14 de fevereiro de 2026
sábado, 14 de fevereiro de 2026

A dor se transforma em arte

Algumas obras oferecem entretenimento ou causam impacto, mas há aquelas excepcionais que penetram no espectador com a sutileza e a intensidade de uma ausência. “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, dirigido por Chloé Zhao, se encaixa perfeitamente nessa categoria.

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É um longa-metragem que não levanta o tom, não provoca choro forçado e nem manipula as emoções do público. Em vez disso, nos absorve naturalmente, compartilha nossa respiração e, sem percebermos, já nos vemos emocionalmente expostos diante da tela.

Inspirado no livro de Maggie O’Farrell, o filme explora as lacunas da narrativa histórica. O foco não está no William Shakespeare gênio dos livros, mas naquilo que ficou nas sombras: a esposa, o ambiente doméstico, a juventude e, principalmente, o afeto e a dor da perda.

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O olhar terno de uma mãe

Já na primeira cena, fica claro que o universo a ser revelado — composto por casas, riachos e bosques — será filtrado pela perspectiva de Agnes… e que perspectiva.

Jessie Buckley, com uma carreira repleta de papéis marcantes, entrega uma atuação verdadeiramente arrasadora. Cada gesto carrega uma memória, cada pausa tem densidade. Agnes é o centro de todos os eventos narrados. Sua maternidade é concreta, visceral, intensa, e a percebemos através dela em múltiplas dimensões.

Vivenciamos a angústia materna que se instala no corpo, mudando até a forma de andar, de respirar, de enxergar. Buckley permite que o público sinta o que fica por dizer nas imagens, levando a uma compreensão completa dos pensamentos e emoções de sua personagem.

É impossível não se emocionar e reconhecer ali uma verdade comum a todos, o que a torna uma forte candidata ao Oscar de Melhor Atriz e uma grande esperança para o cinema norte-americano.

A figura por trás da lenda

Por sua vez, Paul Mescal dá vida a um jovem William Shakespeare com uma humanidade comovente. Não vemos o monumento das letras, mas um homem dividido entre a ambição e a falta, entre a carreira e a família.

Mescal está entre os atores mais dedicados e talentosos de sua geração, conseguindo imprimir fragilidade a uma figura que poderia parecer distante. Seu Shakespeare ama, mas comete erros. Também sente, porém enfrenta uma dificuldade para expressar-se.


A dinâmica entre ele e sua esposa, Agnes, é sutil, afetuosa e, ao mesmo tempo, profundamente pungente. Seu distanciamento não significa menos amor, mas reflete a única maneira que ele conhece para enfrentar as adversidades.

A interação entre Buckley e Mescal na tela é completamente verossímil, complexa, imperfeita e intensamente real — um espetáculo à parte —, qualidade que se estende ao vínculo dos protagonistas com seus filhos.

A condução magistral de Chloé Zhao

Chloé Zhao comanda o filme com a mesma sensibilidade de “Nomadland”, embora sua direção aqui seja ainda mais próxima. A câmera permanece íntima, registrando sem interromper, e o tempo se expande para que vivamos cada instante sem pressa, para que absorvamos as cenas enquanto captamos os detalhes nos breves intervalos.

Essa escolha reforça o núcleo temático da obra, que mesmo assim evita exageros ao retratar a dor e não busca aliviá-la com soluções simplistas. A perda é apresentada como um processo gradual, que modifica a atmosfera do lar, os corpos das pessoas e seu modo de habitar o mundo, o aprendizado de lidar com o sofrimento e as formas de transcendê-lo.

É aí que a história real por trás de “Hamnet” ganha significado. Historicamente, o filho de William Shakespeare morreu na infância e, depois, o dramaturgo criaria sua obra mais célebre.

A ligação entre a morte e a criação nunca foi totalmente comprovada, mas é ao adentrar esse terreno especulativo que entendemos o vazio naquela casa e como o afeto que permanece pode encontrar na expressão artística um caminho para se eternizar.

No fim, percebemos que esta é uma história sobre o amor materno, o amor paterno, o amor que persiste pelos laços familiares, mesmo na ausência física, e que agora é transmitido pela criação. É justamente por conseguir sentir a profundidade humana por trás disso que apreciamos a beleza desse desfecho e a grandeza do filme como um todo.

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