Ayurveda: amor pode ser considerado medicina?

Quando se pensa em medicina, é comum que venham primeiro à mente imagens de remédios, exames e consultas. O amor, por sua vez, costuma ser associado ao campo afetivo, às relações humanas e ao que acontece dentro de nós. Embora pareçam coisas distintas, essa separação pode estar restrita à visão da medicina ocidental.

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O Ayurveda parte de outra forma de compreender a saúde. Desenvolvido na Índia há milhares de anos, esse sistema tradicional de cuidado considera diferentes aspectos da vida ao refletir sobre o que significa estar saudável. O próprio nome ajuda a entender essa visão: ayus significa vida e veda, conhecimento. Em uma tradução aproximada, Ayurveda quer dizer “conhecimento da vida”.

A terapeuta ayurvédica Nina Habib explica que isso envolve olhar para a saúde a partir da relação entre corpo, mente, hábitos e ambiente. O ser humano não é dividido em pequenos departamentos independentes e, para a especialista, talvez o amor se encontre exatamente nesse espaço indivisível. Não como medicamento ou promessa de cura, mas como uma experiência capaz de transformar o modo de habitar o próprio corpo.

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“Pense na diferença entre estar ao lado de alguém que exige que você permaneça em alerta e estar diante de alguém com quem você consegue descansar. Externamente, talvez nada esteja acontecendo. Internamente, são experiências completamente diferentes.”

Da digestão à sustentação da vida

No Ayurveda, o Ojas é como uma espécie de essência da boa nutrição e da vitalidade, formada depois que o corpo digere e transforma adequadamente o que recebe. Por isso, é associado à estabilidade, à resistência e à sustentação da vida. “Aquilo que recebemos precisa ser digerido, transformado, assimilado e, só então, pode participar da construção dos tecidos e dessa essência mais sutil.”

Para a especialista, experiências de afeto também podem participar daquilo que sustenta o corpo. Enquanto uma refeição oferece nutrientes que conseguimos identificar, uma relação segura, ainda que não seja material, pode trazer descanso, acolhimento e estabilidade. Essas sensações também repercutem fisicamente e ajudam a pensar a nutrição para além do que colocamos no prato.

Afeto também nutre

A conexão entre corpo e emoção também aparece na forma como o coração é compreendido no Ayurveda. O conceito de Hridaya não o considera apenas o órgão responsável por bombear sangue. Nina explica que, em textos tradicionais, ele também aparece ligado à mente, aos sentidos, à consciência e a Ojas. “Talvez por isso seja tão difícil separar completamente a história emocional de uma pessoa da maneira como ela vive dentro do próprio corpo.”

Isso porque o que sentimos não fica apenas na mente. A preocupação pode aparecer no sono, o medo na tensão muscular e a ansiedade na digestão. Da mesma forma, a sensação de segurança também pode produzir efeitos positivos. As relações, os ambientes e as emoções vividas ao longo do dia deixam marcas na maneira como o organismo responde.

“Uma presença pode nos tranquilizar. Um abraço pode fazer o corpo relaxar antes mesmo que qualquer palavra seja dita. O organismo participa daquilo que sentimos.”

Cuidar do que chega até nós também faz parte da forma como o sistema tradicional de medicina ayurvédica compreende a saúde. “O ambiente em que vivemos, as conversas que repetimos, aquilo que vemos todos os dias e as relações que cultivamos não são elementos completamente externos a nós.”

A especialista sugere que o amor se aproxima da ideia de medicina porque “uma vida na qual existe afeto, pertencimento, segurança e presença é uma experiência corporal diferente de uma vida permanentemente atravessada pelo medo, pela hostilidade ou pela solidão.”

E esse amor não se restringe ao romântico. Ele aparece entre mãe e filho, amigos, irmãos e na comunidade, mas também em uma refeição preparada com carinho, no toque e até na forma como alguém se relaciona consigo mesmo.

Nina lembra ainda que o Ayurveda valoriza a rotina por reconhecer a força da repetição, algo que também vale para os vínculos. “Um grande gesto de amor pode ser inesquecível, mas muitas vezes é a repetição das pequenas experiências de segurança que constrói intimidade.”

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