Antes da 18ª Cúpula do BRICS, marcada para os dias 12 e 13 de setembro em Nova Delhi, um correspondente da Agência de Notícias do Vietnã (VNA) na capital indiana conduziu uma entrevista exclusiva com o Professor Gulshan Sachdeva, titular da Cátedra Jean Monnet no Centro de Estudos Europeus da Universidade Nacional Jawaharlal Nehru (JNU).
A conversa abordou o papel da Índia na presidência do BRICS em 2026, as prioridades do país anfitrião para o encontro e as perspectivas do bloco diante das profundas transformações na ordem global.
Na avaliação do professor Gulshan Sachdeva, o BRICS deve ser compreendido, antes de tudo, como um dos principais mecanismos de cooperação entre nações do Hemisfério Sul. O número crescente de economias dinâmicas na região, sejam integrantes ou parceiras, demanda uma articulação mais estreita entre os países para tratar de questões internacionais e proteger os interesses das nações em desenvolvimento.
Um dos pontos centrais analisados pelo especialista é a urgência de diversificar os mecanismos financeiros, comerciais e energéticos, sobretudo porque essas ferramentas vêm sendo usadas com frequência como instrumento de pressão nas relações internacionais. O BRICS, por reunir diversos países produtores e consumidores de energia, encontra-se em posição privilegiada para fomentar a cooperação nesse campo.
Após os processos de expansão, o bloco passou a incluir grandes produtores de energia, como Rússia, Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos e Brasil, além de expressivos mercados consumidores, como Índia e China.
Esse cenário, conforme destaca o professor Gulshan Sachdeva, abre um amplo espaço para que os membros ampliem o comércio energético e diversifiquem as formas de pagamento. Algumas operações bilaterais já são realizadas em moedas locais ou por intermédio de outros mecanismos, mas a maior parte ainda ocorre de maneira bilateral. Por isso, no longo prazo, o BRICS talvez precise avaliar a criação de um mecanismo multilateral capaz de oferecer suporte a essas transações.
Especialistas ponderam, no entanto, que o movimento em curso não configura um processo de desdolarização, mas sim uma procura dos países do BRICS por alternativas de pagamento e financeiras mais amplas, incluindo o uso crescente de moedas nacionais em operações comerciais e de investimento.
O comércio também desponta como uma frente na qual se espera avanços mais concretos do bloco. O grupo já estruturou importantes corredores comerciais conectando suas principais economias, mas a cooperação no âmbito do BRICS ainda está concentrada, em grande medida, na facilitação de trocas, em questões aduaneiras, no intercâmbio entre povos e em compromissos de caráter não vinculante.
Na visão do professor Gulshan Sachdeva, caso o BRICS pretenda exercer um papel mais relevante na economia global, precisará caminhar progressivamente rumo a acordos mais abrangentes e obrigatórios. Trata-se de uma meta de longo prazo, mas que deve integrar a agenda do grupo nos próximos anos.
A conectividade também pode se transformar em um campo estratégico para a cooperação. Os integrantes do BRICS atualmente implementam diversas iniciativas individuais, como a Iniciativa Cinturão e Rota da China, a União Econômica Eurasiática, o Corredor Econômico Índia-Oriente Médio-Europa e a proposta indiana de Segurança e Crescimento para Todos na Região (SAGAR).
As divergências entre essas iniciativas dificilmente serão superadas de imediato, mas analistas acreditam que o BRICS pode contribuir para estabelecer princípios comuns de conectividade, minimizando atritos e favorecendo a complementaridade entre diferentes projetos.
Sob sua atual presidência, espera-se que a Índia concentre esforços em áreas capazes de gerar resultados concretos, em vez de buscar respostas imediatas para problemas excessivamente amplos e complexos. O Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e o Mecanismo de Reservas Contingentes (MRC) figuram entre os dois instrumentos mais relevantes já criados pelo BRICS.
Contudo, o volume de recursos do NBD ainda não acompanha as necessidades de desenvolvimento de seus membros. Dessa forma, a ampliação do capital e do escopo de atuação do banco, somada a um maior apoio às pequenas e médias empresas, ao comércio eletrônico e às novas áreas econômicas, pode se converter em medidas práticas de fortalecimento do bloco.
Além disso, a tecnologia surge como um campo de grande potencial. A Índia detém forte vantagem em infraestrutura pública digital, enquanto a China e outros membros do BRICS possuem expressivas capacidades tecnológicas. Essa combinação oferece as bases para que os países intensifiquem a cooperação em áreas como inteligência artificial, veículos elétricos e inovação.
Para o professor Gulshan Sachdeva, entretanto, o maior obstáculo enfrentado pelo BRICS atualmente não está na criação de novas iniciativas, mas na preservação do consenso dentro de um grupo cada vez maior e mais heterogêneo.
O conflito na Ucrânia, a situação no Oriente Médio e os interesses divergentes entre os integrantes dificultam a construção de uma posição comum. Como o BRICS opera com base no consenso, a capacidade de os membros aprovarem um documento conjunto durante a 18ª Cúpula será decisiva para a presidência indiana. Desentendimentos anteriores, que impediram os chanceleres do BRICS de divulgar uma declaração unificada, evidenciam que essa não é uma tarefa simples.
Nesse cenário, a trajetória da Índia no Grupo dos Vinte (G20), que reúne as principais economias avançadas e emergentes, pode representar uma vantagem relevante. O êxito anterior de Nova Delhi ao construir consenso entre os integrantes do G20 em um ambiente internacional conturbado é visto como aprendizado valioso para o exercício atual na presidência do BRICS.
Segundo o professor Gulshan Sachdeva, embora a Índia tenha sediado mais de 350 reuniões e atividades ao longo do seu mandato, o tema central da presidência permanece indefinido. Ainda assim, o objetivo imediato de Nova Delhi é bastante claro: forjar consenso e assegurar que a Cúpula termine com um resultado conjunto.
No longo prazo, o desafio do BRICS consiste em evoluir de compromissos principiológicos para mecanismos de cooperação mais consistentes nas esferas financeira, comercial, energética, de conectividade e tecnológica.
Para o especialista Gulshan Sachdeva, esse também será um teste à capacidade da Índia de empregar sua presidência para gerar impulso ainda maior a um BRICS cada vez mais diversificado e em expansão, com protagonismo crescente no Hemisfério Sul.







