Um garoto, um robô gigante e uma trama sobre escolher quem se quer ser tinham tudo para dar certo. A Warner Bros., porém, demorou para divulgar o longa e quase ninguém apareceu para assistir.
Existem filmes cujo fracasso de bilheteria soa inexplicável quando os descobrimos anos mais tarde. Blade Runner, Um Sonho de Liberdade e O Grande Lebowski estrearam com números bem menos impressionantes do que sua reputação sugeriria. O tempo fez o que as salas não conseguiram: encontrou o público certo para eles. Com O Gigante de Ferro, o processo foi ainda mais doloroso. A crítica recebeu o filme com entusiasmo, quem entrava no cinema saía encantado e as primeiras exibições de teste tinham alcançado alguns dos melhores resultados vistos pela Warner em anos. O problema era bem mais simples: muita gente nem sabia que o filme existia.
O Gigante de Ferro surgiu quando a Warner já havia perdido a confiança na animação
Lançado em 1999, o longa foi a estreia de Brad Bird na direção de longas-metragens, anos antes de ele fazer Os Incríveis e Ratatouille na Pixar. A história acompanha Hogarth Hughes, um menino de nove anos que encontra um enorme robô extraterrestre perto de sua cidade no Maine, em plena Guerra Fria.
O problema acontecia fora da tela. A Warner Bros. havia apostado alto para competir com a Disney na animação e tinha acabado de sofrer um golpe com A Espada Mágica – A Lenda de Camelot. Brad Bird recordou depois que o fracasso deixou o estúdio praticamente procurando a saída mais próxima do ramo de animação enquanto O Gigante de Ferro ainda estava sendo produzido.
A Warner demorou demais e o longa chegou praticamente sem campanha
Bird afirma que pediu uma data de estreia durante meses, enquanto a Warner resistia a definir. Quando o lançamento foi finalmente confirmado, restavam cerca de quatro meses. Para um filme animado que dependia de brinquedos, promoções, restaurantes e meses de exposição prévia, era pouquíssimo tempo. O diretor contou que uma exibição de teste conquistou as notas mais altas registradas pela Warner em cerca de 15 anos — mas, a essa altura, já era tarde para montar uma grande campanha. Enquanto a Disney passava mais de um ano promovendo Tarzan, O Gigante de Ferro entrou em cartaz praticamente de surpresa.
A situação era tão estranha que Bird ouvia relatos de sessões com apenas umas 30 pessoas. As poucas que estavam ali aplaudiam ao final, mas as salas continuavam meio vazias. O próprio diretor resumiu anos depois aquela sensação: o público que encontrava o filme reagia muito bem, mas era gente de menos. Os números confirmaram. O longa abriu com apenas 5,7 milhões de dólares nos Estados Unidos e terminou arrecadando cerca de 31 milhões em todo o mundo, diante de um orçamento de produção estimado em cerca de 50 milhões. Para a Warner, foi outro fracasso animado.
O VHS alcançou o que os cinemas nunca conseguiram
A história começou a mudar muito rápido quando o filme chegou às casas. Depois de receber críticas por sua campanha cinematográfica fraca, a Warner decidiu promover com muito mais força o lançamento em VHS e DVD. Houve parcerias comerciais, publicidade na TV e uma nova chance para famílias que jamais tinham ouvido falar do filme finalmente conhecê-lo.
O boca a boca fez o resto. Uma pessoa recomendava para outra, e o longa passou a aparecer constantemente em conversas sobre grandes obras de animação que haviam sido injustamente ignoradas. Brad Bird chegou a descrever a trajetória posterior do filme como uma “vida após a morte” especialmente resistente.
O reconhecimento da crítica também não desapareceu. Atualmente, o filme mantém 96% de aprovação no Rotten Tomatoes, onde figura entre os mais bem avaliados de 1999. Naquele mesmo ano, arrasou nos prêmios Annie com nove vitórias, incluindo Melhor Filme Animado e Melhor Direção para Bird.






