Como você quer envelhecer?

O que você imagina estar fazendo aos 90 anos? Escrevendo um livro, aprendendo um idioma, viajando, dançando, cuidando dos netos ou simplesmente decidindo como aproveitar cada dia? Por muito tempo, a velhice foi tratada como o capítulo derradeiro da existência. No entanto, num país onde o envelhecimento avança rapidamente, talvez seja o momento de substituir essa narrativa por outra: longevidade não significa apenas viver mais, mas continuar construindo uma vida repleta de significado.

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O envelhecimento populacional no Brasil ocorre em ritmo veloz. Nas últimas duas décadas, o contingente de pessoas com 60 anos ou mais quase duplicou, totalizando aproximadamente 16% da população. Conforme estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por volta de 2070 quase 40% dos brasileiros terão ultrapassado essa faixa etária.

Diante dessa transformação demográfica, o questionamento central deixou de ser simplesmente “como viver mais?” e passou a ser “como viver melhor?”. A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que envelhecer com saúde não se resume a evitar enfermidades, mas também a preservar a capacidade funcional — isto é, manter a autonomia necessária para fazer o que dá sentido à própria existência.

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O corpo se transforma, as despedidas integram a trajetória e limitações podem aparecer. Mesmo assim, envelhecer de forma satisfatória parece relacionar-se menos com a luta contra o tempo e mais com o cultivo de hábitos, vínculos, curiosidade, autonomia e propósito. Cada vez mais, a ciência comprova o que muitos já percebem na prática: envelhecer bem não é continuar jovem, e sim manter-se plenamente vivo.

A velhice e seus mitos

Durante bastante tempo, o discurso sobre envelhecimento saudável esteve praticamente restrito ao controle de doenças. Atualmente, a concepção é bem mais abrangente. De acordo com a nutricionista Simone Fiebrantz Pinto, especialista em gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e integrante do conselho consultivo, envelhecer de forma adequada abrange aspectos biológicos, psicológicos, sociais e espirituais.

“É alguém que preserva sua funcionalidade, consegue executar as tarefas cotidianas, mantém a cognição, desenvolve relações, participa da comunidade e encontra equilíbrio igualmente na espiritualidade”, explica ela.

Essa perspectiva transforma radicalmente a forma de encarar a velhice. Um indivíduo de 85 anos pode conviver com enfermidades crônicas e, ainda assim, conservar autonomia, interesses intelectuais e entusiasmo pela vida. Do mesmo modo, uma pessoa bem mais jovem pode enfrentar isolamento, sedentarismo e ausência de propósito, fatores que comprometem a qualidade de vida.

Segundo Simone, esse processo tem início precoce. “Envelhecimento é um processo, não um acontecimento”, afirma ela, que também derruba um dos maiores mitos acerca da terceira idade: “Existe um imaginário de que todo idoso ficará doente ou dependente. Isso não é verdade. Muitas dessas condições podem ser prevenidas ou retardadas com alimentação adequada, atividade física, controle das doenças e manutenção da funcionalidade.”

Se a medicina estende a expectativa de vida, as mudanças culturais ampliam as maneiras de vivenciar essa fase sob novas perspectivas. Para a antropóloga Mirian Goldenberg, que estuda o envelhecimento há mais de 30 anos, “a velhice saiu do armário”. “Durante muito tempo, envelhecer era algo escondido. Hoje, especialmente as mulheres mais velhas, tornaram-se protagonistas. Existe um novo olhar sobre essa fase da vida”, analisa a pesquisadora.

Para ela, a grande mudança não reside na aparência, mas na liberdade. “Não existe mais um único jeito de envelhecer. Algumas mulheres pintam os cabelos, outras assumem os fios brancos; algumas priorizam procedimentos estéticos, outras preferem investir em saúde ou novos projetos. O importante é que cada pessoa tenha autonomia para escolher.”

Paralelamente, Mirian chama a atenção para uma nova cilada: a cobrança por envelhecer do jeito tido como “certo”. “Existe pressão para fazer musculação, tomar suplementos, usar hormônios. Por isso, a autonomia nunca foi tão importante.”

Propósito: o ingrediente invisível

Existe um elemento que a ciência passou a mensurar, embora a filosofia o reconheça há séculos: aqueles que encontram motivação para despertar todos os dias tendem a lidar melhor com as dificuldades e a zelar mais pela própria saúde. Conforme Mirian, inúmeras pesquisas indicam que indivíduos com propósito exibem melhores índices físicos, emocionais e cognitivos. “Quem tem projetos costuma se engajar mais na própria saúde.”

Tal propósito não precisa ser algo grandioso. Pode ser escrever um livro aos 90 anos ou, simplesmente, recuperar energia para almoçar com a família. “Temos um paciente com quase 100 anos que começou a escrever depois da pandemia e acorda todas as manhãs para produzir um novo capítulo. Mas também há quem tenha como objetivo fazer fisioterapia para conseguir pegar o bisneto no colo. O importante é que exista algo que dê sentido ao cuidado consigo mesmo”, orienta Simone.

Essa mesma noção está presente na obra A dor e a delícia de envelhecer: Um novo olhar sobre a passagem do tempo (editora Sextante), da escritora norte-americana Sophy Burnham. Estruturado como cartas e reflexões pessoais, o livro evidencia que a maturidade pode configurar um período de liberdade, autenticidade e sabedoria. Na prática, isso significa desvencilhar-se da obrigação de corresponder às expectativas externas e pautar a vida pelos próprios valores.

“Na minha juventude, havia todo um vocabulário pejorativo relacionado à idade das mulheres. Quando cheguei aos 45, fiquei surpresa ao ver que meu mundo era muito mais rico do que eu imaginara. E agora aqui estou eu, aos 85 anos, vivendo um dos períodos mais interessantes de toda a minha vida. Nunca me senti tão livre”, confidencia a autora.

Rose Cordeiro, doutora em psicologia social, professora de yoga e idealizadora do perfil @envelhecerlivre, denomina esse movimento de envelhecer livre. “É poder dizer não, sem culpa, a tudo o que nos afasta de nós mesmos e dizer sim aos nossos desejos, aos nossos valores e à vida que ainda queremos construir.”

Gosto pela novidade

Ainda que certas alterações cognitivas se apresentem durante o envelhecimento, o cérebro preserva sua capacidade de adaptação por toda a existência. Essa propriedade, denominada neuroplasticidade, pode ser continuamente incentivada.

O neurologista Dale E. Bredesen, especializado em doenças degenerativas, aconselha seus pacientes a não aceitarem passivamente a ideia de que o declínio cognitivo é inerente à idade. “Todos nós deveríamos lutar contra o declínio cognitivo, de preferência começando com hábitos que formamos quando crianças, agravados por ações conscientes no início da idade adulta, independentemente dos genes que carregamos. Assim teríamos um cérebro que funciona em plena capacidade – desempenho e proteção – por toda a nossa vida”, escreve no livro O cérebro que não envelhece: A nova ciência para prevenir e retardar os danos que afetam a memória e o raciocínio (Sextante).

O médico é categórico ao afirmar que, com os devidos cuidados, é possível melhorar o raciocínio e a memória, ampliar a capacidade de aprendizado e regular melhor o humor e as emoções. Mais do que isso, evita-se perder a própria identidade com o passar dos anos. Para tanto, ele sugere algumas medidas: diminuir a ingestão de açúcar e a exposição a toxinas — como poluição do ar, mercúrio, glifosato (herbicida) e agentes anestésicos —, praticar exercícios físicos (inclusive de força), gerenciar o estresse, dormir de sete a oito horas e meia por noite, meditar e adotar uma dieta rica em vegetais orgânicos e levemente cetogênica (com menos carboidratos e mais gorduras boas e proteínas), favorecendo a sensibilidade à insulina e a energia.

A essa relação acrescenta-se a curiosidade, outro relevante fator de proteção cerebral. “Aprender uma nova língua, tocar um instrumento ou experimentar atividades diferentes favorece a formação de novas conexões neurais”, explica Simone. “Devemos nos esforçar para enfrentar um pequeno desafio cognitivo a cada dia, um desafio médio a cada mês e um desafio mais complexo a cada ano”, recomenda Dale E. Bredesen.

Em entrevista a Bruna Lombardi no programa Gente de Expressão, no começo dos anos 1990, a atriz Fernanda Torres já manifestava preocupação com seu eu futuro. Ao ser questionada sobre o maior medo, foi direta: perder o interesse e a curiosidade pela vida. “Esse é o maior perigo, e pode acontecer com alguém em qualquer idade, aos 30 ou aos 70 anos. Isso implica em não conseguir mais se relacionar com o mundo”, afirmou. Desde então, ela tem se mantido ativa e criativa, com trabalhos relevantes no cinema, livros publicados e atuação no teatro. Fernanda Torres, sem dúvida, inspira muitos daqueles que acompanham sua carreira há décadas e se encantam com seu bom humor contagiante.

Fernanda sente enorme prazer no que realiza. E você, deixou algo apaixonante pelo caminho? “Muitas pessoas abandonam hobbies ao longo da vida, mas a aposentadoria pode ser justamente o momento de resgatá-los”, sugere Simone.

A convivência social igualmente exerce papel fundamental para um envelhecimento dinâmico. Participar de grupos, nutrir amizades e compartilhar vivências desafiam o cérebro de maneiras que palavras cruzadas ou aplicativos, isoladamente, dificilmente reproduzem. “É importante manter uma boa rede de relacionamentos, participar de clubes de leitura, grupos de pintura, música ou jogos”, destaca Simone. E não se deve subestimar as interações casuais do dia a dia. De acordo com Dale E. Bredesen, até breves contatos sociais com desconhecidos geram efeitos positivos na memória, no foco e no equilíbrio emocional.

Autonomia importa

Poucos fenômenos humanos são tão universais quanto o envelhecimento. Mesmo assim, poucos provocam tamanho desconforto. Se no passado a pressão consistia em ocultar os sinais do tempo, atualmente emerge outra cobrança: envelhecer perfeitamente. Praticar exercícios, tomar suplementos, preservar a produtividade e manter uma aparência jovem.

“Existe uma cobrança enorme de todos os lados”, afirma Mirian. “Antes era para não envelhecer; agora é para envelhecer seguindo determinados modelos.” Para Rose, envelhecer livre significa romper com tais expectativas. “Fomos ensinadas a obedecer a padrões durante toda a vida. Envelhecer livre é acolher essa fase com autenticidade, leveza e novas experiências.” Ela também propõe uma reconciliação com o próprio corpo. “Posso fazer procedimentos estéticos, se isso fizer sentido para mim. Mas a beleza tem muito mais relação com o conjunto da vida do que com a ausência de rugas.”

Se fosse necessário sintetizar em uma única palavra tudo o que emergiu das conversas com as especialistas, essa palavra seria autonomia. Não somente a autonomia física, mas igualmente a emocional, intelectual, financeira e afetiva — a possibilidade de seguir fazendo escolhas acerca da própria existência. “Os mais felizes são aqueles que mantêm a possibilidade de decidir como querem viver o dia”, afirma Mirian. “Podem precisar de apoio, mas continuam tendo voz.”

Essa autonomia igualmente requer planejamento. “Hoje podemos chegar aos 90 ou aos 100 anos. Pouco se comenta sobre o assunto, mas organizar recursos para aposentadoria, adaptações na casa, viagens, medicamentos e cuidados faz parte do envelhecimento saudável”, lembra Simone.

Por muito tempo, a velhice foi descrita como um epílogo. Hoje, pode ser compreendida como mais um capítulo — repleto de desafios, mas também de descobertas, afetos e reinvenções. “Lutar contra o envelhecimento físico é uma batalha perdida. Mas isso não significa em nada o envelhecimento do desejo, da alegria de viver, da capacidade criativa. Enquanto isso persiste, ninguém envelheceu”, opina a escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras, Rosiska Darcy.

Ao final da apuração desta matéria, cada especialista foi convidada a completar a frase: “Envelhecer bem é…”. “É cuidar do corpo, da alma e manter um propósito de vida”, resumiu Simone. “É se conciliar com o tempo, acolher as dores e os contentamentos, mantendo lealdade a si mesma”, respondeu Rose. Mirian, por sua vez, foi objetiva: “É ter coragem de dizer não, ter autonomia e liberdade para escolher o que realmente importa — para você, não para os outros.”

As novas perspectivas sobre a longevidade convidam a não apenas somar anos à linha do tempo, mas a permanecer curiosos quando o mundo oferece respostas prontas, a seguir aprendendo quando muitos julgam ser tarde demais, a cultivar laços, a descobrir novos desejos e a enxergar beleza nas mudanças inevitáveis da vida — continuando a escolher, diariamente, a existência que ainda se deseja viver.

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