Para Candice N. Thompson, terapeuta do Vale do Silício, falar sobre ansiedades e receios ligados à inteligência artificial já se tornou rotina em sua jornada de trabalho.
Seus pacientes, em grande parte profissionais de alta performance do setor de tecnologia, manifestam inquietações práticas sobre o impacto da IA na vida profissional, mas também se angustiam com questões mais abrangentes, como os efeitos para o futuro da humanidade — assunto amplamente debatido no mês anterior, quando um ex-membro da indústria alertou que a tecnologia, em rápida evolução, poderia acabar com todos nós.
“Em todos os meus anos de prática clínica, jamais presenciei uma ameaça existencial assim”, afirma Candice, que atua com terapia há mais de 17 anos. “Acredito que ninguém está imune, nem mesmo os meus pacientes que não trabalham com tecnologia.”
Terapeutas como Candice relatam que as inquietações com a IA estão se tornando cada vez mais frequentes nos consultórios, à medida que a tecnologia transforma o mercado de trabalho, consome recursos naturais e amplia as preocupações com privacidade e segurança.
Uma pesquisa do Pew Research Center divulgada em junho revelou que os americanos estavam “profundamente céticos” quanto à IA. A quantidade de adultos que previram um impacto negativo da IA sobre si mesmos e sobre a sociedade superou a dos que esperavam algo positivo. Além disso, aproximadamente dois terços dos participantes afirmaram achar que a tecnologia de IA estava avançando rápido demais.
“As pessoas sentem falta de autonomia, uma sensação de profundo desempoderamento”, analisa Sherry Turkle, socióloga, professora do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e autora, mais recentemente, de “Artificial Intimacy: Who We Become When We Talk to Machines” [Intimidade artificial: quem nos tornamos quando falamos com máquinas, em tradução livre].
“Existe um paralelo entre isso e a depressão provocada pelas mudanças climáticas”, destaca ela. “A pessoa sente que as coisas estão profundamente erradas. Só que agir pode parecer inútil, então a depressão se torna difusa.”
Como a ansiedade em relação à IA aparece na terapia
Para quem já convive com um transtorno diagnosticado, como a ansiedade generalizada, o sofrimento associado à IA pode se mostrar ainda mais intenso.
Emma Basto, de 32 anos, mãe de três filhos pequenos em Milton, New Hampshire, conta que passou dias pensando em IA quase sem parar depois de ler as previsões apocalípticas mais recentes e descobrir que algumas pessoas usam ferramentas de geração de imagens por IA para produzir conteúdo sexual sem consentimento.
Basto, que tem transtorno obsessivo-compulsivo, afirmou que costuma cair em ciclos de preocupação porque seu cérebro acredita que ruminar constantemente, de alguma maneira, a manterá em segurança.
“É como ter uma pedra no sapato”, compara. “Você pode se ocupar com outras coisas, mas ela continua lá, incomodando.”
A terapeuta dela ajudou a interromper esse ciclo ao lembrá-la de que há coisas que simplesmente não podem ser controladas, relata. “Ficar preocupada com isso não vai realmente adiantar.”
Rachel Wood, terapeuta que estuda os efeitos psicológicos da tecnologia, viaja com frequência pelos Estados Unidos para orientar outros terapeutas sobre como as pessoas estão usando a IA, apresentar as pesquisas mais recentes sobre seu impacto e discutir as maneiras como o tema aparece na prática clínica.
Recentemente, ela conduziu um workshop com um grupo de psicólogos no Oregon e perguntou se os pacientes estavam levando para a terapia uma angústia existencial relacionada à IA. Cerca de metade dos terapeutas respondeu que sim, de acordo com ela. Rachel, que mantém um pequeno consultório particular em Colorado Springs, Colorado, conta que alguns de seus próprios pacientes também abordam o tema.
A ansiedade desses pacientes muitas vezes se conecta ao luto pela “mudança irreversível em que estamos e pela velocidade com que ela acontece”, explica. “É muito difícil acompanhar e encontrar sentido em algo que se move tão rápido.”
Conforme a IA assume tarefas que antes cabiam aos seres humanos, muitas pessoas se questionam: “Para que eu sirvo?”. Essa transformação da identidade profissional está entre as principais fontes de sensação de perda e incerteza sentida pelos pacientes, afirma Rachel.
Yuxin Sun, psicóloga em Seattle, observa que nem todos os seus pacientes demonstravam medo da IA. Na verdade, acrescenta, alguns eram “bastante entusiasmados com a IA” e a viam de forma majoritariamente positiva. Outros tinham mais dificuldade para lidar com o que a IA representa para si mesmos e para suas famílias.
Alguns engenheiros de software, por exemplo, que hoje pedem à IA para programar em vez de realizar eles mesmos a tarefa de programação, contaram a Yuxin que sentem ter perdido a parte mais interessante e significativa do trabalho. Pais relataram receio de que a IA prejudicasse a capacidade de pensamento crítico dos filhos.
Como interromper esse ciclo?
Não existem respostas simples, mas especialistas recomendam manter os pés no presente e fazer o que estiver ao alcance para provocar mudanças na própria vida ou no espaço público.
Emma usa um aplicativo para contatar autoridades eleitas e pressionar por mais medidas de proteção relacionadas à IA. Candice, a terapeuta, defende o uso ético da tecnologia nos cuidados de saúde mental. No ano passado, ela ministrou a palestra “Why AI Can’t Be Your Therapist” [Por que a IA não pode ser sua terapeuta] no Tedx, na qual destacou que a terapia se baseia em uma relação, é confidencial e está submetida a princípios éticos e limites específicos que ajudam a manter a segurança da relação.
“Estamos em um ponto de inflexão em que ainda temos algum controle e alguma voz sobre o assunto”, avalia Candice.
A sensação de angústia existencial que alguns pacientes em terapia expressam com frequência decorre da percepção de terem perdido o controle e qualquer senso de significado, acrescenta Yuxin. Pode ajudar questionar: “Quais são as coisas que eu não vou terceirizar para a IA?”, orienta.
Ela incentiva seus pacientes a enxergar este momento como uma oportunidade para reavaliar o que é importante para eles. “Com o que você gostaria de passar mais tempo?”, pergunta. “E com o que gostaria de passar menos tempo?” Depois vem a parte mais importante: “O que eu faço a respeito disso?”, conclui.






