ou o hotel que hospeda quem veio de fora.
Existe ainda um aspecto relevante: a economia que surge da própria preparação do público.
Um grande evento também movimenta profissionais ligados à beleza, maquiagem, moda, customização de abadás, acessórios e outros serviços que contribuem para construir a experiência do folião.
São pequenos e médios negócios e trabalhadores que encontram nesses períodos uma oportunidade extra de renda.
Portanto, quando se afirma que um evento movimenta a economia, não se trata apenas de grandes empresas. Trata-se também de uma série de pessoas que trabalham, fornecem, vendem e prestam serviços a partir da existência daquela demanda.
O Vital como estudo de caso
O Vital pode ser visto, assim, como um estudo de caso de algo mais amplo: a capacidade que grandes eventos têm de ativar simultaneamente diferentes setores de uma economia.
Também é relevante a discussão sobre o calendário de eventos do Espírito Santo. Quanto mais consistente e diversificado ele for, maior poderá ser a capacidade do Estado de atrair visitantes em diferentes momentos do ano.
Grandes festas, festivais culturais, eventos esportivos, shows e outras iniciativas desempenham papéis distintos, mas podem ter algo em comum: trazer pessoas para circular, consumir e conhecer o destino.
Após décadas de história, ele não representa apenas uma festa que ocorre durante dois dias. Existe uma operação que se inicia muito antes, uma cadeia de profissionais que trabalha para viabilizá-la e uma movimentação que se estende para além do Sambão do Povo.
Talvez essa seja uma das maneiras mais interessantes de analisar um grande evento: compreender que o entretenimento é apenas a parte mais visível de uma engrenagem muito maior.







