As duas personagens não conseguem coexistir: uma vive plenamente, a outra permanece em um estado quase de coma. A cada sete dias, elas precisam trocar de lugar. Entretanto, a narcisista Sue, que assume a posição de Elisabeth na televisão, se torna cada vez mais absorvida pela fama e pelo hedonismo.
Durante seus 140 minutos de duração, A Substância proporciona um banquete cinematográfico. Nas atuações, Demi Moore e Margaret Qualley protagonizam um intenso embate, tanto físico quanto nas sutilezas do olhar. Ambas mereciam indicações ao Oscar, Moore por melhor atriz e Qualley como coadjuvante.
O diretor de fotografia Benjamin Kracun (responsável por Bela Vingança) visa surpreender com composições visuais e valorizar o trabalho excepcional de Stanislas Reydellet no design de produção, de Emmanuelle Youchnovski nos figurinos e da equipe de maquiagem. A edição, coassinada por Fargeat com Jerome Eltabet e Valentin Féron, harmoniza com a trilha vibrante do produtor e DJ Raffertie e a sonoplastia impactante — os efeitos sonoros tornam as cenas com agulhas na pele, secreções humanas e deformações ósseas ainda mais perturbadoras.
O nome Sue, por sua vez, traz à tona a imagem de uma Marilyn Monroe ou de uma Lolita. “Invoca o passado”, diz a cineasta francesa, “e, inconscientemente, foi minha maneira de referenciar simbolicamente as imagens e representações que estabeleceram a expectativa atual do que é bonito, sexy e valorizado”.
Referente à cenografia, Fargeat explica que A Substância cria um universo próprio, desinteressado do realismo ou da realidade. O apartamento de Elisabeth é ao mesmo tempo antiquado e futurista, buscando uma qualidade atemporal (e os espelhos estão presentes não apenas para que as personagens expressem vaidade ou desgosto com elas mesmas, mas também para nos convidar a refletir sobre nós mesmos, refletindo nossas frustrações, medos e obsessões).
Ela afirma: “a grande janela” conecta o interior com o exterior, permitindo que Elisabeth enxergue seu passado, que em um determinado momento lhe é tirado. Quando Sue surge, a perspectiva se transforma em um futuro.
O banheiro branco, que serve como local para todas as transformações, atua como um casulo e também como um espaço de batalha mental; é, portanto, bem abstrato e quase desprovido de mobiliário — “me lembro de meu designer de produção perguntando: ‘Você tem certeza de que não quer nenhum móvel no banheiro?’”.
Embora o banheiro tenha uma estética minimalista, o enredo possui poucos diálogos, mas é bastante expressivo. Isso permite que Coralie Fargeat, como bem destacou a crítica Katie Walsh, da rede Tribune, explore “como os corpos das mulheres seduzem e enganam, são objetificados, transformados em mercadoria e consumidos, as capacidades que elas toleram, como podem se mudar, e como, no fim das contas, seus corpos são desvalorizados e descartados.” Ela examina de que maneira os corpos femininos são vistos pelos homens e, consequentemente, como somos ensinados a olhar para as mulheres na mídia.
Neste aspecto, A Substância gerou divisões entre críticos de cinema. Alguns, como Hilary A. White, do Sunday Independent (Irlanda), e Hannah Strong, do Little White Lies (Reino Unido), interpretam que a câmera hipersexualiza a personagem de Margaret Qualley em um filme que supostamente critica essa hipersexualização abordada sob a ótica masculina. “Se a intenção era fazer o público se sentir cúmplice, Fargeat acaba reproduzindo a narrativa de exploração por meio do terror aos corpos femininos ao invés de subverte-la,” escreveu Strong.
No entanto, no New York Times, Alissa Wilkinson discorda: “A câmera cobiça o corpo de Qualley, deslizando lentamente por Sue, vestida e iluminada de forma reminiscentes à pornografia. É desconfortável, e esse é claramente o propósito. Já vimos várias atrizes sendo filmadas assim. Mas o exagero torna isso satírico, para nos lembrar do que os filmes têm feito com nossas percepções do que um corpo deveria ser.”
O personagem de Harvey, no filme, repetidamente sente que “garotas bonitas devem sempre sorrir”. Essa frase ecoou em duas manchetes de um portal de notícias apenas quatro dias após a estreia de A Substância nos cinemas, falando a respeito de influenciadoras digitais: “Karoline Lima revela que fez uso de Ozempic após comentários sobre seu corpo” e “Virginia Fonseca mostra barriga trincada 15 dias pós-parto.”

Vivemos em um mundo que valoriza excessivamente a aparência e que subjuga — física e psicologicamente — as mulheres, assim como Coralie Fargeat ilustra em A Substância e como a quadrinista sueca Liv Strömquist discute em Na Sala dos Espelhos: Autoimagem em Transe ou Beleza e Autenticidade como Mercadoria na Era dos Likes & Outras Encenações do Eu (Quadrinhos na Cia., 2023, tradução de Kristin Lie Garrubo). Nesse estado de constante insegurança da modernidade líquida, a única coisa à qual conseguimos nos apegar, nosso amuleto contra a solidão, nossa proteção contra a morte metafórica do abandono em um relacionamento amoroso, se torna a beleza. Que, indubitavelmente, se apresenta como “infinitamente mais significativa” na era da produção exacerbada de imagens e do consumo massivo de fotos e vídeos em redes sociais como Instagram e TikTok.
A sociedade das selfies, muitas vezes repletas de filtros embelezadores, também surge de uma necessidade de congelar o tempo. No livro, Strömquist retrata os depoimentos de cinco mulheres que enfrentam ou já enfrentaram o envelhecimento. Nina, 53, sempre conseguiu atrair qualquer homem que desejasse; agora, afirma que ainda consegue ser bonita, desde que esteja cercada de pessoas mais velhas ou em um ambiente de luz baixa. Karin, 73, lembra que, quando tinha 52 anos, seu marido a trocou por uma mulher de 22 anos. Lena, 53, admite: “Ser bonita é uma enorme vantagem. Sempre usei e abusei do meu charme sempre que me foi útil. A beleza pode ser uma arma de destruição em massa. Uma mulher atraente consegue persuadir um homem a fazer qualquer coisa.” Ela vai além, identificando “algo de democrático” na beleza: “Qualquer mulher bonita — independente de classe social — pode ascender na sociedade e ser acolhida de braços abertos.”
Por isso, muitos buscam dominar a beleza e controlar o tempo, o que é coerente em uma sociedade que, conforme o sociólogo Hartmut Rosa, deseja “tornar o mundo à nossa disposição”: “Queremos planejar tudo, entender tudo, conhecer tudo, conquistar tudo, controlar tudo.” Entretanto, a beleza não pode ser possuída nem poupada, pois é, por natureza, efêmera. Liv Strömquist reflete: “Não é precisamente a transitoriedade da beleza que a torna bela, assim como um arco-íris é bonito porque desaparece ou uma flor é apreciada justamente por murchar? Da mesma forma que a morte é condição para a vida, a efemeridade da beleza é condição necessária para que ela seja percebida como tal.”

O fato de não aceitar a transitoriedade de tudo fez com que a imperatriz Isabel da Áustria (1837-1898), a Sissi, tornasse-se, primeiramente, uma figura deslumbrante, mas depois uma mulher para quem sua própria beleza se tornou um fardo. No capítulo final de Na Sala dos Espelhos, a autora sueca relembra os esforços de Sissi para disfarçar determinadas imperfeições, a ponto de, ao completar 32 anos, decidir não ser retratada ou fotografada novamente. Porém, em segredo, Sissi continuou a cultuar sua imagem, travando uma luta constante pela preservação de sua beleza. Ela antecipou um dilema e uma angústia muito atuais, a dicotomia entre o eu privado e o eu público, estudada pelo sociólogo Chris Rojek, que investiga o fenômeno das celebridades.
“No exato momento em que Franz Winterhalter finaliza o retrato perfeito de Sissi, aquele com as estrelas de diamante nos cabelos, a pintura se torna uma rival de Sissi”, menciona Liv Strömquist. “A obra (o eu público) é celebrada, admirada, adorada. No entanto, existe uma pessoa real que não é a obra, que envelhece, tem dentes amarelados e pode ganhar peso. Uma pessoa que talvez ame a imagem, mas a imagem não retribui o amor. A imagem consome todo o amor e aprovação que eu desejo. Ela me ofusca, me humilha, e ameaça me aniquilar. Os elogios à obra fazem a eu privado sentir: tudo que não é a imagem é irrelevante e não deveria existir. A imagem se torna uma tirana.”
Retornando a A Substância, é importante avisar sobre ALERTA DE SPOILERS.
Naquela conversa com a Vogue, Coralie Fargeat fala sobre a transformação final da protagonista no filme:
— Ironicamente, é quando ela está totalmente deformada e monstruosa que não a incomoda sua aparência. De fato, é a única ocasião em que ela se olha no espelho e até acaba gostando do que vê. Essa é a hora em que ela finalmente sente que merece aparecer em público, independentemente de sua aparência. Escondemo-nos atrás de nossos sorrisos polidos, e eu queria que a personagem liberasse essas ansiedades ocultas. O público no filme, que representa todos nós enquanto sociedade, grita e a detesta por isso, e minha intenção era mostrar a violência dessa reação. O único momento genuíno de alívio para ela acontece quando ela não possui mais corpo, e isso diz tudo, em minha opinião.
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