Muitas vezes, a dor de quem sofre bullying não termina nas agressões. Ela continua quando a vítima decide contar o que está acontecendo e ouve que aquilo é só brincadeira, coisa de criança ou exagero. Essa reação, comum em casa, na escola e até entre profissionais, tem nome entre os especialistas. É a violência do descrédito, que desautoriza o sofrimento de quem foi agredido e, sem perceber, protege quem agride.
O bullying se caracteriza por agressões intencionais e repetidas contra uma mesma pessoa, em uma relação de desequilíbrio de poder. Pode aparecer como apelidos humilhantes, ameaças, exclusão do grupo, empurrões, boatos, danos a objetos pessoais e ataques nas redes sociais. No Brasil, a Lei nº 13.185, de 2015, criou o Programa de Combate à Intimidação Sistemática e obrigou escolas e clubes a adotar medidas de prevenção. Em 2024, uma nova lei incluiu o bullying e o cyberbullying no Código Penal. A versão virtual, que pode alcançar a vítima a qualquer hora e diante de um público amplo, recebeu punição mais severa, com pena de reclusão.
Mesmo com o avanço da legislação, o problema persiste em grande parte porque continua sendo minimizado. Quando um adulto responde a um relato com frases como “ignora que passa” ou “você precisa aprender a se defender”, a criança ou o adolescente entende que não terá apoio. A tendência é se calar, esconder os episódios seguintes e passar a acreditar que, de alguma forma, merece o que está sofrendo. O silêncio da vítima, por sua vez, é interpretado como sinal de que o problema acabou, e o ciclo se fecha.
As consequências podem ser profundas e duradouras. Vítimas de bullying apresentam maior risco de ansiedade, depressão, isolamento social, queda no desempenho escolar e baixa autoestima, efeitos que, em muitos casos, acompanham a pessoa até a vida adulta. O descrédito agrava esse quadro, porque soma à agressão dos colegas a sensação de abandono por parte de quem deveria proteger.
Romper esse ciclo começa pela escuta. Diante de um relato, a primeira atitude deve ser acreditar, acolher sem julgamentos e agradecer pela confiança. Depois, é importante registrar o que aconteceu, com datas, nomes e, no caso das redes sociais, capturas de tela. A escola precisa ser comunicada formalmente e tem o dever de agir, tanto para proteger a vítima quanto para trabalhar com os autores das agressões, que também precisam de orientação.
Pais e educadores também devem ficar atentos a sinais que nem sempre vêm em palavras. Recusa repentina em ir à escola, queixas frequentes de dor de cabeça ou de barriga, mudanças de humor, perda de objetos, alterações no sono e no apetite e afastamento dos amigos podem indicar que algo está errado. Nesses casos, uma conversa tranquila, sem cobranças, costuma abrir mais espaço do que perguntas diretas e insistentes.
Combater o bullying exige o envolvimento de famílias, escolas e da comunidade, com ações permanentes de prevenção, educação para o respeito às diferenças e canais seguros de denúncia. Mas tudo começa por uma decisão simples. Levar a sério quem pede ajuda é o primeiro passo para que o sofrimento deixe de ser invisível.







