Em tempos de filtros digitais e padrões de beleza cada vez mais editados, ter uma pele lisa virou um desejo constante. Não à toa, os poros dilatados — aqueles pontinhos visíveis que deixam a superfície do rosto com textura irregular — figuram entre as queixas mais comuns nos consultórios de dermatologia. A pergunta que fica é: algum tratamento consegue fechá-los em definitivo?
Antes de procurar soluções, vale entender o papel dessas estruturas. Segundo a dermatologista Cíntia Pessin, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia no Rio Grande do Sul (SBD-RS), os poros são aberturas naturais da pele e estão distribuídos por toda a extensão epidérmica do corpo.
Eles se ligam às glândulas sebáceas e écrinas e são fundamentais para a eliminação do sebo e do suor. Em certas pessoas, porém, podem ficar mais abertos e provocar desconforto estético.
— Isso acontece sobretudo na “zona T” do rosto, formada por testa, nariz e queixo, região que concentra maior quantidade de glândulas. Vários fatores podem deixá-los mais evidentes, como excesso de oleosidade na pele, transpiração intensa e até características genéticas — explica Cíntia.
A dilatação costuma surgir quando os orifícios ficam obstruídos. A causa principal está na produção excessiva de óleo, que se acumula nos poros junto de células mortas e outras impurezas. Hábitos cotidianos como higienização inadequada da pele, uso frequente de maquiagem sem remoção correta e banhos muito quentes pioram o quadro.
Outro fator relevante é o envelhecimento cutâneo, que pode ser intensificado pela exposição solar. Com o tempo, ocorre degradação progressiva do colágeno e da elastina, estruturas que dão sustentação à derme. A pele perde elasticidade, e os poros deixam de se contrair, permanecendo dilatados.
Sobre a influência genética, Cíntia observa que é comum algumas pessoas terem pele naturalmente mais oleosa e poros mais abertos, seguindo uma tendência familiar. Há ainda um componente étnico. Peles asiáticas, por exemplo, costumam ter aspecto mais uniforme.
— O glass skin coreano desperta muita curiosidade, e algumas marcas até se aproveitam disso, oferecendo produtos que prometem a pele lisinha das asiáticas, mas existe uma questão genética e racial envolvida — afirma Cíntia.
Existe solução para os poros dilatados?
Por serem estruturas naturais, os poros sempre farão parte da pele. Quando estão muito aparentes e causam incômodo, é possível usar produtos e procedimentos para minimizá-los. Ainda assim, não há tratamento capaz de eliminá-los ou fechá-los para sempre.
A dermatologista Lisia Nudelmann, professora da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), destaca que o objetivo das terapias é controlar a oleosidade e melhorar a elasticidade e a textura da pele, e não fechar os orifícios.
— Não é possível erradicar os poros, pois são estruturas anatômicas normais. O que os tratamentos fazem é desobstruí-los e estimular a contração da pele ao redor, deixando a textura mais uniforme e os furinhos menos perceptíveis.
Cíntia acrescenta que, mesmo nos melhores tratamentos, o resultado não é definitivo.
— Quando o cuidado é interrompido, a tendência é que a oleosidade e a dilatação voltem.
Ainda assim, é possível reduzir a aparência dos poros com uma rotina de cuidados bem direcionada e procedimentos adequados. As principais estratégias estão a seguir.
Limpeza, hidratação e proteção
Todo tratamento para poros dilatados começa pela limpeza. O objetivo é diminuir a oleosidade e remover impurezas que obstruem essas estruturas da pele e favorecem a dilatação. A recomendação é lavar o rosto pela manhã e à noite com sabonete específico para peles oleosas.
A higienização matinal retira a oleosidade e as células mortas acumuladas durante o sono, período em que ocorre renovação celular. Já a limpeza noturna elimina as impurezas da poluição e os resquícios de maquiagem ou filtro solar.
— Lavar o rosto duas vezes ao dia é mais do que suficiente. Às vezes, as pessoas acreditam que lavar muitas vezes reduz a oleosidade, mas isso provoca um efeito rebote que aumenta ainda mais a produção de sebo, para compensar o ressecamento — observa Lisia.
Para evitar esse efeito rebote, a hidratação também integra a rotina básica de cuidados. A etapa deve ser feita depois da limpeza, sempre com hidratantes de fórmulas não comedogênicas (que não obstruem os poros) e adequadas às peles oleosas.
Durante o dia, o protetor solar é indispensável. Além de prevenir o câncer de pele, o filtro combate o fotoenvelhecimento e, consequentemente, desacelera a perda de elasticidade da pele, o que influencia a dilatação dos poros. A dica é escolher formulações oil-free, com acabamento matte.
Uso de ácidos
A adoção da rotina básica de cuidados já ajuda bastante a reduzir a aparência dos poros, garantem as especialistas. Em alguns casos, porém, pode ser necessário incluir produtos com formulações mais fortes no skincare.
Os ácidos são a principal alternativa nesse sentido. Ativos como ácido salicílico, glicólico e lático, além dos derivados do ácido retinóico (retinol, retinal e adapaleno, entre outros) e a niacinamida, ajudam a regular a oleosidade e podem melhorar a textura cutânea. Antes de começar a usar esse tipo de produto, é importante consultar um dermatologista.
— Cada ácido tem uma indicação específica e uma orientação de uso. Alguns exigem cuidados em relação à exposição solar, à sensibilidade da pele e a condições como rosácea — explica Lisia, enfatizando que, quando bem indicados, os ácidos trazem ótimos resultados.
Lasers, peelings e microagulhamento
Alguns procedimentos dermatológicos também podem ser associados ao tratamento. Os peelings químicos, por exemplo, influenciam a aparência dos poros porque estimulam a produção de colágeno. O procedimento consiste na aplicação de ácidos e outros ativos em dosagens de uso médico, mais altas do que as encontradas nos cosméticos, e deve ser realizado por dermatologistas.
— Os peelings promovem uma espécie de descamação da pele, como uma esfoliação mais acentuada. Existem peelings superficiais, médios e profundos, que agem em diferentes camadas cutâneas e ajudam a melhorar a textura geral da pele — detalha Cíntia, ressaltando que a escolha do ativo e do grau de intensidade varia conforme as características e as necessidades de cada paciente.
Também são indicadas tecnologias como o laser fracionado e a radiofrequência microagulhada, que criam microlesões na pele e aceleram a renovação celular. Já o microagulhamento, que utiliza agulhas para fazer pequenas perfurações, estimula a produção de colágeno e facilita a penetração de ativos.
— Todos esses tratamentos atuam na remodelação dérmica profunda e melhoram significativamente a textura, mas nenhum deles acaba 100% com os poros — diz Lisia.

Aceitação da “pele real”
Para as dermatologistas entrevistadas, a autoaceitação também faz parte do cuidado. Antes de tudo, é preciso entender que a tão sonhada “pele de porcelana” só existe nos sonhos — ou nos filtros das redes sociais.
— Há duas décadas, poros dilatados não eram uma queixa frequente nos consultórios. As redes sociais fazem as pessoas acreditarem na existência de uma pele perfeita, sem qualquer marca, mas isso é uma ilusão. Filtros, maquiagem e boa iluminação disfarçam nas telas, mas na vida real a pele humana possui textura e poros — diz Cíntia.
Lisia observa que não há nada de errado em querer melhorar uma característica que gera incômodo, mas o objetivo não pode ser a perfeição.
— Ninguém terá a pele do filtro do Instagram. Manter uma rotina de higienização, fotoproteção e tratamento melhora muito, mas aceitar a textura real do rosto também faz parte do cuidado com a pele e com a saúde mental.







