O crescimento sustentável se consolida em São Mateus (ES), onde a produção de macadâmia vem se tornando fonte de renda essencial para famílias do Norte do Espírito Santo. Cooperativas do município já ultrapassam a marca de 1.600 toneladas beneficiadas por ano, e a noz local conquista espaço em mercados internacionais. Famílias que investem há mais de três décadas no cultivo e no beneficiamento da macadâmia veem a tradição familiar ganhar impulso com tecnologia, criatividade e geração de emprego, transformando a cidade em referência regional.
A trajetória dessa cultura começou entre desafios e apostas no início dos anos 1980, expressando com força a agricultura familiar capixaba. Atualmente, São Mateus é símbolo de sucesso no segmento, diversifica receitas e leva inovação para mesas e vitrines do Espírito Santo. O município superou outros polos agrícolas capixabas e se firmou como centro estratégico, com produção que abastece tanto o mercado nacional quanto o internacional.
Conforme o produtor Eliseu Bonomo, o incentivo governamental da época foi decisivo para o crescimento. Ele destacou que, na década de 1980, o governo estadual ofereceu subsídios e distribuição de mudas, o que permitiu introduzir a macadâmia como alternativa agrícola relevante. Depois de anos de oscilações, as famílias que permaneceram viram a cultura se transformar e ganhar fôlego, especialmente com a participação de novas gerações e a busca por eficiência produtiva.
Como a inovação tecnológica contribuiu para a colheita em São Mateus?
Mesmo com a demanda crescente, a colheita da macadâmia enfrentava um grande desafio: o trabalho exaustivo de recolher manualmente as nozes que caem das árvores, o que exigia muitos funcionários e longos períodos de serviço. Há cerca de três anos, a família Bonomo apostou em maquinário específico para facilitar o processo. Ítalo Bonomo, filho de Eliseu, detalha que investiram em máquinas que ajudaram a reduzir o custo de produção e a necessidade de mão de obra no campo; hoje são 15 funcionários fixos, chegando a 30 apenas no período de colheita.
A mecanização aumentou a competitividade da produção local e abriu espaço para diferentes perfis de trabalhadores na região do Espírito Santo, proporcionando emprego fixo ao longo de todo o ano. Ainda assim, o caráter familiar e o trabalho manual seguem fundamentais para o sucesso da atividade, sobretudo na seleção e no beneficiamento da amêndoa, área em que as famílias matenses fazem questão de manter o controle de qualidade tradicional.
De acordo com especialista em agricultura sustentável, a experiência dos agricultores da região, aliada ao uso de tecnologia adequada, pode servir de exemplo para outros polos produtivos do Espírito Santo, o que reforça a importância do investimento em inovação no campo.
Qual é o impacto da macadâmia na geração de renda em São Mateus?
O cultivo da macadâmia representa hoje uma cadeia produtiva que movimenta a economia local e fortalece laços entre pequenos e médios produtores que trabalham integrados por meio de cooperativas. Eliseu Bonomo afirma que a cooperativa foi criada em 1999 justamente para organizar a produção, facilitar o acesso a conhecimento e garantir uma comercialização mais justa.
Atualmente, a cooperativa de São Mateus reúne dezenas de famílias, assegurando escala para exportação e capacidade de negociação com grandes compradores nacionais. Segundo levantamento do Ministério da Agricultura e de entidades ligadas ao setor, a região garantiu ao Espírito Santo a posição de segundo maior produtor de macadâmia do Brasil, atrás apenas de São Paulo. Esse destaque também se reflete no fortalecimento do comércio local e na diversificação dos produtos disponíveis no mercado interno.
O município construiu uma reputação de qualidade e constância, o que aumentou o número de famílias que enxergam na macadâmia uma oportunidade de economia sustentável, em vez do êxodo rural que era frequente em cidades menores do entorno. Esse movimento contribui para a fixação de jovens no campo e para o fortalecimento da agricultura familiar.
Além disso, grande parte das famílias associadas utiliza ao menos parte da produção para transformar a amêndoa in natura em doces, bolos, biscoitos e gelatos, elevando o valor agregado e criando oportunidades para pequenos empreendimentos gastronômicos, que exploram cada vez mais o potencial do produto capixaba, como detalhou Ana Paula, produtora e administradora de uma das fazendas tradicionais da cidade.
Por que a macadâmia capixaba chama atenção internacionalmente?
O cuidado no beneficiamento, somado às características da amêndoa cultivada no clima e no solo de São Mateus, resultou em um produto que chama atenção além das fronteiras e conquista mercados exigentes como Estados Unidos, Europa e países vizinhos da América do Sul. Segundo a cooperativa local, mais de 40% da produção anual já é direcionada para fora do Brasil, o que consolida São Mateus como um dos principais polos desse segmento agrícola de valor.
A opção por diversificar os destinos comerciais foi fundamental após instabilidades em mercados nacionais de commodities. Para atingir padrões internacionais, os produtores investem em tecnologia de rastreabilidade e em processos de classificação rigorosos, garantindo que a macadâmia matense seja referência em sabor, tamanho e qualidade. Conforme salientou o órgão estadual do setor agrícola, as normas aplicadas ao beneficiamento local seguem padrões internacionais de exportação, o que fortalece a competitividade capixaba.
Tal desempenho internacional serve de estímulo para pequenas propriedades rurais de cidades vizinhas, como Conceição da Barra e Jaguaré, que veem São Mateus como modelo de sucesso na organização do setor agrícola. Segundo produtores, essa visibilidade fortalece a imagem do Espírito Santo como estado agrícola inovador.
Como a tradição se alia à criatividade na culinária de São Mateus?
A culinária local ganhou um novo patamar graças à iniciativa de produtoras como Ana Paula, que viu na criatividade o caminho para alavancar o consumo da macadâmia em diferentes formatos. Inspirada pela tia, que desenvolveu um doce de macadâmia em um curso do Empretec, ela decidiu tornar o produto referência não só na agricultura, mas também na cozinha capixaba. A produção foi ampliada para biscoitos, gelatos e outros quitutes que valorizam ainda mais a tradição local.
Nas festas populares de São Mateus, já é comum encontrar barracas com doces e produtos derivados da macadâmia, o que fortalece a cultura gastronômica regional. Restaurantes e cafeterias passaram a incorporar a amêndoa ao cardápio, aproveitando a procedência direta dos produtores locais e garantindo frescor e qualidade reconhecidos pelo público.
De acordo com o portal da transparência da Secretaria Estadual de Agricultura, o crescimento do consumo de produtos derivados atingiu recorde no último ano, resultado do trabalho integrado entre produtor, indústria e comércio. Essa movimentação agrega valor ao produto in natura e gera renda extra para famílias que buscam se diferenciar no mercado.
O que diferencia o setor de macadâmia em São Mateus das demais regiões do estado?
Entre os fatores que mais se destacam na produção de macadâmia em São Mateus estão a união entre os produtores, a capacidade de se adaptar às demandas de mercados internacionais e a aposta em inovação. A cooperativa, que existe há mais de 25 anos, concentrou esforços na melhoria das etapas produtivas, com investimento em infraestrutura e apoio técnico constante.
Este caso evidencia como a agricultura pode se manter relevante e gerar alternativas reais à população rural quando há organização coletiva e apoio institucional. Um estudo divulgado pela Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento aponta que São Mateus se diferenciou por fortalecer o associativismo e garantir meios para que as famílias produtoras continuem crescendo mesmo diante de adversidades do mercado.
Além disso, o contexto geográfico da cidade, com terras propícias para o cultivo e fácil acesso à logística rodoviária e portuária, somou-se às conquistas locais e tornou o município polo de referência. A macadâmia produzida em São Mateus, por conquistar mercados, serviu de inspiração para outras cidades do Espírito Santo buscarem produtos alternativos de alta rentabilidade, tornando o estado exemplo de diversificação com foco na qualidade.
O sucesso local também reflete a tradição familiar: são diversas gerações atuando no setor, cada uma trazendo novas ideias sem perder o vínculo com as raízes. Em um cenário em que o êxodo rural ainda preocupa algumas cidades do interior, São Mateus demonstra que a permanência das famílias no campo pode ser sinônimo de modernidade e inovação.
Os produtores relatam orgulho e expectativas otimistas para as próximas safras. Moradores destacaram que a “macadâmia virou motivo de identidade regional, gerando renda e oportunidades onde antes predominava a monocultura”.







