Projeto prevê conexão entre moedas digitais de bancos centrais e busca reduzir dependência do dólar nas transações entre integrantes do grupo.
Em setembro, o Brics dá novo passo nas tratativas para criar uma infraestrutura própria de pagamentos internacionais. Batizado de Brics Pay, o mecanismo busca interligar os sistemas financeiros dos países do bloco e, no futuro, viabilizar transações com moedas digitais emitidas por bancos centrais.
A pauta deve ganhar espaço na 18ª Cúpula do Brics, agendada para 12 e 13 de setembro em Nova Délhi, na Índia. Não há expectativa de adoção imediata do sistema nem de definição completa das regras de funcionamento; o mais provável é que os líderes avancem na estruturação do projeto e, eventualmente, definam um cronograma de implementação.
Embora receba o apelido informal de “Pix do Brics”, o desenho é diferente do brasileiro. O Pix foi criado essencialmente para pagamentos instantâneos no mercado doméstico; o Brics Pay foca a integração internacional de diferentes estruturas nacionais de pagamento.
Integração das moedas digitais
O tema ganhou força depois que o Banco Central da Índia (RBI) recomendou ao governo indiano, anfitrião da cúpula deste ano, incluir na agenda uma eventual interligação das CBDCs, as moedas digitais emitidas por bancos centrais.
O projeto poderia resultar em uma infraestrutura capaz de processar operações entre os membros do Brics sem depender integralmente dos canais tradicionais usados nas transferências internacionais.
O presidente do RBI, Sanjay Malhotra, porém, indicou recentemente que as alternativas continuam em discussão. Assim, o avanço no encontro também dependerá das negociações conduzidas antes da reunião dos líderes.
Em maio, Andrey Mikhaylishin, CEO da desenvolvedora responsável pelo Brics Pay, afirmou que a arquitetura será gradualmente implantada ao longo desta década, conectando tecnologias e sistemas dos diferentes países.
Alternativa para pagamentos internacionais
Uma das referências do sistema financeiro internacional é a Swift, rede em que instituições financeiras trocam informações necessárias para transferências entre países.
A iniciativa do Brics pretende ampliar as opções disponíveis para operações entre seus integrantes, principalmente em transações feitas diretamente com moedas nacionais e, futuramente, com as CBDCs.
O Brics Pay não contempla, pelo menos no desenho atualmente discutido, a criação de uma moeda única para substituir o dólar. A estratégia se volta a mecanismos que permitam aos países reduzir a necessidade de usar a moeda americana como intermediária em transações feitas dentro do próprio bloco.
A chamada desdolarização das transações comerciais tornou-se uma das pautas financeiras mais acompanhadas desde a expansão do Brics e também passou a repercutir em Washington.
Trump ameaça bloco com tarifa de 100%
O movimento encontra resistência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O republicano já ameaçou aplicar tarifas de 100% contra integrantes do Brics caso o grupo apoie a criação de uma moeda destinada a substituir o dólar nas transações internacionais.
A posição americana amplia a dimensão geopolítica das discussões. Ainda que o Brics Pay não represente a criação dessa moeda concorrente, uma infraestrutura capaz de facilitar negócios diretamente entre as moedas locais pode diminuir a presença do dólar em parte do comércio do grupo.
A relevância potencial do sistema também cresceu com a expansão do Brics. Nascido da aproximação entre Brasil, Rússia, Índia e China, o grupo incorporou a África do Sul mais tarde e ampliou a agenda para áreas como comércio, investimentos, financiamento e governança internacional.
Após nova rodada de expansão, o Brics reúne agora 11 membros plenos: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia. Outros dez países participam como parceiros.
Com uma composição mais ampla e economias de sistemas financeiros distintos, a integração tecnológica é justamente um dos principais desafios do Brics Pay. Mais do que anunciar uma solução pronta, a cúpula de setembro poderá ser decisiva para indicar quando e de que maneira o projeto sairá da fase de discussão e entrará em implementação gradual.







