Amizade permite discordar

O que fazer quando se discorda de alguém que se ama? A resposta tem menos a ver com a discordância em si e mais com o vínculo construído entre as duas pessoas. Existem amizades nas quais é possível afirmar “acho que você está errado” sem que isso soe como um problema. Em outras, qualquer comentário que escape da validação pode ser interpretado como invasão.

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É por esse motivo que muitas pessoas aprendem a optar pelo silêncio. Deixam passar uma decisão da qual discordam, evitam comentar um comportamento que as incomoda ou preferem não revelar que consideram o amigo prejudicando a si mesmo. No momento, isso parece uma forma de preservar a relação. Repetido inúmeras vezes, no entanto, o silêncio também passa a definir o tipo de conversa que existe naquela amizade.

O espaço que a proximidade oferece

“Amigo não é fã-clube. Quem concorda com tudo o que fazemos pode até ser agradável, mas não necessariamente está nos ajudando”, afirma a Dra. Walkíria Fernandes, psicóloga especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental.

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Na avaliação dela, é justamente a proximidade que cria a possibilidade de uma conversa que dificilmente teríamos com qualquer outra pessoa. “Uma amizade verdadeira precisa ter espaço para alguém dizer: ‘Eu gosto de você, mas acho que você está errado’. Isso nos tira da nossa própria bolha e pode evitar decisões tomadas no impulso, na emoção ou pela falta de percepção sobre nós mesmos.”

Nem toda opinião precisa ser manifestada, e alguém próximo não assume a obrigação de comentar cada escolha do amigo. O ponto central é existir liberdade para fazê-lo diante de algo que realmente mereça ser colocado em conversa.

Boa parte desse valor está no olhar de quem nos conhece muito bem. “Um amigo que conhece nossa história consegue enxergar padrões que nós não percebemos. E há uma diferença enorme entre uma crítica feita para nos diminuir e uma verdade difícil dita por alguém que quer nos ver bem. A segunda pode doer, mas também pode nos fazer crescer.”

Quem observa de fora pode notar uma repetição que se tornou invisível para quem a vive, relembrar acontecimentos que ajudam a dimensionar uma decisão ou simplesmente oferecer uma leitura diferente da situação. Isso não faz com que sua opinião esteja automaticamente certa, mas ela pode acrescentar uma perspectiva que estava faltando.

Também por isso, uma amizade é capaz de comportar discordâncias sem que cada uma delas coloque a relação em risco. A confiança permite que duas pessoas enxerguem uma mesma situação de maneiras distintas e continuem próximas após a conversa.

Preocupação também tem limite

Existe uma diferença entre oferecer uma opinião e esperar que ela seja seguida: alguém pode estar sinceramente preocupado com o amigo e, mesmo assim, ultrapassar seus limites ao insistir para que ele faça aquilo que considera correto.

Walkíria propõe observar o que acontece depois que a opinião é dada. “Se você consegue dizer o que pensa e respeitar a decisão do outro, provavelmente existe cuidado. Se você insiste, pressiona, se ofende ou tenta fazer a pessoa agir como você quer, isso já não é cuidado. É controle disfarçado de preocupação. Amar alguém não dá a você o direito de administrar a vida dessa pessoa.”

A diferença também modifica a maneira de pensar o conselho. Quem fala precisa aceitar que o outro pode ouvir e, ainda assim, tomar uma decisão diferente. A liberdade para discordar precisa funcionar nos dois sentidos.

Isso vale especialmente para situações em que a pessoa está tomando uma decisão que nós jamais tomaríamos. Um amigo pode terminar um relacionamento que considerávamos bom, mudar de emprego sem nenhuma segurança ou escolher permanecer em uma situação desconfortável. Podemos dizer o que pensamos sobre aquilo sem transformar nossa opinião em uma condição para continuar próximos.

A psicóloga também diferencia acolher de concordar. “Acolher não é passar a mão na cabeça. Eu posso entender a sua dor sem concordar com a sua atitude. Posso dizer ‘eu entendo por que você fez isso’ e, ao mesmo tempo, dizer ‘mas acho que você está se prejudicando’.”

Nesse tipo de conversa, cada pessoa mantém uma responsabilidade distinta. Quem se manifesta responde pela forma como coloca sua preocupação. Quem escuta continua responsável pela decisão que tomar.

O que o silêncio pode esconder

Também existem motivos legítimos para não dizer alguma coisa. O amigo pode não ter pedido uma opinião, o assunto pode ser íntimo demais para uma intervenção ou a relação pode não ter a abertura necessária para aquele tipo de conversa. Há momentos em que ouvir é mais importante do que falar.

O problema surge quando o silêncio deixa de ser uma escolha diante de uma situação específica e passa a ser a regra da relação. Evitar toda conversa que possa gerar desconforto pode preservar a tranquilidade de um momento, mas também impede que os dois descubram como lidam com a diferença.

Depois de algo que magoou, por exemplo, não falar pode evitar uma discussão imediata. A mágoa, porém, continua fazendo parte da relação. O mesmo ocorre com uma preocupação que nunca encontra espaço para ser colocada em palavras. O assunto pode desaparecer da conversa sem necessariamente desaparecer entre as pessoas.

“Amizade baseada apenas em concordância é fácil; amizade que sobrevive à discordância é muito mais sólida”, diz Walkíria. “Ter alguém que consegue olhar para você e dizer ‘você está se enganando’ é um privilégio. Desde que essa pessoa também aceite ouvir a mesma coisa de você. Afinal, amizade não é dizer tudo o que o outro quer ouvir. É ter coragem de dizer o que ele precisa considerar.”

A disposição para ouvir completa essa dinâmica. Uma amizade em que apenas uma pessoa aponta os erros da outra dificilmente constrói uma relação de confiança. A franqueza precisa circular nos dois sentidos, inclusive nas situações em que ouvir a crítica é mais difícil do que fazê-la.

Há espaço para dizer o que se pensa, mas também para reconhecer que a decisão continua pertencendo ao outro. Há liberdade para discordar e segurança suficiente para que a discordância não seja interpretada como rejeição.

Uma amizade que comporta esse tipo de conversa oferece a possibilidade de estar perto de alguém que conhece nossas escolhas, enxerga algumas das nossas contradições e ainda assim permanece ao nosso lado. Às vezes, cuidar de uma relação também significa sustentar a conversa depois que a concordância termina.

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