BRICS atinge marca de um trilhão em comércio e sistema de pagamentos pode se tornar realidade

O bloco de cooperação multilateral BRICS, que hoje reúne onze membros permanentes, já movimenta um fluxo comercial duas vezes maior que o da União Europeia. Apenas nas trocas com o Brasil em 2025, o volume atingiu cerca de US$ 234,8 bilhões. Considerando todos os países do grupo, o valor total das transações ultrapassou a marca de um trilhão de dólares, o equivalente a aproximadamente R$ 5,27 trilhões, segundo dados da TV BRICS.

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Nos últimos anos, o bloco tem trabalhado para reduzir sua dependência do dólar nas operações internacionais. Um dos pilares dessa estratégia é a criação de um mecanismo autônomo para pagamentos entre fronteiras, apelidado de “PIX dos BRICS” e oficialmente chamado de “BRICS Pay”.

O sistema foi anunciado há dois anos, durante a cúpula em Kazan, na Rússia, e se inspira diretamente no modelo brasileiro de pagamentos instantâneos, o PIX, desenvolvido pelo Banco Central do Brasil. Ele funciona por meio do Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI), que processa transações em tempo real.

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O SPI é uma infraestrutura centralizada gerida pelo BCB, que conecta diversas instituições financeiras e oferece mais segurança que métodos tradicionais, como TED e DOC. Isso se deve ao seu funcionamento ininterrupto, 24 horas por dia, baseado no princípio da Liquidação Bruta em Tempo Real (LBTR). Cada operação é processada individual e instantaneamente, sem necessidade de compensações em lote ao final do dia.

No sistema planejado pelo BRICS, as transações também seriam instantâneas, mas realizadas em uma rede blockchain. Essa tecnologia é um registro digital descentralizado, onde as informações ficam armazenadas em blocos encadeados e distribuídos entre vários computadores. A segurança é garantida por criptografia avançada, sem depender da autoridade de um governo específico.

A proposta, ainda em elaboração, reúne interesses geopolíticos, financeiros e tecnológicos. Seus objetivos são reduzir os custos operacionais das transações e aumentar a autonomia monetária dos países participantes.

Dados recentes de entidades como o Fundo Monetário Internacional e a UNCTAD mostram que as nações do bloco já respondem por cerca de um terço do PIB global, em paridade de poder de compra, e por mais de 30% do comércio mundial.

No entanto, a presença de países intensivos em petróleo, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, evidencia a dificuldade de escapar completamente do regime dolarizado que define os preços das commodities energéticas no mercado internacional.

O Irã, que enfrenta pressões dos EUA e de Israel, também é membro. Desde 2023, o país implementou o “Rial Digital”, um método de pagamento alternativo ao dinheiro físico e aos cartões convencionais. É uma moeda digital transferida diretamente entre comprador e vendedor, sem intermediação bancária.

Seu funcionamento se assemelha ao Drex, a versão digital do real anunciada pelo Banco Central do Brasil para liquidar transações de alto valor de forma direta, também sem intermediação bancária.

Progresso nas Negociações

Segundo um relatório técnico do Banco Central do Brasil, o “PIX dos BRICS” não pretende substituir os sistemas de pagamento existentes, mas interligar de forma independente as infraestruturas nacionais. Isso incluiria o PIX brasileiro, o sistema chinês CIPS (para pagamentos internacionais em renminbi) e a interface indiana UPI, que opera de modo similar ao PIX.

Essa arquitetura permitiria que o comércio entre os países ocorresse por meio de transações quase imediatas, sem necessidade de compensação via bancos correspondentes em dólar. Na prática, seria uma rede multilateral baseada em moedas locais, com transações diretas entre as partes.

Esse tipo de iniciativa não desafia diretamente a predominância do dólar como moeda de referência internacional, mas ajudaria a reduzir a dependência do sistema SWIFT, que permite a diferentes países liquidarem transações entre si em dólares.

Apesar do crescimento no uso de moedas locais em acordos bilaterais, especialmente entre economias emergentes, o dólar ainda corresponde a cerca de 80% das transações cambiais globais e compõe 58% das reservas de valor mundiais, conforme dados do Atlantic Council.

Enquanto 2025 foi um ano de estruturação técnica da proposta, a expectativa é que 2026 traga testes mais concretos da iniciativa.

Já em meados do ano passado, a Força-Tarefa de Pagamentos do BRICS avançou na definição da “interoperabilidade” do sistema, considerada uma “prioridade estratégica” na declaração dos líderes assinada durante os encontros no Rio em 2025.

O documento afirma que os ministros das finanças e governadores dos bancos centrais foram encarregados de continuar as discussões sobre a Iniciativa de Pagamentos Transfronteiriços, reconhecendo o progresso da força-tarefa na identificação de caminhos para ampliar a interoperabilidade entre os sistemas de pagamento dos países membros.

De acordo com o BRICS Expert Council Rússia, até 65% do comércio interno do bloco já ocorre em moedas locais. No entanto, a maioria dessas moedas — com exceção do yuan chinês — sofre com liquidez limitada, e os sistemas de liquidação permanecem integrados à infraestrutura financeira ocidental.

Isso significa que, mesmo quando as transações são feitas em moedas locais, parte delas ainda é processada por contas correspondentes em bancos dos Estados Unidos.

Em 2026, quando a Índia assumir um papel central na condução do bloco, acredita-se que a agenda de integração entre moedas digitais de bancos centrais ganhará mais força, especialmente durante a 18ª Cúpula do BRICS, que será sediada no país.

Publicações como o Asia Times indicam que, com a Índia sediando a cúpula, o foco estará em um sistema de pagamento que conecte as moedas digitais nacionais. O desenvolvimento de um sistema baseado em CBDCs interoperáveis será um item crucial da pauta.

Distinção de uma Moeda Comum

É importante não confundir o projeto atual do BRICS com a adoção de uma “moeda comum” para as transações do bloco.

Esse debate, que ganhou força durante 2024, foi atenuado em parte pelas ameaças constantes do presidente norte-americano Donald Trump. Ao reassumir o cargo em 2025, ele declarou que imporia tarifas de 100% sobre produtos do BRICS caso uma “moeda única” do bloco fosse adotada em detrimento do dólar.

A intenção real é utilizar moedas nacionais em formato digital e realizar transações ponto a ponto, diretamente de um país para outro, sem intermediários dos sistemas financeiros internacionais.

Ainda assim, o novo sistema pode representar um passo significativo para a chamada “desdolarização”, mesmo sem substituir a moeda norte-americana. O movimento consiste em uma redução gradual da dependência estrutural de transações baseadas em dólar e, consequentemente, da infraestrutura que a suporta — a qual está sujeita aos interesses dos Estados Unidos como seu emissor.

A preferência por moedas locais acaba enfraquecendo o regime dolarizado ao ampliar a circulação de moedas alternativas e fortalecer a soberania econômica entre nações do Sul Global, particularmente entre China e Índia, a segunda e a quarta maiores economias do mundo. Entre esses dois países, as transações em moeda local já superam 80%.

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