“Não se mexe com mãe”: um valor brasileiro de gerações

Mexeram com a mãe errada; mexeram com a mãe do Homem da Cruz. Como bem se sabe no Brasil, principalmente depois da publicação das obras de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) sobre o folclore nacional, e como sempre nos lembra Gilberto Felisberto Vasconcelos, a figura da mãe tem um valor primordial e ancestral na cultura brasileira. Quem é “cria” do Cancioneiro Popular, do Hip Hop, do Funk, da Música Caipira, da MPB, da Música Sertaneja, do Sertanejo Universitário e de toda e qualquer manifestação cultural brasileira sabe que se pode mexer com todo mundo, mas não com a mãe de ninguém. 

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Nesse sentido, a justiça popular assegura o direito à restituição, à reparação e à retratação. A Mãe é um ser sagrado – assim reconhecem os seguidores do Caminho! É ela que cuida, tanto de forma concreta quanto simbólica, daquilo que denominamos nação brasileira. 

Cabe imaginar a audácia de profanar a Mãe daquele que se entregou pela nossa Salvação. Trata-se da mãe que se expôs e foi a primeira a adorá-lo — figura cuja sacralidade nos impede de pronunciar o nome neste texto. Brincar com seu reinado celeste e terno por interesses políticos, teológicos e religiosos não tem perdão, é inadmissível e intolerável. Quanta ousadia, abuso e falta de respeito!  Isso, como advertem as gerações anteriores, terá seu dia de acerto de contas terreno ou divino. 

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A política não pode tudo. Muitos brasileiros e brasileiras ainda não aprenderam esta regra máxima da vida cotidiana do país: o sagrado é tudo aquilo que escolhemos tornar intocável e inviolável. A figura da mãe, justamente, foi escolhida, “ELEITA”, venerada e consagrada para esse lugar do projeto do Arquiteto Maior e da materialização do Ágape, do amor incondicional, com todas as suas contradições e ambiguidades. 

E a primeira das Mães é a Mãe do Homem do Caminho. Não há soteriologia cristã ocidental sem o sim Dela e de todas as mães. A majestade e o abrigo da maternidade foram concedidos a todos e a todas, gratuitamente, do Alto da Cruz e no seio do Criador. 

Grande parte da população brasileira reconhece que mexer com o que é  sagrado tem um preço — e esse preço é impagável. Isso não é ameaça, não é maldição, não é mandinga ou oração contrária, apenas o reconhecimento de que com o passar do tempo as consequências religiosas, espirituais, mágicas e práticas se revelam, ora como demônios, ora como anjos, conforme a posicionalidade dos sujeitos sociais e políticos que as reconhecem, interpretam e enunciam como Boa Nova. 

No Brasil, não se mexe com a mãe de alguém e tudo fica “por isso mesmo”, como se afirma em situação de conflito, principalmente para boa parte dos brasileiros que, desde criança, não levam “desaforo para casa”, sobretudo em defesa de sua mãe e da Mãe do Altar. Nessa perspectiva, ainda que tal ofensa seja proferida em nome da vitória eleitoral, da família, da propriedade, do anticomunismo, do progressismo, da revolução socialista, do anti bolsonarismo ou do antipetismo, nada justifica e nem legitima agredir, profanar e desqualificar a fé alheia. 

Nada é tão difícil de aceitar quanto a desconsideração da Mãe e a sua humilhação pública ou privada, especialmente por vandalismo, zombaria e gestos de deboche.  Em breve, aqueles que optaram por ridicularizar a Mãe do Enviado colherão, dramaticamente, os frutos amargos dos holofotes da mídia, da intolerância religiosa e das incivilidades públicas contra aquela que recebeu o nome de “Theotókos”.

É sempre preciso lembrar o óbvio: com a fé alheia não se brinca, e tampouco com os valores e sentimentos ligados àquela, sob pena de realimentar, novamente, ódio religioso e suas guerras que, como aprendemos nas aulas histórias na escola e cursinhos pré-vestibulares, deram origem aos Estados Modernos Europeus Ocidentais (Paz de Westfália,1648 e princípio Cuius regio, eius religio) e a  diversas outras guerras religiosas que seguem  devorando povos e culturas.

Quando vamos aprender que as coisas sagradas não existem apenas nas nossas crenças e nos dogmas de fé aos quais estamos vinculados? No mundo criado ou não criado por Deus (cosmovisões teístas ou não teístas), existem outras crenças religiosas com o mesmo direito de existir e a mesma capacidade de erigir espaços sagrados, de afirmar valores, rituais, seres e objetos intocáveis e ordenados segundo outras leis vistas como provenientes dos Céus. Por isso, o ecumenismo, a interculturalidade religiosa e o diálogo inter-religioso são direitos humanos que nenhuma política pode atropelar, pois a humanidade é plural e complexa e não se reduz a uma única expressão  religiosa. 

Podemos odiar-nos  ou engalfinhar-nos  na política ou em qualquer outra arena de disputa social. Mas isso não nos confere o direito – sob o pretexto de superioridade ou supremacia de uma fé religiosa particular – de julgar-nos autorizados  a inferiorizar, desqualificar e eliminar a crença alheia e seus territórios sagrados, especialmente quando se trata do valor da mãe e da Mãe do Messias. 

Sem as mães, não haveria mundo, especialmente o Brasil, que predominantemente  dependeu, em diversos momentos de sua história, de famílias monoparentais comandadas por mães solo em que os pais se ausentaram. Quem respeita a imagem da mãe conhece o valor da consideração e, também, o dissemina ao defender a honra e a dignidade de sua própria mãe. 

Nesta perspectiva, os brasileiros e brasileiras se aproximam de uma postura kantiana: trata-se de um imperativo categórico que não aceita negociação, cuja máxima vale para todos e todas. Quem disse que a brincadeira, “a zoeira”, as piadas, a mentira, a galhofa, as fake news/desinformações, a trapaça, a astúcia, os esquemas, os escrachos, a política dos cancelamentos e a carnavalização brasileira não têm limites? Tais práticas minimizam as barreiras sagradas, coletivas e individuais, e as grandes implicações ideológicas, éticas, morais e políticas.  Há um esquecimento voluntário de que toda ação política e crítica envolve impactos biopsicossociais, econômicos, políticos, religiosos e teológicos e crises nem sempre governáveis.

Que os estrategistas políticos e as organizações que “monetizam” e lucram nas redes sociais, no ecossistema digital e nas mídias tradicionais, caçadores de audiência, cliques, curtidas, comentários, seguidores, aprendam com seus erros de marketing e propaganda e deixem todas as mães do mundo em paz. Se desejam confronto, que o façam, assumindo todos os riscos, de forma consciente e planejada, pois é sempre fácil  começar uma guerra, mas é muito difícil de terminá-la, encerrá-la ou vencê-la. 

Em geral, os lados em disputas  se percebem como donos da razão, seja  militar, seja religiosa, seja de Estado, sentem-se superiores, legítimos, justos, protegidos por sua fé e creem que venceram num só golpe, como nos ensina todos os dias, nesses últimos anos, o Senhor da América do Norte e suas operações midiáticas, econômicas, políticas, culturais, religiosas e militares.

Para que provocar o formigueiro materno brasileiro!? Só quem é mãe pode compreender as agonias da Mãe do Salvador ao vê-lo na Cruz por nós, quem somos nós, meros pecadores eleitorais, para dizer que vamos destroná-la do seu reinado? Estão incendiando o país sem nenhuma preocupação com as consequências para os interesses políticos, sociais, econômicos, assim como para a vida cotidiana dos brasileiros e das brasileiras, religiosos ou não.

Em última análise, os que hoje incendeiam o país e brincam de “engenheiros do caos” (Giuliano da Empoli) ignoram uma lição elementar da sociologia e da história religiosa brasileira: embora os cálculos de poder e as decisões estratégicas transitem pelas conjunturas do momento, a dinâmica do sagrado e a densidade da fé não se curvam às engrenagens tecnocráticas de previsibilidade. 

As consequências de tais ofensivas são incontroláveis e reverberam sobre toda a coletividade. Esse tensionamento irresponsável prepara o caminho para perigosas escaladas de conflitos confessionais — como já se observa na animosidade violenta e planejada de segmentos do neopentecostalismo e pentecostalismo hegemônico contra as religiões de matrizes africanas e os saberes dos povos originários. 

Estes, ao longo da história do Brasil, foram empurrados para a invisibilidade estrutural por parcelas de uma religiosidade de massa que, inflada pela demografia, pelo sentimento de totalidade e de maioria e pela condição de porta-voz missionária do mundo. Esta, ainda, incorre na soberba teológica de se arvorar em dona de Deus transfigurada em propriedade privada de uma determinada seita, denominação religiosa ou igreja, do mundo e da própria Salvação. 

Contra essa hybris que profana o Altar da Alteridade e o afeto ancestral das mães, fica o aviso da história e da teologia: o sagrado jamais compactuou com o arbítrio, e as fúrias soltas contra a raiz da vida e da fé popular cobram, invariavelmente, um preço histórico incalculável.

Um bilhete a quem interessa….

Reconheço, antes de tudo, que falo de um lugar que não me pertence. Como homem, não experimento o mundo pela condição feminina; não carrego no corpo nem no cotidiano o peso da maternidade transformada em destino. Minha reflexão é necessariamente externa, construída a partir da escuta, da leitura e da observação — jamais da vivência e experiência. Esse distanciamento impõe limites epistemológicos, políticos e ontológicos que não posso transpor.

Por isso, preciso reconhecer que, ao enfatizar a força cultural da mãe no Brasil, corri o risco de naturalizar o que é, na verdade, uma construção histórica de poder. A sacralidade materna não é inocente: ela opera como dispositivo político que tenta disciplinar as mulheres, convertendo o cuidado em obrigação e o amor em exploração invisível ou dependência afetiva. Minha análise pode ter subestimado essa dimensão de dominação de gênero ao privilegiar o símbolo sobre a estrutura.

Compreendo, agora com mais clareza, que a Mãe do altar e da nação é também uma armadilha quando se transforma em norma social obrigatória. A maternidade, elevada a essência feminina, aprisiona as mulheres em um único roteiro possível, silenciando outras formas de existência. A sacralidade sem emancipação é santificação da submissão — e eu falhei, claramente, ao não explicitar suficientemente esse mecanismo de poder e dominação.

Peço, portanto, desculpas pelos equívocos, conscientes e inconscientes, e reafirmo meu compromisso: ouvir mais, falar menos, e jamais permitir que minha interpretação substitua a voz das próprias mulheres, nunca foi minha intenção sequestrar o lugar de fala de ninguém. Que a reverência à mãe não sirva de escudo para a opressão feminina. A mãe pode ser sagrada; a mulher precisa ser livre — e essa liberdade começa por reconhecer que o altar não pode ser cárcere.

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Igor Vitorino da Silva
Igor Vitorino da Silva
Professor, historiador e mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal do Paraná (/PPHIS/UFPR). Pesquisador Associado Externo do LHIPI – UFES e do LHIPU – IFES/Campus Vitória-ES

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