A personalidade é algo que todos compartilhamos, mas as distintas maneiras como pensamos e sentimos também fazem de cada um de nós alguém único.
A personalidade tende a se manter relativamente estável e exerce influência sobre praticamente todos os campos da vida humana, do desempenho escolar e das escolhas profissionais até os hábitos de saúde e a longevidade. Alguém mais “responsável”, por exemplo, pode evitar correr riscos ou fazer uso de álcool e drogas.
Um novo estudo, publicado na revista científica Nature, relacionou a personalidade a mais de 1.200 variantes genéticas comuns e destacou seu papel central para a compreensão da experiência humana.
Isso só se tornou possível porque 1,14 milhão de pessoas cederam seu DNA e seu tempo a 46 estudos realizados em 13 países, todos medindo a personalidade da mesma forma.
Como a personalidade é medida?
Os cientistas condensam milhares de traços de personalidade em cinco fatores relativamente independentes, conhecidos como os “Big Five” (“Cinco Grandes”):
- Extroversão – ser sociável, assertivo e enérgico
- Amabilidade – ser compassivo, cooperativo e respeitoso
- Conscienciosidade – ser responsável, produtivo e organizado
- Neuroticismo – ser emocionalmente reativo, ansioso e depressivo
- Abertura à experiência – ser curioso, imaginativo e preferir a variedade.
Talvez você já conheça sistemas de classificação de tipos de personalidade como o Myers-Briggs ou o Eneagrama, que descrevem a personalidade de maneiras diferentes. Os cientistas, no entanto, preferem os “Big Five”, pois eles descrevem a personalidade em um espectro contínuo, em vez de enquadrar as pessoas em tipos distintos.
Estudando a genética da personalidade
A genética foi relacionada pela primeira vez à personalidade por meio de estudos com gêmeos, que mostram que pessoas com laços de parentesco próximos costumam ter personalidades mais semelhantes.
Atualmente, os pesquisadores empregam um método chamado estudo de associação do genoma completo, ou GWAS na sigla em inglês, para identificar diferenças em marcadores genéticos ao comparar o DNA de muitas pessoas ao mesmo tempo.
Nessa pesquisa, cientistas de 15 países ao redor do mundo, entre eles a equipe do QIMR Berghofer, conduziram até cinco GWASs com os próprios dados de seus levantamentos. A busca era por variantes genéticas comuns associadas a cada traço de personalidade.
Em seguida, esses resultados individuais dos GWAS foram reunidos em uma análise combinada, liderada pelo Revived Genomics of Personality Consortium, da Universidade Estadual de Michigan. Essa etapa ampliou de modo substancial a capacidade de identificar marcadores genéticos ligados à personalidade.
Testes posteriores analisaram a quais genes esses marcadores estão associados. A investigação também buscou descobrir em quais partes do corpo esses genes estão ativos e como a genética da personalidade se compara a outros traços comportamentais.
O que a pesquisa descobriu?
Foram identificados 1.260 marcadores genéticos associados aos “Big Five”, entre eles 824 que não haviam aparecido em estudos anteriores.
Os resultados indicam que algo entre 5% e 16% da variação na personalidade pode ser explicado por variantes genéticas comuns. Um resultado parecido foi encontrado para a depressão grave.
Isso sugere que a genética desempenha um papel significativo na formação da personalidade. Ao mesmo tempo, uma grande proporção também sofre influência do nosso ambiente.
Isso, porém, não decorre de um ambiente familiar compartilhado. Ninguém tem uma personalidade semelhante à dos integrantes da própria família apenas porque cresceram juntos. A verificação foi feita comparando os resultados do GWAS de pessoas sem parentesco e de membros de uma mesma família.
Caso o ambiente familiar compartilhado estivesse distorcendo os resultados, seria de esperar diferenças entre os resultados do GWAS de pessoas sem parentesco e dos membros da família. Esse viés é observado em estudos sobre nível de escolaridade e desempenho cognitivo.
Para os “Big Five”, contudo, não houve evidências disso. A personalidade parece ser distinta dessas outras tendências comportamentais.
Os marcadores genéticos associados a cada traço dos “Big Five”, com exceção da amabilidade, estavam fortemente ligados a genes expressos no córtex pré-frontal do cérebro.
Essa área, situada logo atrás da testa, é frequentemente chamada de “centro da personalidade” do cérebro. Ela é importante para a regulação emocional, a tomada de decisões e o autocontrole.
O córtex pré-frontal também está envolvido em muitos transtornos psiquiátricos, incluindo ansiedade, esquizofrenia, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e transtorno bipolar. Os “Big Five” e os transtornos psiquiátricos apresentam um compartilhamento genético substancial, o que pode explicar por que estão consistentemente ligados à mesma região do cérebro.
Sinais genéticos sobrepostos entre traços de personalidade e de saúde mostram como a personalidade também pode afetar diretamente nossa saúde física. A extroversão, por exemplo, aumentou o risco de infecção por covid-19. Já a conscienciosidade diminuiu o índice de massa corporal (IMC), reduziu a probabilidade de fumar e diminuiu a frequência de internações hospitalares.
A genética da personalidade também desempenha um papel relevante na forma como as pessoas respondem a pesquisas para estudos científicos. Aqueles com pontuação alta em amabilidade e abertura à experiência, por exemplo, são mais propensos a preencher questionários opcionais.
Portanto, a genética da personalidade pode influenciar os resultados de estudos publicados com base em dados de pesquisas de maneiras que não são levadas em conta.
O que vem a seguir?
Esses resultados oferecem uma compreensão mais profunda da genética da personalidade do que era possível no passado. Ainda assim, há várias lacunas a serem exploradas no futuro.
A genética dos “Big Five” mostrou-se altamente consistente em todas as regiões geográficas, faixas etárias e medidas de personalidade nesses estudos. Mas os “Big Five” não são necessariamente a melhor síntese das diferenças de personalidade em todas as culturas e idiomas. Isso significa que os resultados podem não se aplicar a todas as pessoas do mundo.
A personalidade é um aspecto fundamental do ser humano. Essas descobertas científicas revolucionaram a compreensão dos efeitos genéticos sobre a personalidade e de como a personalidade se relaciona com muitas facetas das nossas vidas.
Com o tempo, os traços de personalidade poderão ser integrados a modelos que avaliem resultados tanto de saúde física quanto mental. Isso abrirá novas oportunidades para aprimorar a forma como categorizamos, identificamos e tratamos doenças.
*Briar Wormington é pesquisador de pós-doutorado em neurogenômica translacional no QIMR Berghofer. Michelle K Lupton é professora associada e líder do Laboratório de Neurogenética e Demência no QIMR Berghofer.






