Uma planta típica dos areais do Jalapão permaneceu por anos confundida com outra espécie até ser identificada como inteiramente nova para a ciência. A descoberta levou a um nome que aproxima botânica e ativismo ambiental: Chamaecrista marinasilvae, uma homenagem à ambientalista e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva.
O achado foi divulgado em 21 de outubro de 2026 na revista científica Nordic Journal of Botany e conta com a participação de pesquisadores da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB). Assinam o estudo Késia Ramos Miranda, Raiana Rocha de Souza, Marcelo Fragomeni Simon e Juliana Gastaldello Rando.
Como a nova espécie foi localizada
A identificação teve início em uma expedição de campo pelo Jalapão, quando a equipe recolheu um exemplar que gerou incertezas quanto à sua classificação. Após a coleta, os pesquisadores começaram a examinar herbários em busca de registros parecidos e localizaram outros exemplares da mesma planta, arquivados havia anos sob uma denominação incorreta.
A bióloga Késia Ramos Miranda, mestranda em Ciências Ambientais pela UFOB e autora principal do estudo, liderou a pesquisa ao lado de colegas de outras instituições.
Por que a espécie recebeu o nome de Marina Silva
Conforme a pesquisadora, a escolha valoriza a trajetória de Marina Silva como ambientalista e sua atuação marcante na proteção do meio ambiente brasileiro. A espécie vive em uma área rodeada por regiões que têm passado por mudanças intensas no uso do solo, embora parte de sua distribuição esteja dentro da Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins, unidade de conservação de proteção integral, e nos arredores do Parque Estadual do Jalapão.
No artigo que descreve a nova espécie, Késia ressalta que esse cenário reforça a relevância das unidades de conservação e da atuação de ambientalistas empenhados em preservar o que ainda resta da vegetação nativa do país.
Marina Silva se manifestou sobre a homenagem nas redes sociais. Afirmou ter recebido a notícia com emoção e classificou dar nome a uma espécie como uma das maiores honrarias que alguém ligado ao ambientalismo pode conquistar. Não é a primeira vez que um organismo brasileiro leva seu nome: em anos anteriores, pesquisadores batizaram um marsupial recém-descoberto de Marmosops marina, em reconhecimento à queda do desmatamento observada durante sua passagem pelo Ministério do Meio Ambiente, entre 2003 e 2008.
Espécie ameaçada antes de ser plenamente conhecida
O trabalho detalha características físicas da planta, a época de floração e frutificação e ainda seu estado de conservação. A Chamaecrista marinasilvae ocorre apenas no Tocantins e já surge sob ameaça, sendo classificada como ameaçada pela perda de habitat.
Os pesquisadores apontam que a presença de parte da população dentro de uma unidade de conservação é um fator importante para a sobrevivência da espécie. Fora dessas áreas protegidas, o avanço da ocupação e as mudanças no uso da terra no entorno do Jalapão representam a principal pressão sobre a planta.
As diferenças em relação a uma espécie semelhante
Antes de ser reconhecida como nova, a planta era confundida com a Chamaecrista juruenensis, que igualmente ocorre na região. A pesquisa identificou diferenças que passavam despercebidas em registros anteriores, como a coloração e os pelos dos ramos, o tamanho das estruturas florais e a aparência do ovário e dos frutos.
O estudo publicado também apresenta uma chave de identificação para todas as espécies do gênero já registradas no Tocantins, ferramenta que deverá facilitar o reconhecimento de outras plantas do grupo em expedições futuras.
Um gênero pouco conhecido, mas extremamente diverso
O gênero Chamaecrista figura entre os mais ricos da flora brasileira, com mais de 260 espécies catalogadas, a maioria delas encontrada exclusivamente no país. O Jalapão, em especial, já proporcionou outras descobertas semelhantes nos últimos anos, como a Chamaecrista tocantinensis e a Chamaecrista pauciflora, descritas em estudos anteriores sobre a flora da região. Esse padrão reforça a posição do Cerrado tocantinense como um dos ambientes menos estudados e mais ricos em espécies endêmicas do Brasil.
A cada nova espécie descrita no Jalapão, aumenta também o alerta sobre o tempo disponível para conhecer plantas que podem desaparecer antes mesmo de serem catalogadas. Para os pesquisadores envolvidos, batizar uma espécie ameaçada com o nome de uma ambientalista reconhecida serve como um lembrete de que ciência e defesa do meio ambiente caminham juntas quando o objetivo é proteger o que ainda resta do Cerrado brasileiro.







