Em Aquilo que Não se Vê, Silvia Kashi aborda a cultura do abuso e revela, por meio de uma história policial, como comportamentos aparentemente cotidianos podem contribuir para a construção da violência de gênero
A violência contra a mulher não começa necessariamente com uma agressão física. Para a autora Silvia Kashi, ela pode nascer muito antes, ainda na infância, em comportamentos cotidianos que parecem banais, mas que ensinam meninas a conviver com a culpa, a vergonha e a falta de autonomia. Essa é a questão central de Aquilo que Não se Vê, livro de ficção que utiliza uma trama policial para revelar mecanismos de abuso que muitas vezes permanecem invisíveis dentro das próprias famílias.
A obra surgiu da percepção de que grande parte dos livros e estudos sobre violência contra a mulher costuma apresentar o problema principalmente por meio de estatísticas. Em Aquilo que Não se Vê, Silvia Kashi escolhe outro caminho: colocar o leitor diante do drama humano e da solidão de uma vítima, mostrando como a violência pode ser construída gradualmente por meio de relações abusivas.
A história se concentra em uma família marcada por relações de poder e controle. Os pais, especialmente a mãe, enxergam a filha como uma propriedade, e não como uma pessoa autônoma, capaz de tomar decisões sobre a própria vida. A partir dessa dinâmica familiar, o livro explora situações de abuso que podem ser naturalizadas no cotidiano e que, justamente por parecerem normais, muitas vezes passam despercebidas.
“É uma obra de ficção, mas, ao mesmo tempo, é um relato dos abusos cotidianos que as mulheres enfrentam — e alguns homens também — mesmo dentro de suas famílias, que deveriam protegê-las”, afirma Silvia Kashi.
Para a autora, tornar esses comportamentos visíveis é um passo fundamental para questioná-los e, no futuro, combatê-los. Em sua análise, a violência de gênero não deve ser compreendida apenas a partir de seus episódios extremos, mas também a partir de uma sequência de atitudes que podem fragilizar a autoestima e a autonomia das mulheres desde os primeiros anos de vida.
Uma história policial para provocar reflexão
Silvia Kashi prefere falar em “cultura do abuso”, em vez de restringir a discussão à chamada cultura do estupro. Segundo a autora, essa cultura é formada por uma série de comportamentos que podem incutir vergonha e culpa nas mulheres desde a infância, fazendo com que elas hesitem em defender seus próprios limites e buscar autonomia.
Entre esses mecanismos está também a construção da ideia de que a realização feminina depende necessariamente do casamento e da maternidade. Essa expectativa pode contribuir para gerar insegurança em relação às conquistas profissionais e às escolhas individuais.
Ao transformar essas questões em uma narrativa de ficção, a autora procura aproximar o leitor de uma realidade que muitas vezes permanece escondida atrás das estatísticas. Mais do que contar uma história, a obra pretende abrir espaço para a reflexão e para o debate sobre educação, relações familiares, violência de gênero, abuso e autonomia.
Sobre a autora
Silvia Kashi é formada em Ciências Sociais e trabalhou como jornalista em alguns dos principais jornais e revistas de São Paulo. Aposentada, começou a escrever ficção e decidiu adotar um pseudônimo para diferenciar sua produção criativa da trajetória jornalística, que não admite devaneios ficcionais. Com base em leituras sobre mitologia e cultura hindu, Silvia adotou o sobrenome Kashi, cujo sentido está relacionado a esplendor.
Lançamento
O lançamento de Aquilo que Não se Vê será realizado com uma noite de autógrafos na livraria Martins Fontes no dia 2 de outubro, das 18:00 as 21:00. O endereço é Avenida Paulista, 509. Fica na galeria de um prédio, próxima ao cruzamento das avenidas Paulista e Brigadeiro Luis Antônio.
Ficha Técnica
Título: Aquilo que Não se Vê
Literatura Brasileira
Editora Kotter Editorial, selo Goyazes
120 páginas







