Durante uma videochamada, Shreyas Narlanka exibe uma pequena tela quadrada de 7,6 centímetros chamada Meadow. O aparelho lembra um iPhone 13 mini mais espesso e caberia sem esforço no bolso da frente de uma calça jeans. A impressão imediata é que seria interessante ter um.
O Meadow integra um grupo pequeno, porém em expansão, de dispositivos que prometem ajudar as pessoas a diminuir a hiperdependência dos smartphones.
Entre eles estão o MindOne Pro, da Ikko; o Freckle, um celular voltado ao público infantil; o Light Flip, aparelho básico; e até a capa de alumínio RePod C1, projetada para transformar Apple Watches obsoletos em híbridos de iPhone e iPod.
A startup de Hong Kong responsável pelo RePod vendeu mais de 50 mil unidades desde julho. O MindOne, da Ikko, reuniu 3.411 apoiadores no Kickstarter, que somaram quase US$ 1,5 milhão. Os dois primeiros lotes de pré-venda do Meadow se esgotaram, e a segunda rodada de produção já está em andamento.
Narlanka, de 25 anos, deixou a Universidade da Califórnia e concluiu que era o momento de criar um celular pensado para fazer as pessoas pararem de usar o celular.
Ele sabia que o aparelho exigiria uma experiência de usuário nova. A primeira coisa a sumir seriam os aplicativos que mantêm as pessoas presas às telas. Ainda assim, isso não bastaria.
“Começamos com um protótipo que era, na prática, um smartphone pequeno, reduzido como um iPhone mini, mas ele não parecia diferente. Continuávamos consultando o aparelho como se fosse um smartphone”, relata Narlanka. No Meadow, a meta era criar uma ferramenta útil, não mais um celular.
Por isso, a equipe buscou um formato “que fizesse o cérebro pensar que aquilo era algo completamente diferente”. A resposta, descobriram, tinha menos relação com o formato em si do que com aquilo que ele permite recusar com mais facilidade.
O formato quadrado funciona porque ajuda o cérebro, treinado pelos smartphones, a antecipar um tipo novo de experiência.
Mas essa era apenas metade da equação do Meadow. Ao instalar um aplicativo convencional em uma janela quadrada, ele vira uma confusão apertada e cortada. Por isso, a equipe de design optou por oferecer apenas um conjunto reduzido de aplicativos que os clientes poderiam querer usar fora de casa.


A Meadow selecionou com cuidado uma pequena lista de aplicativos reais e os adaptou ao formato quadrado: chamadas e mensagens de texto; navegação; Uber e Strava para deslocamentos; Spotify e Apple Music para ouvir música no trajeto.
Também há câmera, compartilhamento de localização, anotações, gravação de lembretes de voz e uma função para exibir códigos QR. A primeira atualização de software acrescentou ditado por voz, digitação por gestos e um toque de chamada opcional. E nada além disso. Sem navegador, redes sociais, feed de notícias, Instagram ou TikTok.
O Meadow roda os aplicativos oficiais, sem alterações em seu funcionamento interno. Na criação da interface, os elementos da experiência do usuário são reorganizados com cuidado para se ajustar ao formato quadrado, sem que o aplicativo oficial seja de fato modificado.
Fazer isso com os milhões de aplicativos existentes seria impossível. Mas, como a filosofia de design do Meadow busca uma espécie de nirvana digital livre de ansiedade, a empresa não precisa transformar toda a Google Play Store em quadrados. Basta adaptar o pequeno conjunto de ferramentas que acompanha o aparelho.
Um só formato não serve para todos
A Ikko escolheu outro caminho, mostrando o que ocorre quando os usuários podem instalar qualquer aplicativo em um celular quadrado. A empresa, sediada em Shenzhen, na China, está inundando o Instagram com depoimentos de usuários que elogiam o MindOne Pro, um celular Android fino, do tamanho de um cartão, com tela quase quadrada de 10 centímetros.
Ele é muito bonito e parece ter excelente acabamento. O Sspai, site chinês especializado em gadgets, afirma que a construção é “bastante refinada”, desde o encaixe preciso das peças até a sensação proporcionada pelos materiais. O problema são os aplicativos.


O celular estica tudo para preencher o formato quadrado da maneira que consegue, cortando as partes superior e inferior de vídeos e páginas da internet. Até os aplicativos de telefone e mensagens desenvolvidos pela própria Ikko não estão bem adaptados às proporções da tela, segundo o Sspai.
A tela também é grande demais, ao menos segundo a filosofia da Meadow. Depois de escolher o formato quadrado, a equipe de design procurou uma tela que correspondesse ao esboço original. Os integrantes se reuniram com o fabricante de telas da Ikko, mas acabaram desistindo.
“Era grande demais”, diz Narlanka. A regra da Meadow é que o polegar de uma única mão consiga alcançar toda a extensão da tela.
O atrito como recurso
Mas a principal diferença entre Ikko e Meadow está no atrito introduzido pelos dois dispositivos e na forma como isso acontece. O MindOne Pro tem bastante atrito, mas do tipo irritante. O Meadow introduz esse atrito de propósito. Ele é o recurso central do aparelho, por definição. Está incorporado ao projeto e permeia toda a experiência do usuário.
No Meadow, é possível enviar mensagens de texto, mas não existe uma caixa de entrada para rolar a tela compulsivamente. Para mandar uma mensagem a alguém, é preciso entrar no contato da pessoa e clicar em “mensagem”. No MindOne Pro, há um aplicativo convencional de mensagens, com caixa de entrada.
A ideia defendida é que é possível fazer muito melhor do que com os aparelhos atuais, que consomem tanto tempo.
O Meadow não tem câmera frontal. Em vez disso, há um pequeno espelho ao lado da lente traseira para ajudar a enquadrar selfies. É possível olhar cada foto uma única vez para verificar se está em foco. Depois, ela fica bloqueada até ser sincronizada por Wi-Fi e aberta em outro dispositivo.
No MindOne Pro, a câmera principal gira para permitir selfies e oferece a mesma experiência dos aplicativos de fotografia convencionais do Android, mas em uma tela apertada. No Meadow, o formato quadrado molda a experiência do usuário. No MindOne Pro, ele destrói essa experiência.
Girar para deixar de rolar
A busca por soluções para a ansiedade digital não se limita a dispositivos com aparência de celular. A Techpod, de Hong Kong, teve outra ideia: reaproveitar um antigo Apple Watch sem pulseira, dando a ele um novo formato e novas funcionalidades por meio de uma capa metálica com um controle giratório.
Ao girar a roda, o usuário movimenta fisicamente a Digital Crown do Apple Watch, controlando a tela do relógio. O RePod C1 combina o formato arredondado e alongado do iPod nano de quarta geração com os controles físicos do iPod original.


Reciclar um dispositivo que, de outra maneira, teria terminado esquecido em uma gaveta combina perfeitamente com a filosofia de vida mais desacelerada, que parece impulsionar todo o movimento de desintoxicação digital. O design físico da capa do aparelho também está alinhado à proposta de uma experiência menos digital e mais analógica.
Kore, fundador da Techpod, afirma, porém, que o RePod não é uma imitação do iPod. A homenagem da empresa é principalmente à maneira de interagir com um dispositivo por meio de uma roda. Seu slogan é: “menos rolagem, mais giros”.
Há o receio de que esses dispositivos não consigam tirar as pessoas do buraco sem fundo em que se meteram. Mas, neste momento, esses aparelhos de uma nova geração apresentam bons argumentos em favor de um dispositivo dos sonhos.
Um quadrado que não permite rolar a tela, uma lista de aplicativos que não cresce e uma roda que não deixa deslizar o dedo são ótimas demonstrações de que é possível fazer muito melhor do que com os aparelhos atuais, que consomem tanto do tempo.







