Muitas pessoas passam por uma fase incômoda em certos momentos da vida. De um lado, há o medo que paralisa e nos prende à indecisão. Do outro, a urgência de dar “um passo maior que a perna”, que promete sucesso imediato, mas esconde riscos. A sociedade costuma nos empurrar para esses extremos: a busca por resultados rápidos de um lado, e o fantasma do fracasso do outro. Enquanto isso, o movimento genuíno, aquele passo consciente e factível, parece quase proibido.
Como encontrar, então, o ritmo de uma jornada que não seja nem fuga nem imprudência, mas sim atenção em ação?
A psicóloga Adriana Santiago esclarece que essa tensão tem raízes profundas em nossa mente. “O cérebro humano rejeita a falta de clareza. Quando a incerteza se prolonga, duas reações problemáticas costumam aparecer: o bloqueio total ou a ação impensada. Ambas são tentativas de aliviar a pressão interna. Nenhuma delas representa, de fato, uma decisão ponderada”, explica.
Elas são dois lados da mesma moeda: o desafio de suportar a ambiguidade e a frustração, que são naturais em qualquer caminho de crescimento pessoal.
O medo que vira uma cela
Para escapar dessa armadilha, o primeiro passo é entender a natureza do que enfrentamos. Nem todo receio é ruim. Existe aquele que nos protege e aquele que nos aprisiona.
“Do ponto de vista da neurociência, o medo protetor é regulador; o que paralisa é inibitório”, destaca Adriana. O receio saudável aciona um alarme adequado: analisamos os perigos, consideramos as opções. O córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento, assume o comando.
Já o medo paralisante é uma sobrecarga emocional. “A amígdala cerebral domina a cena, o organismo entra em estado de alerta máximo e os pensamentos começam a girar em torno de cenários catastróficos”, detalha a especialista. O diálogo interno muda: deixa de ser um ‘como posso fazer isso com mais cuidado?’ e vira um ‘não faça’ peremptório e absoluto.
A ilusão de segurança no controle
Muitas vezes, a inação se disfarça de cautela. Esperamos a hora perfeita, a segurança total, a certeza absoluta de que não haverá contratempos. Essa, porém, é uma expectativa irreal.
“Exigir certeza é pedir ao futuro algo que ele não pode garantir. A convicção plena só vem depois da experiência, nunca antes”, afirma Adriana. Nessa espera sem fim, deixamos escapar muito mais do que oportunidades.
“Perdemos a fé na nossa própria capacidade. Muitos desejos morrem por excesso de precaução.”
No polo oposto, a impulsividade se apresenta como um atalho. É a tentação de dar um “passo maior que a perna” para acabar logo com o desconforto da espera. No entanto, um salto no escuro, sem preparo, geralmente termina em queda. A segurança real, como aponta a psicóloga, não vem de promessas externas.
“A confiança interna não se constrói na ausência de risco, mas na consciência dos próprios recursos. Não é saber que tudo vai dar certo, é saber que você não desmorona se algo sair errado.”
A arte do passo possível
Se nem a estagnação nem a pressa são a solução, para onde ir? A resposta está no “passo possível”, um conceito que Adriana explica com clareza.
“Pequenas ações são terapêuticas quando geram crescimento; viram procrastinação quando só mantêm a pessoa ocupada, sem um avanço real”, esclarece. O critério não é o tamanho, mas o impacto.
“Se o medo diminui e a energia vital aumenta, estamos no caminho certo.”
Como saber, então, se estamos dando um passo possível e não apenas um passo cômodo? A psicóloga lista alguns sinais:
- Há inquietação, mas também motivação;
- Existe apreensão, porém junto com interesse;
- O corpo reage, mas não é dominado pelo pânico;
- E, principalmente, a pessoa sente que está sendo fiel a si mesma, aos seus valores, e não apenas se protegendo.
“O passo cômodo deixa tudo como está. O passo possível promove o amadurecimento interior — mesmo que ninguém perceba por fora”, conclui.
O erro como parte do caminho
Aceitar o passo possível implica, naturalmente, aceitar a chance de errar. A jornada nunca é uma linha reta. A frustração e a culpa são companheiras comuns quando os resultados fogem do esperado.
Adriana nos convida a ressignificar essa experiência. “Primeiro, lembrando que a decepção não é uma falha de caráter; faz parte do processo de viver. A culpa surge quando confundimos resultado com mérito pessoal.”
A Psicologia Positiva, segundo ela, propõe uma mudança de olhar: sair do “deu certo ou não deu” para o “o que eu aprendi, o que me fortaleceu, o que ajusto agora?”.
“No consultório, costumo dizer que errar não é o problema; o problema é exigir de si mesmo uma onipotência inatingível”, reflete. É um lembrete valioso de que nossa humanidade está justamente na capacidade de tentar, falhar, entender e seguir em frente.
No final das contas, a vida não é um salto único e espetacular, mas uma sequência contínua de passos possíveis. Alguns serão firmes, outros hesitantes; alguns nos levarão para frente, outros nos farão desviar de obstáculos. O que importa não é a velocidade ou a grandiosidade do ato, mas a coragem de continuar se movendo.
Entre o pântano da imobilidade e o precipício da impulsividade, há uma vereda. Ela não está no mapa porque é traçada a cada movimento. É o caminho que se faz ao caminhar, com o coração batendo no ritmo da pergunta que substitui tanto o “não faça” quanto o “pule agora”: “qual é o passo possível, neste momento?”.
E assim, um passo após o outro, vamos abrindo uma trilha de autoconfiança, independentemente do terreno, com a vontade de seguir adiante.







