21 de fevereiro de 2026
sábado, 21 de fevereiro de 2026

Encontro entre Índia e Brasil reúne superlativos

Durante sua visita oficial à Índia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou as afinidades entre os dois países e seu papel central na transformação da ordem multilateral internacional. Ao lado do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, o mandatário brasileiro reafirmou a necessidade de reformar instituições como a ONU e de ampliar a voz dos países do Sul Global nas decisões que moldam o futuro da humanidade.

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Em coletiva concedida junto ao líder indiano, Lula ressaltou as oportunidades de colaboração bilateral em setores como tecnologia, inovação, transição energética, saúde, agricultura e pecuária.

O encontro entre Índia e Brasil é uma reunião de superlativos: não somos apenas as duas maiores democracias do Sul Global. Este é o encontro da farmácia do mundo com o celeiro do mundo. De uma superpotência digital com uma superpotência da energia renovável. Somos megadiversos e polos da indústria cultural. Defensores do multilateralismo e da paz”, destacou Lula.

A comitiva brasileira participou de diversos eventos desde quarta-feira em Nova Délhi. Autoridades das pastas de saúde, educação, indústria, comércio, gestão pública, ciência, tecnologia, agricultura, infraestrutura e meio ambiente debateram possibilidades de parcerias. Foi destacada a importância de regular a inteligência artificial para que ela não sirva apenas a interesses minoritários e ao lucro, mas sim promova benefícios para a qualidade de vida global. Para este domingo, está agendada a presença de Lula no encerramento de um fórum empresarial que contou com a participação de centenas de empresários brasileiros de diversos setores.

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Narendra Modi, por sua vez, enfatizou o objetivo de elevar o intercâmbio comercial bilateral para mais de 20 bilhões de dólares nos próximos cinco anos, destacando a cooperação em múltiplas frentes.

“O nosso comércio não é só um número, ele é um símbolo de nossa confiança mútua. A nossa cooperação na área de agricultura e resiliência climática, agricultura de precisão, biofertilizantes, vai fortalecer a segurança alimentar de ambos os países. Temos possibilidades ilimitadas de cooperação na área de saúde, na área farmacêutica, e vamos trabalhar para melhorar o fornecimento de medicamentos a preço acessível e de qualidade para o Brasil. Nós também concordamos que, para enfrentarmos os desafios do momento atual, as reformas nas instituições internacionais são obrigatórias”, frisou.

Lula lembrou a visita do primeiro-ministro indiano ao Brasil, em julho de 2025, ocasião em que realinharam a agenda bilateral de cooperação em cinco eixos: Defesa e Segurança; Segurança Alimentar e Nutricional; Transição Energética e Mudança do Clima; Transformação Digital e Tecnologias Emergentes; e Parcerias Industriais em Áreas Estratégicas. “Hoje, em Nova Délhi, no ano em que celebramos 20 anos do estabelecimento da Parceria Estratégica Brasil – Índia, estamos passando à ação. Assinamos diversos acordos que dão concretude à nossa cooperação nesses campos”, ressaltou Lula.

Excelentíssimo senhor Primeiro-Ministro da República da Índia, Narendra Modi, amigos ministros da Índia, amigos e amigas ministros e ministras do Brasil.

Meu caro amigo Modi,

É motivo de alegria retornar pela sexta vez a este grande país.

O encontro entre Índia e Brasil é uma reunião de superlativos:

Não somos apenas as duas maiores democracias do Sul Global.

Este é o encontro da farmácia do mundo com o celeiro do mundo.

De uma superpotência digital com uma superpotência da energia renovável.

Somos ambos países megadiversos e polos da indústria cultural.

Somos ambos defensores do multilateralismo e da paz.

O convite do Primeiro-Ministro Modi para esta Visita de Estado e também para participar da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial demonstra a sintonia e a confiança mútua que nos unem.

Há poucos meses, em julho de 2025, tive a honra de receber meu amigo Modi em Brasília.

Sua visita foi um divisor de águas.

Naquela ocasião, reestruturamos a agenda bilateral de cooperação em cinco eixos:

  • Defesa e Segurança;
  • Segurança Alimentar e Nutricional;
  • Transição Energética e Mudança do Clima;
  • Transformação Digital e Tecnologias Emergentes;
  • Parcerias Industriais em Áreas Estratégicas.

Hoje, em Délhi, no ano em que celebramos 20 anos do estabelecimento da Parceria Estratégica Brasil – Índia, estamos passando à ação.

Por isso, a preparação desta visita envolveu a vinda do meu Vice-Presidente Geraldo Alckmin e de uma delegação empresarial no ano passado.

Envolveu, também, a vinda antecipada de vários ministros e de trezentos empresários nesta semana.

Assinamos diversos acordos que dão concretude à nossa cooperação nesses campos.

A notável evolução indiana em setores de ponta — como tecnologia da informação, inteligência artificial, biotecnologia e exploração espacial — cria muitas oportunidades de cooperação com o Brasil.

A Parceria Digital para o Futuro com a Índia – a primeira desse tipo para o Brasil – traduz nosso compromisso com uma agenda que coloca a tecnologia a serviço do desenvolvimento inclusivo.

Ampliar os investimentos e a cooperação em matéria de energias renováveis e minerais críticos está no cerne do acordo pioneiro que assinamos hoje.

No marco da Aliança Global para Biocombustíveis, nossos países estão assegurando o devido espaço para essa tecnologia na agenda climática e energética global.

O estabelecimento de sinergias entre os complexos industriais da saúde de nossos países também é uma parte central da cooperação bilateral.

Índia e Brasil trabalham lado a lado, há décadas, na defesa do acesso equitativo a medicamentos, sobretudo genéricos, e da soberania sanitária na Organização Mundial da Saúde.

Nesta visita, a Fiocruz assinou diversos acordos para pesquisa e produção local de insumos estratégicos, como a vacina para tuberculose e medicamentos oncológicos, imunossupressores e para doenças negligenciadas e raras.

Também há grande potencial de colaboração na área de hospitais inteligentes, como o que o ministro Padilha visitou em Bangalore há dois dias.

Na área da defesa, nossa indústria aeronáutica vem fortalecendo sua presença na Índia, como comprova a abertura do Escritório da Embraer em Nova Délhi.

O acordo trilateral entre a Mazagon Dock e as Marinhas indiana e brasileira vai integrar as atividades de manutenção de submarinos da Classe Scorpène e de outros navios militares.

Todos esses esforços contribuirão para alcançarmos a meta que o Primeiro-Ministro Modi e eu acordamos no ano passado: elevar nosso comércio a 20 bilhões de dólares até 2030.

Em 2025, o fluxo bilateral superou 15 bilhões de dólares pela primeira vez na história, um crescimento de 25% em relação a 2024.

Estamos avançando tão rápido que deveríamos revisitar nosso objetivo para chegar a 30 bilhões de dólares de intercâmbio.

O acordo para ampliar a validade dos vistos de turismo e negócios de cinco para dez anos constitui um passo inicial para facilitar e aumentar o fluxo de pessoas entre nossos países.

Da mesma forma, o Fórum Econômico Brasil – Índia reunirá cerca de 600 representantes dos setores privados dos dois países em torno de inúmeras oportunidades de negócios.

Como resposta ao unilateralismo comercial, tanto o Mercosul como a Índia concluíram recentemente acordos de livre comércio com a União Europeia.

É, portanto, mais do que natural que o Mercosul e a Índia trabalhem para ampliar de forma significativa o Acordo de Comércio Preferencial que já existe entre nós.

Meus amigos e minhas amigas,

Um cenário global turbulento exige que nossos países aprofundem seu diálogo estratégico.

Recebi a presidência do G20 do Primeiro-Ministro Modi, em 2024.

Este ano, a Índia recebeu do Brasil a presidência do BRICS.

Esse “trânsito de presidências” entre nossos países é extremamente benéfico para os interesses do Sul Global.

Índia e Brasil são vozes fundamentais nas Nações Unidas, na OMC e no G20.

Somos parceiros na construção de uma governança multilateral mais justa, pacífica e regida pelo Direito Internacional.

O Primeiro-Ministro Modi e eu conversamos longamente sobre a perseverança no caminho da Paz.

Não há possibilidade de desenvolvimento sustentável e justo em um mundo conflagrado.

Como afirmou o Primeiro-Ministro Modi na Cúpula do BRICS no Rio de Janeiro, “é impossível rodar um software do século 21 em velhas máquinas de escrever do século 20”.

Reiteramos nosso compromisso com a reforma da ONU, especialmente do Conselho de Segurança, que represente os interesses do Sul Global e que tenha Brasil e Índia como candidaturas naturais.

Aqui é importante lembrar à imprensa indiana e brasileira que, há mais de 20 anos, Brasil, Índia, Alemanha e Japão construíram um grupo chamado G4 defendendo a ampliação do Conselho de Segurança da ONU, coisa que não aconteceu até agora, mas certamente vai acontecer logo. Porque a ONU precisa de mais representatividade

A ONU precisa ter força para interferir nos conflitos que existem pelo mundo hoje, e ela sendo inoperante não vai resolver. Por isso nós vamos continuar a luta para que a ONU seja mais representativa, mais países do mundo inteiro, e mais Índia e Brasil no Conselho de Segurança como membros permanentes.

A ampliação das categorias de membros permanentes e não permanentes é condição essencial para conferir legitimidade e eficácia à governança global, em meio a tantos desafios.

Apoiamos os esforços pelo fim da guerra na Ucrânia.

É igualmente urgente aliviar o sofrimento do povo palestino.

O Brasil repudiou veementemente os atentados na Caxemira.

Sabemos que o terrorismo não está associado a nenhuma religião ou nacionalidade.

Também não pode ser confundido com os desafios de segurança pública que muitos países enfrentam.

São fenômenos distintos e que não devem servir de pretexto para intervenções à margem do direito internacional.

Reafirmei ao Primeiro-Ministro Modi que o Brasil está comprometido com a manutenção da América do Sul como zona de paz.

Afinal, as únicas guerras que a humanidade deve lutar são as contra a fome, a pobreza e a degradação do meio ambiente.

Esta visita de Estado traça um novo capítulo para a longa jornada de cooperação bilateral entre Brasil e Índia.

Meu caro amigo Modi,

Eu queria terminar dizendo a Vossa Excelência que tenha certeza absoluta de que o olhar do Brasil para a Índia é um olhar muito, muito esperançoso. Nós temos na Índia um país com muitas similaridades. Apesar da diferença de quantidade de habitantes, vários dos nossos problemas são similares, nossos conhecimentos científicos e tecnológicos estão próximos e, se nós trabalharmos juntos, a gente vai fortalecer a relação bilateral Brasil-Índia, a gente vai fortalecer a nossa relação com o Mercosul e a gente vai fortalecer o Sul Global, para que a gente não entre nunca mais numa guerra fria entre duas potências.

Muito obrigado.

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