Precisamos Dialogar

Alguma vez deixou de dialogar com alguém por achar que essa pessoa “não vale a pena”? Já sentiu irritação instantânea ao descobrir a posição política, religiosa ou mesmo a marca favorita de alguém? Se a resposta for afirmativa, pode ser que tenha vivenciado um fenômeno que especialistas denominam polarização afetiva.
Diferentemente da polarização ideológica, que se refere a desacordos em torno de ideias e propostas, a polarização afetiva ocorre quando o desacordo transcende o intelectual e envolve sentimentos intensos. O outro deixa de ser apenas um indivíduo com opiniões diferentes e passa a ser alguém em quem se desconfia, que provoca rejeição e desprezo, e que precisa ser excluído.
Um estudioso da área de filosofia observa que existe uma crescente dificuldade das pessoas em lidar com essas divergências sem romper laços humanos. “A polarização gera a impressão de que, para que uma ideia exista, é necessário eliminar a outra. Há uma ausência de escuta”, afirma. “A diversidade de opiniões nunca foi o verdadeiro problema nas democracias ou nas relações interpessoais. O real desafio reside na falta de diálogo”, enfatiza.
O mesmo pensador salienta que é um equívoco pensar que dialogar implica chegar a um consenso. “O diálogo não requer concordância. Requer respeito pela opinião do outro, escuta e interesse genuíno”, diz. No entanto, uma especialista em sociologia acrescenta que respeitar a opinião e o espaço do outro sugere que o interlocutor percebe o outro como igual – uma dificuldade de entendimento que se torna central nesta questão.
Recentemente, um renomado psicólogo e pesquisador internacional, professor universitário nos Estados Unidos, realizou uma palestra no Brasil abordando esses temas. Para ele, criador de abordagens voltadas à flexibilidade psicológica e às molduras relacionais, nós naturalmente aprendemos a relacionar eventos de forma arbitrária. Contudo, essas relações alteram os significados dos estímulos que recebemos e controlam nosso comportamento por meio de concepções pré-estabelecidas, muitas vezes sem que tenhamos consciência.
O funcionamento é o seguinte: criamos categorias (molduras), nas quais classificamos pessoas e acabamos buscando sinais que confirmem nossas crenças. Esse mecanismo, conhecido como viés de confirmação, torna mais fácil prestar atenção às informações que corroboram as crenças que já temos.
Contudo, o pesquisador alerta que essas emoções não surgem de experiências, mas de relações verbais e do estabelecimento de molduras (categorias). Isso permite, por exemplo, que as pessoas sintam e expressem raiva em relação a indivíduos nas redes sociais sem nem mesmo conhecê-los.

Julgamentos Rápidos

As redes sociais ampliam esse efeito. Os algoritmos costumam exibir conteúdos semelhantes aos que já consumimos, criando ambientes onde quase todos aparentam pensar da mesma maneira. Quando encontramos alguém fora dessa “bolha”, a sensação pode ser de estranhamento ou ameaça.
O perigo é que, com o tempo, deixamos de ver indivíduos complexos e passamos a enxergar apenas rótulos: “ele é de esquerda”, “ela é conservadora”, “ele é do agro”, “ela é vegana”, e por aí vai. “Cada etiqueta substitui uma pessoa inteira”, alerta uma especialista em psicologia. “A pessoa desaparece, enquanto o rótulo permanece”.
Essa certeza e a rotulação das pessoas geram julgamentos rápidos e reduzem nossa disposição para ouvir, explica a profissional. Ao invés de perguntar, respondemos antes mesmo da conversa ter início. Em vez de buscar compreensão, procuramos argumentos que comprovem que estávamos certos.
“Essa dinâmica impacta muito mais do que debates políticos. Ela infunde reuniões de trabalho, diálogos entre vizinhos, interações familiares, amizades duradouras e até relacionamentos amorosos. O resultado aparece em pequenos gestos: interromper, ironizar, desmerecer, bloquear, silenciar ou simplesmente desistir do contato, o que equivale a cancelar a pessoa em uma esfera menor”, relata. A questão mais importante, talvez, não seja “como convencer quem pensa diferente?”, mas “como realmente escutar alguém?”, sugere a psicóloga.
Teorias comportamentais identificam alguns hábitos que dificultam o diálogo: acreditar que toda discordância é um ataque pessoal; reduzir as pessoas a uma única opinião; confundir identidade com posicionamento; entrar em conversas visando vencer; interpretar dúvidas como fraqueza; presumir intenções antes de escutar a história completa. “Despir-se dessas certezas não implica abandonar valores ou relativizar princípios éticos. Significa reconhecer que nenhuma pessoa se encaixa inteiramente em um estereótipo”, enfatiza o filósofo citado anteriormente.

Faça Perguntas

A contrapartida envolve cultivar uma curiosidade genuína, segundo uma pesquisadora estrangeira, autora de obras de destaque sobre conflitos e formas de superá-los. Para ela, um dos maiores sinais de que um diálogo ainda é viável não é a concordância, mas a presença da curiosidade e do interesse verdadeiro em aprender. “Quando interrompemos a prática de fazer perguntas, geralmente já transformamos o outro em um personagem”, avalia.
“De fato, uma boa conversa pode concluir exatamente onde começou, com as pessoas continuando a discordar, mas respeitando-se mutuamente. A diferença reside na forma. Quando existe respeito, a discordância deixa de ser uma ameaça à identidade de cada um, passando a ser apenas uma manifestação da pluralidade humana”, complementa.
Para a socióloga mencionada, isso é o que fortalece as sociedades democráticas, as famílias e as amizades. Ou as cidades, se considerarmos o sentido original da palavra: a convivência em comunidade, de acordo com direitos políticos que garantem a liberdade dos indivíduos.
“Muitas pessoas possuem uma pulga atrás da orelha em relação à liberdade de expressão. É fundamental enfatizar que liberdade não implica que se possa fazer tudo. A vida em sociedade requer regras, incluindo normas para nos comunicarmos com civilidade”, alerta.
A psicóloga lembra que a reconstrução da convivência pode não necessariamente começar em grandes debates nacionais. Ela pode iniciar bem perto de casa, em situações muito simples: durante o almoço de domingo, na conversa com o colega de trabalho, no grupo de mensagens da família ou nas desafiadoras reuniões de condomínio. “Tentar escutar alguém até o fim antes de formular uma resposta é um bom exercício que cria musculatura emocional para lidar com diferenças maiores”, ressalta. “Essas transformações são silenciosas”.
Curiosamente, quem exerce uma escuta mais aberta costuma descobrir algo inesperado, segundo a mesma especialista: a primeira pessoa a se transformar não é a que está do outro lado, mas aquela que escuta. “Ao abandonar conclusões precipitadas, ampliamos nosso repertório sobre o mundo e, também, sobre nós mesmos. A empatia deixa de ser um gesto de concordância e converte-se em uma forma de conhecimento”, discorre.
“Em tempos marcados por respostas rápidas, talvez a atitude mais revolucionária seja desacelerar o julgamento. Substituir a necessidade de estar certo pela disposição de compreender. Porque, antes de qualquer opinião, sempre há uma pessoa. E é nesse sentido que o diálogo pode recomeçar”, conclui.

A Arte da Escuta

Não há uma fórmula mágica para encerrar a polarização. No entanto, existem pequenas escolhas que podem transformar nossas conversas, de acordo com as orientações compartilhadas. A principal dica é cultivar a curiosidade pelo outro. Na prática, recomenda-se trocar a resposta por uma pergunta. “Antes de compartilhar seu ponto de vista, pergunte como o interlocutor chegou a essa conclusão, se sempre acreditou nisso. Essa prática costuma enriquecer o diálogo”, afirma a profissional da mente.
Em outras palavras, escute para entender e não apenas para rebater. “Assegure-se de que, ao ouvir, esteja realmente escutando, e não apenas aguardando sua vez de falar”.
Separar a pessoa da opinião é outra sugestão valiosa. “Uma opinião sobre determinado assunto não resume uma pessoa. É importante cuidado para que um diálogo isolado não resulte em rejeição pessoal”.
O filósofo já citado recomenda que as pessoas convivam com indivíduos diferentes. “Quanto maior o contato com realidades diversas, menor a probabilidade de reduzir as pessoas a estereótipos”, acrescenta. A dica, alinhada a correntes teóricas comportamentais, é estar ciente de que pensamentos e enquadramentos podem ser produtos da linguagem e de associações arbitrárias, e não verdades absolutas. Por isso, é essencial conhecer o contexto no qual as opiniões estão sendo formadas, assim como as histórias dos indivíduos, para então estabelecer diferenças e semelhanças.
Como orienta o pesquisador internacional: “Reconheça que nem toda conversa culmina em consenso. Uma conversa eficaz não é aquela onde alguém muda de opinião instantaneamente. Muitas vezes, o maior resultado é manter o respeito, fortalecer o vínculo e deixar em aberto a possibilidade de novos encontros”.
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