Sabores tradicionais do interior de Venâncio Aires/RS

Seja na Festa do Bastião, no almoço de sábado nas comunidades ou na janta semanal entre amigos, o apreço pela galinhada em Venâncio Aires/RS, transformou a receita em algo que vai além de um sabor afetivo para os moradores da Capital do Chimarrão. O prato foi oficialmente reconhecido como a iguaria típica do município.

Continua após a publicidade

Além da galinhada, que é praticamente uma unanimidade em todo o território venâncio-airense, existem receitas específicas que se tornaram tradição em certas localidades. Algumas possuem uma história bem antiga, enquanto outras são mais recentes, mas todas já fazem parte da identidade cultural desses lugares. Este conteúdo destaca a boia-forte de Linha Marechal Floriano, a galinha com massa de Vila Palanque e a batata-doce caramelizada de Linha Grão-Pará.

A batata-doce caramelizada de Linha Grão-Pará

“O segredo é não economizar no açúcar”, brinca Vera Lucia Becker Fritzen, de 58 anos. Nascida, criada e ainda residente em Linha Grão-Pará, a agricultora aposentada é a responsável pela fama da batata-doce caramelizada servida em festas e eventos na Associação Esportiva São Pedro (Assespe).

Continua após a publicidade

Vera conheceu a receita em um programa de televisão e resolveu experimentá-la em casa. Em um certo dia, durante o futebol de Veteranos da Assespe, faltava aipim para complementar o almoço e surgiu a ideia de preparar a batata. “Isso começou há cerca de quatro anos. Chegamos a pensar em substituir o aipim de vez, de tão bem que foi aceita. A região, de colonização alemã, aprecia misturar doce com salgado, e o pessoal adorou”, ressalta Vera. Desde então, a batata-doce caramelizada tornou-se presença constante, seja nos jogos de futebol, bailes, festas e outros eventos no ginásio da associação, incluindo a festa anual da Assespe.

Ela relata que, desde que se entende por gente, está envolvida na cozinha da Assespe e é a principal responsável pelo preparo da receita. “Contamos com uma equipe muito boa, que trabalha unida. No caso da batata caramelizada, recebo ajuda para descascar e cortar, mas o preparo da calda fica sempre sob minha responsabilidade.”

Sucesso entre os visitantes

Adelaide Weschenfelder, de 50 anos, colaboradora da associação há mais de duas décadas, também está sempre envolvida. “Muitas pessoas de outras cidades, ao chegarem para os jogos ou festas, já passam na cozinha para perguntar: ‘vai ter aquela batata boa hoje?’. Isso já se tornou uma tradição”, comenta Adelaide.

Para Vera e Adelaide, que são cunhadas, a melhor combinação para degustar a batata caramelizada é com carne de churrasco. “Mas há quem prefira comê-la sozinha, quase como uma sobremesa, pois a calda lembra a do pudim”, observa Vera.

Receita da batata caramelizada

  • 50 quilos de batata-doce de casca rosada*
  • 10 quilos de açúcar cristal*

Modo de preparo: ferver o açúcar com água até obter uma calda no ponto de pudim. Adicionar um pouco mais de água e então colocar as batatas picadas. Não é necessário cobri-las totalmente. Cozinhar por 15 a 20 minutos, até o líquido quase secar. Por fim, derramar sobre as batatas a calda restante.

* Esta quantidade serve aproximadamente 500 pessoas, conforme os almoços servidos na Assespe.

Boia-forte, a tradição de Linha Marechal Floriano

Em Linha Marechal Floriano, a receita mais famosa começou a ser preparada há mais de seis décadas. Em 1959, na inauguração da Escola Estadual de Marechal Floriano, foi servida uma boia-forte, um ensopado de caldo grosso feito com carne de galinha e legumes. O preparo naquela ocasião ficou a cargo de Arthur Bencke (1905-1989), pai da professora aposentada Eloá Sílvia Bartholdy, de 74 anos. “Guardo essa lembrança até hoje; eu tinha oito anos. Aprendi a receita com meu pai. Essa boia-forte foi se tornando uma tradição ao longo dos anos e até hoje é feita nos eventos”, conta Eloá, que hoje reside no bairro São Francisco Xavier, mas viveu em Marechal por setenta anos.

Quem também aprendeu a receita com Arthur foi Teonilo Bartholdy (1946-2021), marido de Eloá. “Como meu pai desejava que o prato mantivesse a tradição, ele repassou a receita para o genro. Meu marido preparava nas festas das comunidades, como kerbs e quermesses, nos encontros da Oase [Ordem Auxiliadora das Senhoras Evangélicas] e clubes de mães.”

De acordo com Eloá, a boia-forte era preparada em grandes panelões de ferro e sua fama ultrapassou os limites de Linha Marechal Floriano. Teonilo era frequentemente convidado para prepará-la em festas de localidades vizinhas e até no interior de Santa Cruz do Sul.

A chancela do pastor Lair

A boia-forte também recebeu o aval de uma figura conhecida em Venâncio Aires: o pastor luterano Lair Hessel (falecido em 2019, que atuou durante 34 anos no município). “O pastor Lair, quando chegou para atender nossa comunidade, em 1986, e participava dos almoços, considerou aquele um prato excelente. Foi ele quem disse: ‘uma comida tão boa, feita há tanto tempo, esse é o prato típico de Grüner Jäger’”, relata Eloá, referindo-se ao nome original da localidade de Marechal.

Grüner Jäger, em alemão, significa caçador verde. O nome faz alusão a um soldado alemão, Christian Heinrich Bencke, o primeiro imigrante a chegar em Centro Linha Brasil, no ano de 1860.


Receita da boia-forte, para cerca de 20 pessoas

  • 6 quilos de carne de frango
  • 3 quilos de batata inglesa
  • Dois pacotes de massa de 500 gramas
  • Uma lata de ervilha de 500 gramas
  • Uma lata de extrato de tomate
  • Uma lata de milho de 500 gramas
  • 1 quilo de cebola
  • 1 quilo de tomate
  • Uma dúzia de ovos
  • Água, tempero verde e sal a gosto

Como preparar: fritar bem a carne (geralmente com banha). Retirar e reservar. Preparar o molho com tomate, cebola e extrato. Acrescentar água, as batatas, os demais ingredientes e a carne reservada. Mexer sem parar até obter um molho cremoso. Por último, adicionar a massa, o tempero verde e os ovos cozidos picados.

Galinha com massa de Vila Palanque

A história da receita mais famosa de Vila Palanque está diretamente ligada a um evento que quase aconteceu há 25 anos: a emancipação do 6º distrito de Venâncio Aires. No dia 11 de maio de 2001, quando o município completou 110 anos, foi criada a comissão de emancipação de Palanque. A partir daí, iniciou-se a busca pelos documentos necessários para dar continuidade ao processo. Muitas tentativas foram feitas e, até hoje, moradores ainda comentam sobre o assunto.

Naquela época, eram necessárias diversas viagens, que demandavam recursos. Uma forma viável de arrecadar fundos em Venâncio Aires sempre foram as galinhadas. Em Palanque, porém, decidiram por uma variação: ao invés de arroz, a receita levava massa. “Deu muito certo, continuaram fazendo nos anos seguintes e o prato se tornou tradicional”, conta o agricultor Clóvis José de Oliveira, de 56 anos.

Segredo?

Ele começou a ajudar no preparo há cerca de vinte anos e, há quinze, é um dos líderes da ação junto com sua esposa, Silvane Beatris Ribeiro de Oliveira, de 57 anos. “O segredo da galinha com massa, que atrai tanta gente, é que ela sempre foi muito bem preparada. Há muito amor no que fazemos e também o ambiente de amizade, que é fundamental”, define Oliveira.

Receita da galinha com massa, para cerca de 110 pessoas

  • 30 quilos de carne de galinha
  • 8 quilos de tomate
  • 8 quilos de cebola
  • 1 quilo de extrato de tomate
  • Dois pacotinhos de corante
  • 12 quilos de massa
  • Salsa e cebolinha a gosto
  • 3 quilos de banha para fritar a carne

Preparo: fritar a carne de galinha com meio quilo de sal. Retirar a carne e a gordura. Colocar água, tomate, cebola, extrato e corante. Ferver até formar o molho. Recolocar a carne e, no final, adicionar a massa. Quando a massa estiver no ponto, retirar o panelão do fogo e acrescentar o tempero verde.

Em Mato Leitão, a tripa recheada

No município vizinho, Mato Leitão, também existe uma receita muito conhecida, preparada há anos: a tripa recheada. Trata-se de um dos marcos das festas intercomunitárias da Cidade das Orquídeas. Em 2026, durante as comemorações dos 34 anos do município, foram preparados cerca de 150 quilos do prato.

A iguaria é feita com tripa de rês recheada com carne bovina e suína, arroz, batata e tempero verde. É uma receita bastante caseira, que não leva conservantes nem corantes. Nos últimos anos, ela é assada em espetos na churrasqueira, mas nos primeiros tempos era preparada em fornos.

A professora aposentada Glacy Teresinha Henz, de 79 anos, que ajudou no preparo da tripa por décadas, lembra bem. “Começávamos de madrugada, fritando a carne num tacho no porão da Seubv. Eram assadas em formas dentro de fornos a lenha, depois na padaria Santa Inês. Mais tarde, passou a ser feita no espeto”, relata Glacy.

Continua após a publicidade

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
28ºC
Máxima
31ºC
Mínima
24ºC
HOJE
09/04 - Qui
Amanhecer
05:50 am
Anoitecer
05:34 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
4.68 km/h

Média
24.5ºC
Máxima
26ºC
Mínima
23ºC
AMANHÃ
10/04 - Sex
Amanhecer
05:50 am
Anoitecer
05:33 pm
Chuva
8.94mm
Velocidade do Vento
6.17 km/h

Review: Pro Kennex Black Ace 300

Reinaldo Olecio

Leia também