Redescobri o prazer no ritmo da vida real sem redes sociais

Durante uma consulta com o psicólogo, uma paciente apresentou uma queixa comum: a sensação de que os dias transcorriam sem que fossem percebidos de verdade. “Uma sensação de falta de presença?”, perguntou o terapeuta. Ela respondeu que sim.
Antes disso, alguns fatores haviam sido investigados. Seriam as doses extras de café, trazendo uma energia que beirava a ansiedade? A ausência de uma intenção ativa em se concentrar no momento presente? Ou a constante vontade de permanecer em casa, impedindo-a de explorar a rua e aproveitar as inúmeras possibilidades que uma cidade como São Paulo oferece?
A investigação seguiu, mas, mesmo solucionando todas as lacunas que passaram pela mente até então, nada funcionava. A busca por sentir os dias com mais solidez continuava.
Até que, por coincidência do destino — ou por aquela bússola interna que guia inconscientemente a direção daquilo que se cultiva por dentro —, surgiu uma proposta em uma das reuniões de pauta da Vida Simples: “E se eu escrever um relato sobre ficar uma semana sem redes sociais?”. O desafio estava lançado.
As muitas horas passadas no Instagram — ao acordar, antes de dormir, nos intervalos entre tarefas ou sempre que sobravam poucos minutos, em uma quantidade que faltava coragem para admitir — teriam que ser reduzidas a zero.
Os aplicativos foram removidos para evitar o risco de uma “roubadinha” no desafio e para impedir que, no piloto automático, o Instagram fosse aberto sem percepção, como ocorre com gestos tão repetidos que o corpo parece executá-los sozinho.
Grande parte da motivação veio da curiosidade. Será que finalmente a procrastinação daqueles hobbies que ela já considerou começar chegaria ao fim? Sentiria tédio ou entraria em contato com sentimentos adormecidos atrás de um muro de distrações? Esse interesse pelo mundo interno, por descobrir como ficaria depois de anos ininterruptos com o celular como extensão das mãos, fez com que seguisse em frente.
No primeiro dia, a sensação era de um tédio profundo. Ficar sem fazer nada era, em alguns momentos, um alívio; em outros, parecia sem significado — como se o tempo passasse e, por não estar entretida, ela estivesse perdendo-o. Ao caminhar pelas ruas, tal qual alguém tentando largar o cigarro, notou muito mais do que o habitual quantas pessoas usavam aquele aparelhinho.
Em determinado momento, enquanto ouvia “Nem Um Dia”, de Djavan, os primeiros acordes trouxeram a lembrança de como aquela música é boa. O primeiro impulso? Preciso postar. Um instante depois, veio a percepção: não dava. Sem a possibilidade de compartilhar, passou a prestar mais atenção na melodia. Era só ela e a canção, e o corpo parecia mais presente. Esse mesmo ato falho, no entanto, se repetiu algumas vezes ao longo da semana.
Seguindo a orientação dos versos da música, em um dia frio, sentiu que era o momento ideal para ler um livro. Finalmente concluiu A Dança dos Dragões, de George R. R. Martin, cuja leitura vinha se arrastando havia semanas. Depois, leu Coisa de Rico, de Michel Alcoforado, e passou a ouvir o audiolivro de Dom Casmurro, obra que ganha um encanto particular na voz de Marcos Palmeira. Consumiu conteúdos que alimentam o prazer pela vida e ampliaram o mapa pelo qual enxerga o mundo.
Nos dias seguintes, conforme o tempo passava, o corpo e o cérebro sentiram um alívio rápido. Como se uma sobrecarga sensorial tivesse sido retirada, deixando espaço para o prazer nas coisas banais, nos pequenos detalhes da rotina que antes passavam despercebidos. Era um prazer distinto das doses rápidas de estímulo que surgiam a cada 20 segundos de Reels: menos imediato, porém mais duradouro.
As palavras de Lucas Freire, psicólogo entrevistado certa vez, permaneciam na memória: “O clímax só existe quando há tensão acumulada antes dele. Destruímos a tensão e ainda nos perguntamos por que nada nos satisfaz.”
Durante o experimento, não houve a preocupação de ocupar mais os dias, nem de lotar a agenda com encontros e compromissos apenas para compensar a falta das redes sociais. A rotina foi preservada como era, por haver a convicção de que a transformação não teria sustentação se tudo o que se habituara a fazer mudasse de uma hora para outra. Afinal, costuma-se ouvir dos psicólogos que mudanças radicais raramente se mantêm; o melhor é ir aos poucos.
Muitas coisas ao redor puderam ser notadas quando não havia um dispositivo automático para encarar nos momentos livres. Ela passou vários minutos observando as estratégias do próprio gato para conseguir pegar um brinquedo guardado. Tomou chá contemplando a lua pela janela do quarto, reparou em uma família do prédio ao lado que faz questão de jantar junta à mesa todos os dias e notou um casal de pássaros que vive circulando perto da janela. Ali, os pensamentos caminhavam em ritmo de passeio, e não em velocidade de corrida desenfreada.
Veio à lembrança a sensação experimentada ao visitar os bisavós no interior. Naquela época, os celulares não eram tão populares, e ela passava horas observando o quintal sem sentir tédio. Era tão bom voltar a sentir aquilo.
Aquela impressão descrita ao psicólogo, de ter piscado e subitamente já estar em agosto, passou. Houve um aterramento. Os dias enfim pareciam estar sob os pés, e não mais escorrendo pelos dedos antes que pudessem ser tocados de fato. O medo de que a vida pudesse passar rápido demais para ser aproveitada já não a acompanhava.
Nas próximas semanas, sabe-se que é provável o retorno às redes sociais buscando manter uma nova mentalidade, pois a diferença entre o remédio e o veneno está na dose. Fica como motivação o desejo real de chegar à velhice com a gratidão de ter vivido intensamente os dias, sem que a canção Epitáfio, dos Titãs, sirva como trilha sonora. Como nem sempre o acaso vai proteger as pessoas enquanto estiverem distraídas, é preciso percorrer o caminho com boas doses de intenção.
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