Em 2021, um grupo de funcionários da OpenAI deixou a empresa para fundar uma nova organização dedicada ao desenvolvimento seguro da inteligência artificial. A nova companhia recebeu o nome de Anthropic, termo que significa “relacionada à humanidade”.
No fim deste mês, a expectativa é que a desenvolvedora estreie na Bolsa de Valores de Nova York, em uma das maiores ofertas públicas iniciais (IPOs) da história. A iniciativa, porém, coloca uma questão central: é possível uma empresa priorizar a humanidade e, ao mesmo tempo, prestar contas a Wall Street?
O IPO representa um marco expressivo para o boom da IA e deve evidenciar como os investidores enxergam a criadora do chatbot Claude. A entrada na bolsa também inaugura uma nova fase para a Anthropic, que testará sua capacidade de conciliar a missão de desenvolver IA com segurança e as pressões de operar como companhia de capital aberto.
A Anthropic tem uma estrutura de propriedade especial, idealizada para ajudar a empresa a permanecer fiel aos seus objetivos originais, equilibrar o crescimento do lucro com sua missão e impedir que investidores tentem uma aquisição hostil.
Essa estrutura inclui um grupo de curadores que controla a maioria do conselho de administração, além de uma classe especial de ações que assegura aos sete fundadores a maior parte do poder de voto dos acionistas em geral.
Com a missão de promover IA segura e uma estrutura corporativa pouco ortodoxa, a estreia da Anthropic em Wall Street pode ser encarada como um teste para os laboratórios de ponta em IA e para a forma como são recebidos pelos investidores.
Empresa de benefício público
A Anthropic está registrada como uma empresa de benefício público (PBC, na sigla em inglês). Essas companhias são legalmente obrigadas a equilibrar os interesses dos acionistas com a missão declarada da empresa. A lógica difere da de uma companhia tradicional, voltada principalmente a maximizar o valor para o acionista.
“A estrutura de governança da Anthropic é bastante singular”, afirmou Gil Luria, chefe de pesquisa de tecnologia da DA Davidson, empresa de serviços financeiros. “Eles explicam tudo detalhadamente. São muito transparentes quanto a isso”.
A desenvolvedora descreveu seus “objetivos tripartidos” como PBC em seu formulário S-1: “o interesse pecuniário de nossos acionistas, o melhor interesse daqueles materialmente afetados por nossa conduta e o Propósito da Empresa”.
Apenas uma fração das empresas de capital aberto são PBCs. A Patagonia, que é de capital fechado, e a varejista de óculos Warby Parker são ambas PBCs.
Empresas privadas podem decidir o que fazer com os lucros corporativos e investir quanto quiserem em medidas de segurança. E os investidores têm pouco poder para mudar isso. A concorrente OpenAI, que atua no setor de tecnologia, tornou-se uma empresa privada em 2025.
“A Anthropic é explícita quanto a isso, afirmando que acredita que haverá casos em que optará por não maximizar o valor para os acionistas devido aos julgamentos que fizer, tanto o conselho quanto a equipe de liderança”, disse Luria.
“O crescimento da empresa e a obtenção de lucratividade fazem parte do objetivo, então não é que isso seja contrário a ele”, acrescentou. “A questão é que eles estão dizendo que pode haver situações em que esse não seja o objetivo, ou em que busquem outros objetivos, mesmo que isso signifique sacrificar crescimento e lucratividade”.
Os sete fundadores da Anthropic detêm, coletivamente, 50,1% dos direitos de voto da empresa, o que significa que os acionistas comuns não terão qualquer influência nas suas operações. Trata-se de uma variação de uma tendência observada em grandes empresas de tecnologia nos últimos anos, que adotaram estruturas nas quais os fundadores mantêm o controle majoritário, como Mark Zuckerberg na Meta e Elon Musk na SpaceX.
Não se trata apenas de os fundadores deterem o controle majoritário. Em 2023, a Anthropic criou o Long-Term Benefit Trust (LTBT), composto por cinco especialistas que não possuem participação financeira nas ações da empresa. Ainda assim, eles detêm ações especiais não financeiras com poder para indicar quatro dos sete membros do conselho administrativo da companhia.
Os integrantes do LTBT incluem Neil Buddy Shah, CEO da Clinton Health Access Initiative, e Ben Bernanke, ex-presidente do Federal Reserve. Há uma vaga no LTBT que ainda não foi preenchida.
“O LTBT pode ter interesses diferentes dos seus e pode exercer seu poder de uma forma com a qual você discorde ou de uma forma que possa ser contrária aos seus interesses”, afirma a Anthropic em documento enviado à SEC, referindo-se aos acionistas.
Quando uma empresa abre seu capital, a pressão para aumentar os lucros e apresentar resultados sólidos aos acionistas pode crescer. Ainda assim, a Anthropic e seu CEO, Dario Amodei, também já abordaram o risco de a IA causar danos enormes à humanidade se cair em mãos erradas.
O pedido de IPO da Anthropic inclui mais de 90 páginas de divulgações de risco, que vão desde o uso indevido da IA por agentes mal-intencionados até a possibilidade de risco existencial para a humanidade.
“Embora este Fundo de Benefícios de Longo Prazo tenha muito poder, os fundadores também têm muito poder. Mas, você sabe, em ambos os casos, os acionistas públicos não têm esse poder”, disse Jay Ritter, professor emérito da Universidade da Flórida e especialista em IPOs.
Se houver preocupações crescentes com a IA, os fundadores e o LTBT poderão tomar decisões para a empresa que impactem o valor das ações sem qualquer consideração pelos investidores. Em teoria, isso pode ajudar a companhia a se manter fiel à sua missão — mas resta saber como a estrutura funcionará até que um evento force a empresa a agir.
A estrutura de propriedade da Anthropic não será tão relevante se os lucros forem expressivos e a empresa cumprir sua missão de desenvolver IA segura.
No entanto, ela será posta à prova se os lucros não forem tão expressivos quanto o esperado, se surgirem problemas de segurança ou se houver desentendimentos entre o conselho, os fundadores ou os administradores, afirmou Luria, da DA Davidson.
“O aspecto mais estranho do pedido de IPO da Anthropic é sua estrutura de governança corporativa”, escreveu Jay Goldberg, analista sênior da Seaport Research Partners, em uma nota. “Acreditamos que esta seja a maior empresa estatal de capital aberto e as implicações completas dessa estrutura levarão tempo para se tornarem aparentes”.
“Acreditamos que essa estrutura confere à LTBT e aos fundadores o controle efetivo e permanente da empresa”, acrescentou Goldberg.







