Há uma maneira de marcar o tempo em família que leva creme de leite, leite condensado e gelatinas de diferentes sabores, resultando em um mosaico colorido, levemente tremido e bastante magnético.
Enquanto muita gente faz um “X” no calendário para acompanhar a contagem regressiva das festas, na família Souza é a famosa gelatina arco-íris da Vó Cida que anuncia a chegada de aniversários, Natal, Ano-Novo ou bodas de casamento.
Nesse núcleo familiar, Maria Aparecida Martins — que não carrega Souza no nome por ter construído seu vínculo eterno por escolha — é a criadora dessa sobremesa clássica dos anos 1980, que resiste por lá e nunca saiu de moda. Talvez ela mantenha exatamente os mesmos ingredientes por ter se consagrado em um tempo menos preocupado em adicionar proteínas e whey às receitas ou em demonizar o uso de açúcares, condimentos e corantes.
É evidente que não há aqui qualquer defesa dos industrializados nem se ignoram os prejuízos causados pelo excesso de nomes químicos nas embalagens. Contudo, aquela época dos cabelos arrepiados, dos mullets, da consolidação do rock nacional e de bandas respeitadas parecia dar mais espaço para que os sabores — mesmo artificiais — fossem apreciados e eternizados pelo paladar, pela memória e pela magia que despertavam, e não pelo impacto prometido no treino, na corrida ou na produção de colágeno.
Vó Cida faz com que quem recebe sua gelatina arco-íris alcance de imediato o posto de pessoa especial, importante e digna de respeito. E, sinceramente, nem um scoop low carb nem um bolo de chocolate funcional e proteico parecem ter esse poder.
É difícil dizer quando a arco-íris se tornou presença obrigatória nas celebrações dos Souza. A sobremesa foi preparada quando Cida era apenas irmã, depois como tia e cunhada. Mais recentemente, é no papel de avó — chamada assim pelas crianças Clara, Olívia, Martin, Maria, Evelyn, Artur, Logan e Sophie — que ela transmite às novas gerações a importância de manter vivo esse ícone das sobremesas.
Não se pode afirmar que, em outras casas, existam gelatinas tão marcantes quanto a da Vó Cida (quem já provou garante que a dela é realmente única). Mas é fato que, nos anos 1980, mosaicos como esse se espalharam pelas comemorações. Na linha do tempo, alguns marcos ajudam a narrar essa disseminação.
Uma marca famosa por seu mascote de boca grande vivia seu auge e aparecia com frequência nos comerciais; uma padaria de prestígio passou a oferecer a gelatina colorida em seu cardápio de festas em 1981, sob encomenda, influenciando modelos de negócio; e o modo de preparo também carregava outros atrativos.
Quem aprendia a receita convertia ingredientes baratos e industrializados em uma sobremesa de visual impressionante, fácil de servir e ligada às crianças, às festas e à mesa da família.
Vó Cida incorporou a receita ao seu repertório.
Ainda que os ingredientes sejam simples, a gelatina demanda várias etapas e horas de geladeira. Por isso é realmente marcante perceber que, em meio a tantas tarefas, alguém é escolhido para receber a gelatina da Vó Cida. Namorados e namoradas que vão se aproximando da família, por exemplo, entendem que foram aceitos e aprovaram a entrada no núcleo apenas quando ganham, em uma festa, a tal arco-íris.
Se pudessem opinar nesta reportagem, o pastel de carne com massa caseira, o feijão de caldo denso e equilibrado e o nhoque de batata que derrete na boca disputariam o posto de receitas mais famosas da Vó Cida. Eles se apresentariam, sim, como verdadeiros conquistadores.
Acontece que, entre os ingredientes das receitas de avó, entram elementos extremamente particulares, capazes de pavimentar o caminho para o sucesso. Vale lembrar que a chef Ana Flávia Batista Graciolli, de 24 anos, tornou-se a primeira brasileira a chegar à Grande Final da S.Pellegrino Young Chef Academy Competition. O prato que a conduziu a essa conquista foi inspirado na avó e na iguaria que ela preparava para a neta.
Atualmente, Victor Iglesias, à frente do Rubayat, ícone paulistano, conduz o restaurante inspirado na forma como via o avô e na receita de hospitalidade deixada por ele. Janaína Torres, chef reconhecida mundialmente por sua cozinha autoral, também foi profundamente influenciada pela comida da avó.
Recentemente, Vó Cida caprichou na letra, fotografou o papel e enviou a receita da arco-íris por escrito. Do outro lado da tela do celular, quem recebeu a imagem foi Clara, menina de 12 anos e filha da autora deste texto. As palavras foram logo transcritas para o caderninho em que a garota anota as ‘comidas preciosas’. Ela aprendeu desde cedo que cozinhar é um jeito de transmitir afeto.
Mais um ponto para a arco-íris da Vó Cida. Agora, neste Paladar, a sobremesa também ganhou mais uma forma de alcançar o sabor da eternidade.
Gelatina arco-íris da Vó Cida
Ingredientes
Para uma receita:
- 4 pacotinhos de gelatina
- 1 pacote de gelatina de limão
- 1 pacote de gelatina de uva
- 1 pacote de gelatina de abacaxi ou maracujá
- 1 pacote de gelatina de morango ou cereja
Para o creme:
- 1 caixa de creme de leite
- 1 caixa de leite condensado
- 1 pacotinho de gelatina incolor
Modo de preparo
Gelatinas coloridas
- Para cada pacotinho de gelatina, coloque 200 ml de água fervente.
- Dissolva bem a gelatina.
- Leve à geladeira até firmar.
- Depois de firmes, pique todas as gelatinas em cubinhos.
Creme
- Dissolva a gelatina incolor em 150 ml de água fervente.
- Bata no liquidificador com o creme de leite e o leite condensado.
- Coloque as gelatinas picadas em um recipiente.
- Despeje o creme sobre elas.
- Misture delicadamente.
- Leve à geladeira até firmar.






