A Igreja celebra em 28 de agosto a memória de Santo Agostinho. No último ano, a encíclica Magnifica humanitas, na qual Leão XIV descreve o valor da pessoa e a dignidade humana na era da inteligência artificial, teve papel destacado nos debates sobre o tema. O frade agostiniano recoleto Frei Welton Cavallini concedeu entrevista à Rádio Vaticano – Vatican News para explicar a relação entre a verdade agostiniana e a IA.
Poliana Ferreira – Vatican News
Nascido em 13 de novembro de 354, em Tagaste, cidade do norte da África que hoje pertence à Argélia, Santo Agostinho recebeu o nome de Aurélio Agostinho. Sua mãe, Santa Mônica, era cristã e exerceu grande influência em sua vida; seu pai, Patrício, era pagão e tinha caráter difícil.
Desde cedo, Agostinho interessou-se profundamente pela filosofia e buscou respostas para questões sobre a existência humana, a verdade e o sentido da vida. Embora tivesse recebido a educação cristã de sua mãe, por muitos anos permaneceu afastado da fé cristã.
Mônica continuou rezando pela conversão do filho ao longo de muitos anos. Em 386, enquanto vivia em Milão, Agostinho passou por uma profunda transformação espiritual. Influenciado pelos ensinamentos do bispo Santo Ambrósio e por suas próprias reflexões, decidiu abandonar a vida anterior e seguir o cristianismo.
Em 387, Agostinho foi batizado por Santo Ambrósio. Depois disso, voltou para o norte da África e dedicou sua vida à Palavra de Deus. Em 391, foi ordenado sacerdote e, alguns anos mais tarde, tornou-se bispo de Hipona, cidade localizada na atual Argélia.
Como bispo, Agostinho escreveu várias obras importantes sobre a fé cristã, a filosofia, a moral e a sociedade. Entre seus livros mais conhecidos estão as Confissões, nas quais narra sua trajetória pessoal e espiritual, e A Cidade de Deus, uma profunda reflexão sobre a história e a relação entre a sociedade humana e a fé.
Santo Agostinho morreu em 28 de agosto de 430, durante um período de conflitos que atingiam a cidade de Hipona. Após sua morte, seus ensinamentos continuaram influenciando profundamente o cristianismo e a filosofia ocidental. Ele é considerado um dos grandes Doutores da Igreja e é celebrado pela Igreja Católica em 28 de agosto.
Imagem de Santo Agostinho, Doutor da Igreja e Bispo de Hipona
A vida de Santo Agostinho é lembrada principalmente como uma história de busca pela verdade, mudança e conversão. Sua trajetória mostra como uma pessoa pode percorrer diferentes caminhos até encontrar aquilo que considera o verdadeiro sentido da vida.
Nos tempos atuais, o mundo enfrenta um grande dilema em relação à inteligência artificial (IA), criada para facilitar a vida das pessoas. O problema surge quando deixamos de enxergá-la como ferramenta e passamos a tratá-la como uma autoridade absoluta.
Nesse contexto, a primeira encíclica do Papa Leão XIV, intitulada Magnifica humanitas, trata da importância de proteger a dignidade e o valor da pessoa humana na era da IA.
Para melhor compreender o assunto, a Rádio Vaticano – Vatican News conversou com o frei Welton Cavallini, da Ordem Agostiniana Recoleta, que atua na Paróquia Santo Agostinho e Santa Rita de Cássia, no Rio de Janeiro. Ele falou sobre a relação entre a verdade agostiniana e a era da inteligência artificial.
Frei Welton, frade agostiniano recoleto, que atua no Rio de Janeiro
A verdade de Santo Agostinho na era da inteligência artificial
Para começar a entrevista, frei Welton abordou a verdade de Santo Agostinho. Assim comentou:
“Eu começaria dizendo que, para Santo Agostinho, a verdade não é propriedade privada de ninguém. Ninguém pode afirmar, autenticamente, ‘a verdade é minha’, como se fosse dono dela. Para o santo, ocorre exatamente o oposto: somos nós que somos chamados a pertencer à Verdade. Participamos da verdade que é Deus. Esse ponto é crucial para o nosso tempo, pois vivemos em uma sociedade em que a verdade frequentemente é confundida com opinião. ‘Eu tenho a minha verdade’, muitos dizem; ‘você tem a sua. Cada um acredita no que quiser’. Outros afirmam: ‘Agostinho respeitaria profundamente o caminho interior de cada pessoa, mas jamais aceitaria reduzir a verdade a uma preferência individual’. Uma das frases mais conhecidas de Santo Agostinho, escrita na obra ‘De Vera Religione’ (A Verdadeira Religião), é: ‘não saia de ti; volta para dentro de ti mesmo; no homem interior, habita a verdade’.”
“É preciso compreender bem essa frase de Agostinho. Ele não está dizendo ‘entre dentro de si e invente a sua verdade’, mas sim ‘entre em si para encontrar uma verdade maior do que você’. A interioridade agostiniana não se encerra no próprio ego; ela é um caminho de transcendência. Entro dentro de mim e descubro o que existe em mim. Diante da inteligência artificial, Agostinho provavelmente faria uma distinção fundamental: uma máquina pode produzir uma afirmação verdadeira sem viver na verdade. Ela pode ser correta, organizar conhecimento, construir argumentos, mas a relação humana com a verdade envolve consciência, liberdade, responsabilidade, amor e transformação interior. A interioridade é o carisma agostiniano. Você é uma verdade e, juntos, não eu contra você, formamos uma comunidade de irmãos que busca. Por isso, Santo Agostinho disse: uma só alma e um só coração orientados para Deus, como aparece na regra de Santo Agostinho. Isso muda completamente o modo de discutir.”

Frei Welton palestrando na Paróquia Santo Agostinho e Santa Rita de Cássia
O bem e o mal no uso da inteligência artificial
Em seguida, ao ser questionado sobre como a concepção de bem e mal em Santo Agostinho poderia orientar o desenvolvimento e o uso responsável da IA, frei Welton destacou que “para Santo Agostinho, uma das ideias mais centrais é que tudo o que Deus criou contém algum bem. O mal não é uma substância criada por Deus; trata-se de uma privação do bem, uma corrupção, uma desordem daquilo que, em si, é bom”.
“Santo Agostinho escreveu em algumas obras que aquilo que chamamos de mal não pode existir sem algum bem, pois o mal é corrupção de um bem. Essa visão é essencial para pensar a tecnologia. Eu não afirmaria que a inteligência artificial é má; isso seria filosoficamente pobre e pouco agostiniano. Tampouco diria que a IA é boa simplesmente por ser tecnologicamente avançada; isso também seria insuficiente. A pergunta agostiniana seria: a que ordem do bem essa tecnologia está servindo?”
“Uma tecnologia pode ter enorme potencial de uso desordenado. A IA, por exemplo, pode contribuir com a educação, ampliar o acesso ao conhecimento, apoiar pesquisas, auxiliar pessoas com deficiência, aprimorar processos médicos e facilitar serviços; tudo isso representa bens reais. No entanto, a mesma ferramenta pode ser usada para manipular, enganar, discriminar, vigiar injustamente, humilhar, gerar desinformação, reduzir pessoas a dados e substituir de forma irresponsável decisões humanas. Portanto, o problema moral não reside apenas na existência da tecnologia, mas na ordem do amor e da vontade que orienta seu uso.”
“Agostinho estabelece uma distinção importante em ‘A Doutrina Cristã’ (De doctrina Christiana) entre usar e fruir: há realidades que devem ser empregadas como meios e há aquilo que constitui o fim último da existência. A tecnologia deve servir à pessoa; a pessoa não deve se transformar para servir à tecnologia. Diante de qualquer sistema de inteligência artificial, eu levantaria quatro perguntas agostinianas: isso preserva a dignidade da pessoa? Isso promove o bem comum? Isso aumenta a liberdade? Está a serviço do amor ou apenas do poder e da eficiência?”

Frei Welton palestrando na Paróquia Santo Agostinho e Santa Rita de Cássia, na Barra da Tijuca
Dignidade humana diante do avanço da IA
Ao final, perguntado sobre como a visão de Santo Agostinho acerca da dignidade e da interioridade humana dialoga com a preocupação de Leão XIV em proteger a pessoa diante do avanço da inteligência artificial, frei Welton observou que “para Agostinho, o ser humano não pode ser compreendido apenas externamente. A pessoa carrega uma profundidade de memória, inteligência, vontade, desejo, consciência, liberdade, capacidade de amar e de se relacionar com Deus. Daí a célebre afirmação em De Vera Religione (A Verdadeira Religião): ‘não saia de ti; volta para dentro de ti mesmo; no homem interior habita a verdade’.
“Aplicada ao nosso tempo, essa frase tem uma força imensa. A inteligência artificial opera muito bem com aquilo que pode ser convertido em dados: preferências, padrões, comportamentos, probabilidades de hábitos históricos e de linguagem. Mas uma pessoa é muito mais do que a soma dos dados disponíveis sobre ela. Esse ponto precisa ser defendido; a pessoa humana precisa ser defendida. Eu não sou apenas aquilo que um algoritmo consegue prever a meu respeito. A dignidade não depende do meu desempenho, meu valor não deriva da minha produtividade; ele não aumenta porque sou inteligente nem diminui por causa das minhas limitações. Essa é uma questão decisiva, pois, se começarmos a avaliar o mundo segundo a lógica das máquinas — eficiência, velocidade, cálculos, desempenho —, corremos o risco de transformar pessoas em funções. Agostinho nos recorda que o centro da pessoa está mais fundo.”
“Existe, para Santo Agostinho, um homem interior, e há um belíssimo princípio agostiniano que se aplica aqui: a pessoa deve ser encontrada na interioridade, mas a interioridade verdadeira gera comunhão. O carisma agostiniano não produz indivíduos fechados em si mesmos, mas constrói comunidade. A regra de Santo Agostinho apresenta o ideal de viver: uma só alma e um só coração orientados para Deus. Essa expressão oferece um critério extraordinário para a IA: essa tecnologia aproxima ou fragmenta? Humaniza ou isola? Promove comunhão ou transforma relações em consumo? Serve às pessoas vulneráveis ou as exclui? Protege a pessoa ou a converte em matéria-prima econômica? A dignidade existe quando a inteligência artificial permanece colocada a serviço do humano integral.”






