Cozinheira de Itapecerica resgata sabores da infância e publica receitas online

Na cozinha de Edna Ribeiro, conhecida como Ieie, as receitas carregam o sabor da infância e do interior. Preparar um bolo, uma broa ou um biscoito doce é também um jeito de reencontrar pessoas queridas, recordar os ensinamentos da família e preservar sabores que atravessaram gerações.

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Em Itapecerica, no Centro-Oeste de Minas, ela converte esse legado em receitas divulgadas na internet. Recentemente, essas preparações também passaram a integrar um livro digital de receitas.

Esta é a sétima reportagem da série “Itapecerica: Sabores, Sons e Memórias”, publicada pelo g1 aos domingos, que mergulha nas histórias de personagens marcantes da cidade para revelar costumes, tradições, saberes e memórias que ajudam a contar a identidade cultural de Itapecerica. Nesta edição, a série apresenta a trajetória de Edna Ribeiro, que encontrou na cozinha uma forma de preservar a história da própria família.

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Aprendizado que vem da infância

O aprendizado teve início na infância, quando Edna observava a mãe e a avó preparando as quitandas. Naquela época, as chamadas ‘brincadeiras de casinha’ representavam uma oportunidade de imitar os adultos e dar os primeiros passos na cozinha.

À medida que crescia, passou a acompanhar a avó nos preparos e a descobrir os segredos das receitas que, antes de alcançarem as redes sociais, circulavam dentro de casa.

“Eu aprendi a cozinhar observando a minha mãe. Naquela época, não tinha esse mundo digital de hoje. A gente brincava era de casinha, fazia comidinha e imitava as nossas mães”, conta Edna.

A lembrança da avó permanece em um dos ensinamentos que Edna carrega até hoje. Quando as netas tentavam fazer quitandas e o resultado não saía perfeito, a avó dizia que era necessário deixar as meninas aprenderem.

“Deixa as minhas santinhas, é assim que elas vão aprender”, dizia, segundo Edna.

Essa frase sintetiza um modo de ensinar baseado na convivência, na paciência e no carinho.

O Caderninho

Foi nesse contexto que surgiu o caderninho de receitas da família. Edna explica que não se trata de um livro tradicional, mas de um caderno que a mãe, moradora da roça, foi preenchendo com o passar do tempo. Quando havia um intervalo entre as tarefas, anotava uma receita.

Em outras ocasiões, ditava os ingredientes e o modo de preparo para que uma das filhas escrevesse. O material reúne receitas aprendidas com a mãe, a avó e a bisavó, constituindo um registro da história familiar.

Abrir o caderninho é como retornar à infância. Edna afirma sentir saudade, alegria e um privilégio enorme por ter vivenciado aquelas experiências. Para ela, o valor das receitas reside justamente na capacidade de trazer de volta momentos e pessoas que já não estão presentes.

Cada preparo se transforma em uma oportunidade de preservar lembranças que poderiam se perder com o tempo.

“Cada receita traz um pouquinho das lembranças das pessoas que fizeram parte da nossa vida e não estão mais presentes. Quando a gente prepara essas receitas, de certa forma, também resgata essas pessoas, esses momentos e todo o carinho que ficou guardado na nossa memória”, afirma.

Um bolinho de taioba e a lembrança do pai

Entre as muitas receitas guardadas pela família, o bolinho de taioba ocupa um lugar especial na memória de Edna. O preparo remete ao pai, que gostava de ir para o fogão e fazer o quitute para os filhos. A cena permaneceu gravada na lembrança: era ele quem anunciava que aquele seria o dia do bolinho de taioba.

“Ele mesmo ia para o fogão e falava: ‘Hoje é dia do bolinho de taioba, pode deixar que eu faço’”, recorda.

A lembrança revela que o afeto pela culinária não vinha apenas das mulheres da família. O pai também encontrava na comida uma forma de demonstrar amor e cuidar dos filhos. Para Edna, a receita é inseparável da pessoa que a preparava e dos momentos compartilhados ao redor dela.

Outra receita que guarda uma história particular é o Biscoito Pinguinho. O nome surgiu de uma brincadeira carinhosa da avó, que fazia um biscoito doce em formato de patinho e preparava um para cada neta. Depois, pedia que cada uma escolhesse um nome para o próprio biscoito. Edna escolheu Pinguinho, nome que ficou na memória e passou a identificar a receita.

“Eu não me esqueço do carinho que a minha avó dedicava a nós, e até a culinária era uma forma que ela encontrava para demonstrar esse amor”, diz.

Da cozinha de família à internet

A cozinha de Edna segue como ponto de encontro da família. É ali que os sobrinhos, principalmente os que moram fora e chegam de viagem, se reúnem para conversar e comer. A tradição de receber os parentes com comida, herdada da mãe e da avó, continua presente na rotina.

Foi a partir desse ambiente que surgiu a ideia de compartilhar as receitas na internet. O sobrinho Marco Aurélio Andrade sugeriu que ela começasse a mostrar o que fazia na cozinha. Edna conta que, inicialmente, afirmou não ‘levar jeito’ para produzir conteúdos.

O incentivo dos filhos, porém, ajudou a transformar a ideia em uma nova maneira de dividir o conhecimento. Foi assim que nasceu o perfil dela na internet: Cozinha da Ieie, um apelido carinhoso pelo qual os sobrinhos a chamam.

Aos poucos, os preparos que antes eram ensinados dentro de casa passaram a alcançar outras pessoas. Edna afirma que cada receita publicada leva um pouco do amor e do carinho que ela coloca na cozinha. O retorno dos seguidores, especialmente quando fazem uma receita e a marcam nas redes sociais, tornou-se parte importante desse trabalho.

“Para mim, cada receita que ensino e cada conteúdo que compartilho levam um pouquinho do meu amor e do meu carinho para cada seguidor”, afirma.

O contato com o público também permite que receitas menos conhecidas encontrem novos interessados. Edna conta que muitos seguidores demonstram surpresa ao descobrir preparos que nunca tinham visto e dizem que pretendem tentar fazer em casa. Quando recebe o resultado de uma receita reproduzida por alguém, ela comemora a possibilidade de ver aquele sabor continuar circulando.

Um legado para o futuro

O resgate da culinária da roça é uma das razões pelas quais Edna mantém o trabalho. Ela reconhece que as receitas aprendidas com a mãe e a avó fazem parte de uma herança familiar, e os preparos criados ao longo da própria trajetória passam a integrar esse repertório.

Entre os sabores que gostaria de ver preparados pelas próximas gerações estão o Pinguinho, a broa de cará e a broa de queijo. Para ela, cada receita merece ser repassada porque carrega uma lembrança diferente. O desejo é que os sabores não se percam com o tempo.

Edna já lançou o primeiro livro de receitas em formato digital, disponível na bio do Instagram dela. O projeto amplia o acesso a esse acervo e permite que as receitas de família sejam consultadas por pessoas que não fazem parte do círculo familiar.

Se tivesse que escolher uma única receita para deixar como herança, Edna ficaria com o bolo d’água. A preparação simples, feita com poucos ingredientes, lembra a tia Luísa, que costumava fazer o bolo. É uma receita que, na visão dela, reúne sabor e memória em uma preparação que pode continuar sendo feita por muitos anos.

“Se eu pudesse deixar uma receita e uma lembrança para as próximas gerações, seria o bolo d’água: uma receita simples, saborosa e cheia de afeto”, finalizou.

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