Vem ano eleitoral, uma impressão costuma surgir com facilidade: obras aparecem por todos os lados.
É também nesse período que cresce a desconfiança sobre anúncios, inaugurações e investimentos públicos. Mas existe uma diferença importante entre calendário político e planejamento urbano — e compreender essa diferença é fundamental para avaliar o desenvolvimento de uma cidade.
A legislação eleitoral estabelece uma série de limitações aos agentes públicos. Desde 4 de julho de 2026, por exemplo, passaram a existir restrições às transferências voluntárias de recursos da União para estados e municípios e dos estados para municípios, com exceções previstas para situações como obras ou serviços já em andamento, vinculados a obrigação formal anterior e cronograma estabelecido.
Isso não significa, porém, que toda obra pública precise parar durante a eleição.
Orientações federais para 2026 deixam claro que determinados projetos podem continuar e, em situações específicas, até iniciar durante o período eleitoral quando os recursos já tiverem sido transferidos anteriormente, observadas as condições legais e sem utilização promocional da obra em benefício eleitoral.
Na Grande Vitória, esse debate ocorre enquanto grandes intervenções de mobilidade continuam transformando a estrutura metropolitana.
Em março, o Governo do Espírito Santo anunciou investimento de R$ 62 milhões para ampliação do Sistema Aquaviário, envolvendo novas estruturas em Cariacica, Vila Velha e Vitória. Em junho, foi autorizada a implantação da quinta faixa da Segunda Ponte, com investimento estimado em R$ 15 milhões.
Independentemente do calendário eleitoral, são intervenções que levantam uma questão maior: quanto dos nossos projetos urbanos consegue sobreviver à mudança dos governos?
Uma ponte, um corredor de transporte, uma estação aquaviária ou um grande projeto de reurbanização dificilmente nasce e termina dentro do mesmo ciclo político.
Planejamento urbano exige continuidade.
Estudos precisam ser desenvolvidos. Projetos precisam ser contratados. Licenças precisam ser obtidas. Recursos precisam ser reservados. Obras precisam ser executadas e, depois de prontas, ainda precisam ser mantidas.
Quando cada governo abandona aquilo que foi iniciado pelo anterior, a cidade paga duas vezes: primeiro pelo investimento desperdiçado e depois pelo problema urbano que continua sem solução.
Por isso, talvez a qualidade de uma política urbana não deva ser medida apenas pela quantidade de obras inauguradas durante determinado mandato.
Uma cidade realmente planejada é aquela capaz de estabelecer projetos que sejam maiores que seus calendários eleitorais.
Governos passam.
A infraestrutura permanece.
E o planejamento da Grande Vitória precisa ser pensado justamente dessa forma.






