Era segunda-feira, eu estava sentado devorando meu almoço, um prato alegre, cheio de comida de verdade. Estava tão focado nisso que quase resisti à vontade de pegar o telefone, mas… peguei!
Ao abrir, fui direto ao Instagram, aplicativo que uso para trabalhar. Lá estava a mensagem de uma colega. Ansioso que sou, abri!
Não havia uma palavra sequer, um cumprimento ou um simples “oi”, somente uma matéria de jornal com a notícia: “Pedestre morre atropelado por carro na Mata da Praia, em Vitória.”
Abaixo do título, a foto do meu colega Alexandre. Pensei: por que a foto do Alexandre está aqui? Imaginei: vai ver essa é uma capa com diversas notícias e a foto do Alê esteja aí por… Não, a ficha caiu! Era ele, meu colega. Ele estava morto e foi assim que a notícia de sua morte trágica chegou até mim!
Eu fiquei triste, com raiva e tive vontade de vomitar. Meu estômago se contorceu e depois fui tomado por uma enorme ansiedade.
Estava atônito, olhando para uma parede do restaurante, quando uma colega entrou, se aproximou sorrindo, chamou meu nome e perguntou: “Fabrício, você está bem?”
Por alguns segundos eu fiquei inerte e disse: “Não!”
Ela, preocupada, perguntou o que havia acontecido; eu contei. Ela sentou-se comigo e foi a companhia dela que me trouxe a consciência sobre aquele momento. Enquanto eu ainda lamentava, incrédulo, nós dois falávamos sobre a fragilidade de nossas existências.
Semanas antes da trágica notícia, eu e Alê tentamos marcar alguns encontros. Não conseguimos. O motivo: estávamos muito ocupados.
Quando foi que deixar de ver as pessoas por esse motivo passou a ser algo normal? Que performance suicida é essa que estamos fazendo todos os dias para gerar resultados que nunca são suficientes?
A quem servimos? Quando ver um amigo, um familiar ou marcar um date deixou de ser importante? A verdade é que as redes sociais nos deixaram tão próximos, que ficamos distantes.
Os jogos de tabuleiro, o baralho, as cartas, o dominó, as horas em frente à TV cantando nos karaokês e dançando músicas aleatórias, as conversas que levavam horas, o cochilo no sofá ou no tapete da casa dos amigos, o grupo que ia à praia, as viagens que planejávamos em grupo… onde foi parar tudo isso?
Tudo virou performance. O amigo que questiona passa a ser empecilho; a mãe que cobra: chata; o chefe que exige: um monstro; a colega que aconselha: enxerida ou invejosa… A vida na pós-modernidade virou uma performance onde o ego e os traços do narcisismo são exaltados em doses cavalares a cada segundo. Qualquer atividade, pessoa ou ideia que possa confrontar essa performance vira alvo, vira empecilho e, logo, é eliminada.
Porém, nos esquecemos que existe uma entidade poderosa que jamais poderá ser driblada: a morte!
Ela não escolhe o dia. Projetos inadiáveis, o abraço não dado, o beijo negado, a raiva, o julgamento, a pressa, o prazo e os resultados: tudo isso fica e, em poucas horas, desaparece.
Levantei-me, fui à floricultura, fiz um arranjo colorido para o Alê, porque ele foi essa pessoa que deixava cor por onde passava. Me arrumei e fui ao velório. Por lá, muita gente, muitas homenagens, uma família se despedindo e a maior lição de todas: a vida do Alexandre valeu a pena!
O trabalho e os compromissos que ele deixou, nada disso fazia sentido ali; somente importava o amigo, o filho, o irmão, o colega, o parceiro. Quem estava ali eram as memórias deixadas por ele. No final, viver é só isso: criar memórias, laços, vínculos verdadeiros, afetos e sorrisos.
Saí dali ao lado de uma amiga que também tinha ido se despedir; tomamos um café que há dois anos nos prometíamos tomar. Fui com ela em um café que, desde a inauguração, eu queria conhecer, mas não conhecia porque nunca tinha tempo.
Uma pessoa querida se foi, a vida continuou sem ela, mas a sua trajetória de afetos ficou e ali, naquele lugar de despedida, Alê nos deu seu último recado: viva, conecte-se, crie memórias.
Sua vida foi tirada pela violência do trânsito. Um veículo em alta velocidade, acelerado como estes tempos desumanos, tirou o Alê de nós!
Tantas vidas seriam poupadas se as cidades fossem feitas para pessoas e não para veículos. Quantos abraços seriam dados se trabalhássemos para viver e não vivêssemos para trabalhar; quantos casos de amor e relações longas existiriam se os afetos não tivessem se tornado descartáveis.
E no final, quando as luzes se apagarem, o que ficará?






