Existe um tipo de conforto que alguns homens carregam no bolso. Não é dinheiro, não é exatamente poder, embora às vezes venha junto. É uma certeza silenciosa de que podem atravessar o corpo de uma mulher sem grandes consequências. Eles contam com isso.
Eu mesma já perdi as contas de quantas vezes fui assediada. Não porque seja algo raro, mas justamente porque é banal. Acontece na rua, em festas, em reuniões, em corredores de trabalho, lugares onde, teoricamente, estamos apenas vivendo.
E tenho certeza de uma coisa: todas, absolutamente todas as mulheres já passaram por isso. Pode ter sido um comentário, uma mão que demorou mais do que devia, um olhar que despia, uma “brincadeira” que atravessou o limite. Pode ter sido no transporte público, na escola, no trabalho, em uma festa de família. Mas aconteceu.
Porque o assédio não é um episódio isolado. Ele é quase um ritual silencioso da experiência de ser mulher no mundo.
No trabalho, então, a coisa ganha outra camada. A da hierarquia, do constrangimento, da necessidade de seguir ali no dia seguinte como se nada tivesse acontecido.
Os dois últimos episódios que vivi aconteceram em um mesmo lugar onde eu trabalhei, mas em momentos distintos. Dois homens casados. Dois homens adultos. Dois homens plenamente conscientes do que estavam fazendo. Quando relatei o ocorrido aos superiores hierárquicos, imaginei, ingenuamente, que alguma coisa aconteceria. Nem que fosse uma conversa séria. Uma advertência. Um gesto mínimo de que aquele ambiente tinha limites. Nada. Absolutamente nada.
Dias depois, os dois vieram falar comigo. Não para assumir o que fizeram, mas para oferecer a saída clássica do manual masculino da impunidade: “Foi só uma brincadeira”.
Mas quem é assediada sabe muito bem distinguir uma brincadeira de um assédio. O corpo sabe. O silêncio constrangido da sala sabe. O desconforto que fica grudado na gente depois sabe.
Brincadeira não faz a gente ensaiar caminhos diferentes no corredor. Brincadeira não faz a gente repassar mentalmente uma conversa inteira tentando entender em que momento aquilo virou invasão. Brincadeira não faz a gente sentir medo de ser chamada de exagerada. E talvez seja justamente isso que sustenta o conforto deles: a certeza de que a dúvida sempre cairá sobre nós.
Outro dia fui ao velório de um ex-político conhecido do estado com meus pais. Um lugar de silêncio, respeito, despedida. Ou pelo menos deveria ser.
Um outro político, desses de carreira pequena e ego inflado, veio falar conosco, ele conhecia o meu pai. Enquanto conversava, começou a passar a mão na minha barriga. Assim. Como se fosse natural. Como se o corpo de uma mulher em um velório fosse extensão do espaço público. Eu fiquei constrangia e minha mãe percebeu. Me chamou na hora. Depois me disse que teve vontade de dar na cara daquele homem nojento. Eu também tive, mas não dei. Fiquei paralisada sem saber o que fazer e saí de perto. E a cena terminou como quase todas terminam: com a mulher se afastando.
Antes mesmo de chegar em casa, recebi notificações. Solicitação de amizade em todas as minhas redes sociais. Do mesmo homem. Um senhor já. A audácia não era apenas o gesto. Era a tranquilidade depois dele.
Porque homens assim sabem de uma coisa que nós também sabemos, mesmo quando fingimos acreditar no contrário: na imensa maioria das vezes, nada acontece.
No máximo, um pedido de desculpas constrangido.
Uma explicação esfarrapada.
Uma “brincadeira mal interpretada”.
E a vida segue. Para eles. Para nós, fica o acúmulo invisível dessas pequenas violências que vão ensinando algo muito claro: não é que eles não saibam o limite. É que sabem que dificilmente serão punidos por atravessá-lo.







