A arte como cuidado no ambiente hospitalar

A atmosfera de um hospital pode ser opressiva. Entre doenças, procedimentos cirúrgicos, rotinas rígidas e momentos de luto, quem está ali — pacientes, familiares ou a equipe médica — enfrenta diariamente situações exaustivas e difíceis de processar. Nesse contexto, ganham ainda mais valor as breves pausas, os momentos de tranquilidade ou a simples chance de se distanciar, nem que seja por instantes, da pressão constante.

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Foi com essa visão que nasceu a iniciativa Contos e Cantos que Encantam, hoje coordenada por Edna Muniz, criadora da Jamim Cultural, organização que mantém o projeto no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP desde 2023.

Com atividades semanais, o programa busca tornar o espaço hospitalar mais humano por meio da arte. Artistas, educadores e músicos realizam apresentações baseadas em narrativas e melodias nacionais, levando-as diretamente a pacientes, acompanhantes e trabalhadores da saúde, seja nos leitos, corredores ou até em áreas de tratamento intensivo.

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Guiado por uma escuta atenta e uma curadoria cuidadosa, o trabalho adapta seu repertório — que inclui fábulas, literatura de cordel, canções tradicionais e mitos regionais — à realidade e ao estado emocional de cada pessoa. Essas ações percorrem diversos setores da instituição, das enfermarias às UTIs, sempre com delicadeza, na tentativa de transformar, mesmo que temporariamente, a experiência de quem está ali.

Há pouco tempo, a iniciativa celebrou 25 anos de existência, tendo tocado a vida de mais de 35 mil pessoas ao longo de sua trajetória. Em 2023, quando a Associação Arte Despertar, então gestora do projeto, encerrou suas atividades, Edna, que já integrava a equipe desde 2017 no setor de captação de recursos, encontrou uma forma de dar continuidade à missão. Com uma carreira sólida no mundo corporativo, foi nessa fase que ela decidiu direcionar seu conhecimento para gerar transformação social.

“Minha carreira sempre foi guiada por metas tangíveis, mas cheguei a um ponto em que percebi que certas conquistas não cabem em gráficos: o alívio no rosto de alguém, a respiração que se acalma, o sorriso que reaparece em meio ao sofrimento”, ela conta.

“Decidi usar toda minha experiência em captação de recursos não apenas para alavancar resultados financeiros, mas para fortalecer uma missão que devolve respeito, acolhimento e esperança a pessoas em situação de vulnerabilidade”, complementa.

Os efeitos são sentidos por diferentes públicos. Jennifer Vitória, uma adolescente de 12 anos que participou de uma das atividades no GRAACC, resume a experiência: “Acho muito importante, porque a música traz alegria. (…) A música ajuda essas crianças a ficarem mais felizes e animadas, dá força para seguirem em frente.

Preparação e metodologia centrada na escuta

A capacitação dos participantes começa antes mesmo do ingresso nos hospitais. O grupo recebe orientação de uma psicóloga e uma pedagoga, com foco tanto no bem-estar próprio quanto no desenvolvimento de uma postura empática e sensível.

“O treinamento é contínuo e une habilidade artística, desenvolvimento emocional e práticas de autocuidado. Dedicamos muita atenção ao conceito de uma presença respeitosa — não vamos com a intenção de ‘salvar’ ninguém, mas sim de compartilhar aquele momento”, explica Edna.

A escuta é a base de toda a abordagem. Segundo a coordenadora, esse processo começa antes de qualquer palavra.

“Nossa equipe entra nos ambientes hospitalares com atenção, observando o entorno, o clima emocional das pessoas e o ritmo de cada lugar. Nada é imposto — tudo é oferecido com gentileza.”

A partir dessa leitura, acontece a escolha afetiva: o conteúdo, o tom e a duração de cada intervenção são definidos de acordo com a situação vivida por quem está presente. “Essa sensibilidade é fundamental para que a arte cumpra, de fato, seu papel de acolhimento”, ela ressalta.

No maior complexo hospitalar da América Latina, a experiência tem mostrado algo essencial: independentemente da grandiosidade técnica e física, a necessidade humana permanece a mesma — a de ser visto, de ser valorizado em sua individualidade. Só no Hospital das Clínicas, a partir de junho de 2024, as atividades já beneficiaram um grande número de pessoas, criando breves intervalos de calor humano no meio da rotina exigente dos tratamentos.

Impacto coletivo e expansão

Além dos pacientes, o projeto também oferece suporte a acompanhantes e profissionais de saúde, muitas vezes deixados em segundo plano na dinâmica hospitalar. “Percebi que a dor dentro de um hospital é compartilhada”, reflete Edna.

“Os pacientes sentem o sofrimento mais visível, mas os familiares carregam o peso da espera. Os profissionais, por sua vez, lidam com um estresse enorme e têm poucas oportunidades para pausas. Criar, mesmo que por minutos, um terreno comum de humanidade, muda o clima emocional de todo o ambiente.”

Amparado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, o Contos e Cantos que Encantam continua a se expandir, com o objetivo de alcançar novas instituições de saúde e diferentes regiões do Brasil. Em um cenário marcado pela fragilidade, a iniciativa reforça que a arte vai além do entretenimento: é também uma forma de cuidado, de criação de vínculos e de ressignificação da experiência da dor.

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