Os limites entre amor e controle podem ser mais tênues do que parecem. Quem começa a pensar duas vezes antes de mencionar um encontro com uma amiga, a escolher com cuidado as palavras para comunicar uma novidade ou a observar o estado de espírito do outro antes de fazer qualquer pergunta pode estar diante de um sinal sutil. Em certo ponto, os pedidos de desculpas passam a ser automáticos, ainda que não exista clareza sobre o motivo exato.
A impressão é de que nada grave aconteceu, de que se trata apenas de uma fase, de que não vale a pena gerar conflito. Parece mais simples deixar quieto.
Essa dimensão cotidiana é exatamente o que dificulta a identificação de algumas relações abusivas. Nem sempre existe um episódio isolado que marque com clareza o momento da virada. A convivência ainda reserva bons momentos, há afeto, uma trajetória comum e, para quem observa de fora, talvez nada pareça diferente. A transformação costuma estar no modo como um dos envolvidos passa a ocupar cada vez mais espaço.
É desse período anterior à violência mais explícita que o psicólogo Rossandro Klinjey parte em “Antes que você me destrua – Sobre se libertar de relacionamentos tóxicos”, livro que será lançado na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. A publicação trata de manipulação, dependência emocional, chantagem e controle, com atenção especial às pequenas concessões e renúncias que costumam preceder quadros mais sérios.
Antes mesmo de surgir qualquer comportamento reconhecível como violência, Klinjey identifica uma transformação bastante reveladora. “O sinal mais fino aparece antes de qualquer grito: a pessoa começa a se editar.”
A ideia de “se editar” revela muito sobre esse mecanismo. Em lugar de tomar decisões por conta própria, a pessoa começa a antecipar como o outro vai reagir. O que vestir, o que dizer, a quem telefonar, para onde ir: escolhas que, vistas isoladamente, parecem triviais, mas adquirem outra dimensão quando passam a ser guiadas pelo medo.
Quando a própria percepção começa a ser questionada
Esse padrão também está presente no gaslighting, nome dado a uma modalidade de violência psicológica na qual a pessoa passa a duvidar da própria percepção. Para Klinjey, essa forma de agressão é particularmente cruel porque atinge exatamente a referência utilizada para interpretar a própria experiência.
“Abuso é conta-gotas. Cada concessão pequena prepara o terreno da próxima, e quando a pessoa olha pra trás já cedeu tanto que perdeu a régua do normal”, afirma. Na obra, ele define o gaslighting como uma violência que leva a vítima a desconfiar dos próprios olhos e sentimentos. A personagem Giovana sintetiza essa vivência ao dizer que virou “uma forasteira dentro da minha própria cabeça”.
Quando a própria percepção perde a confiabilidade, a avaliação externa da relação se torna mais complicada. A dúvida passa a ocupar o espaço que antes pertencia a uma convicção simples sobre o que foi sentido ou vivido.
Isso explica por que controle e ciúme podem ser absorvidos pela relação sem que sejam percebidos como problemas de imediato. Muitos comportamentos chegam envoltos em justificativas afetivas. A pergunta repetida se transforma em preocupação. A vigilância ganha a aparência de interesse. A cobrança é apresentada como demonstração de compromisso.
A cultura também contribui para essa confusão. Klinjey observa que certas formas de controle são associadas ao romance e menciona “Every Breath You Take”, do The Police, canção frequentemente usada em contextos românticos mesmo falando sobre seguir os passos de quem partiu. “Se uma promessa de vigilância vira valsa de noivos, imagina o ciúme dentro de casa”, diz.
Existe uma diferença essencial entre o que se sente e o que se faz com aquilo que se sente. Ciúme, insegurança e medo de perder alguém são experiências humanas comuns. Usar esses sentimentos para limitar a liberdade do outro é algo completamente distinto. É nesse ponto que uma emoção pode se converter em controle.
O mundo vai ficando menor
O isolamento nem sempre ocorre a partir de uma ordem explícita. Em muitos casos, a própria pessoa passa a abrir mão dos próprios desejos para evitar brigas, deixa de compartilhar certos assuntos com os amigos ou começa a acreditar que ninguém compreenderia o que se passa na relação.
Com o tempo, torna-se difícil notar que a rede de apoio sofreu alterações. O distanciamento parece natural, como ocorre com muitas amizades ao longo da vida. No entanto, há diferença entre um convívio que perde contato com algumas pessoas e uma rotina organizada para se ajustar, cada vez mais, aos limites determinados por outra pessoa.
Klinjey chama a atenção para as amizades que desaparecem gradualmente. “Tem outro sinal que quase ninguém pega: os amigos vão sumindo, e parece escolha dela. ‘A gente combina outro dia.’ Quando a mulher se dá conta, não tem mais pra quem ligar e a rede de apoio vai sendo destruída. Amor de verdade aumenta o mundo de quem ama. Se o seu mundo anda encolhendo e você chama isso de fase, cuidado. O abuso já entrou, só não pendurou a placa.”
Uma relação saudável não exige o fim dos conflitos, das inseguranças ou das discordâncias. A presença de alguém, porém, não deveria custar o encolhimento progressivo da própria vida.
O que aprendemos sobre amor
Antes da escolha de um parceiro, cada pessoa já teve contato com diferentes concepções sobre o significado de amar. Essas ideias se manifestam no modo como adultos próximos demonstram afeto, resolvem desentendimentos, estabelecem limites e se relacionam entre si.
Para falar sobre esse aprendizado, o autor recorre à teoria do apego de John Bowlby. “A casa é a primeira escola de amor, e essa alfabetização acontece antes de qualquer palavra.” Segundo ele, o bebê aprende com o cuidador o que esperar do afeto. Quando os cuidados são imprevisíveis, a criança pode crescer compreendendo o amor como algo incerto e, mais adiante, enxergar a tensão como parte normal da intimidade.
Essa influência se materializa em situações bastante concretas. Quem cresce observando alguém pisar em ovos para evitar uma explosão pode aprender a considerar normal antecipar o humor alheio. Quem convive com agressões justificadas em nome de um suposto bem pode ter dificuldade para reconhecer que violência e cuidado não deveriam andar juntas.
Essas referências podem influenciar aquilo que parece familiar dentro de um vínculo, mas não definem o destino de ninguém. Klinjey evita essa conclusão simples ao lembrar que também atendeu mulheres vindas de famílias afetuosas e presentes que, ainda assim, viveram relações abusivas.
“Família boa não é vacina, assim como infância feliz não é escudo. Ninguém fica numa relação dessas por fraqueza. Fica porque foi treinada pra ficar, e corrente invisível prende tanto quanto a de ferro”, afirma.
Em vez de buscar o que haveria de errado com quem permaneceu, é mais produtivo observar quais mecanismos tornaram possível essa permanência. A história familiar pode trazer pistas, mas não responde sozinha por que alguém sofreu violência ou levou tempo para sair.
Quem passou a infância em um ambiente seguro pode achar difícil conceber que alguém que declara amor seja capaz de ferir. O autor nota que essa confiança também pode adiar a identificação do abuso. A infância auxilia na compreensão de algumas referências levadas para os vínculos adultos, mas não garante proteção definitiva contra relações violentas.
Depois do rompimento
Encerrar uma relação abusiva não significa recuperar de imediato tudo o que se perdeu enquanto ela durou. O vínculo pode terminar antes que a confiança em si mesma seja restabelecida.
A culpa costuma aparecer nesse intervalo. Quem observa de fora pode achar difícil compreender por que alguém que conseguiu sair ainda se pergunta o que deveria ter feito diferente. Para quem viveu a situação, a pergunta tende a ser persistente.
“Como eu deixei isso acontecer comigo?” é, de acordo com Klinjey, uma das perguntas mais duras que uma vítima pode fazer a si mesma. Ele relata ter escutado mulheres que sentiam vergonha de terem “caído” em relações abusivas.
Ele nomeia esse processo como reconstrução do “termômetro” pessoal. “A reconstrução começa quando a culpa volta pro remetente. Depois vem o trabalho mais demorado, que é reaprender a confiar no próprio termômetro, aquele que o abusador passou anos sabotando. E um vínculo novo, saudável, só se sustenta em cima dessa reforma. E eu aviso sempre: cura não anda em linha reta. A pessoa avança, recua, tenta de novo. O que ela não pode é devolver a chave da própria vida.”
Talvez por isso reconstruir a vida depois de um vínculo assim tenha pouco a ver com encontrar outra pessoa. Antes de qualquer novo relacionamento, é preciso reconstruir a relação com a própria percepção. Reconhecer o que incomoda, sustentar um limite, discordar sem temer uma punição e entender que uma escolha não depende da aprovação alheia são movimentos que restituem espaço a quem passou muito tempo se adaptando.
O primeiro passo
Perceber que uma relação é abusiva e estar pronto para encerrá-la são situações distintas. Essa distinção importa porque uma orientação que desconsidere o ritmo de cada pessoa pode reduzir uma realidade complexa a uma escolha que parece simples.
Na obra, Klinjey narra a história de Germana, personagem que, após 30 anos de casamento, procurou uma advogada sem iniciar nenhum processo. Ela mesma classificou aquilo como “um plano fraco”. Para o autor, o gesto representava exatamente o oposto: uma porta aberta.
A autonomia pode nascer de atitudes que ainda não alteram a estrutura externa da relação. Conversar sobre o que está acontecendo com alguém de confiança é uma delas. Buscar informação é outra. A partir desses passos, a pessoa passa a construir referências fora daquele vínculo e retoma a capacidade de decidir com mais elementos.
“Antes de tudo vem quebrar o segredo. Contar a história inteira, em voz alta, pra uma pessoa de confiança, porque abuso é um tipo cruel de planta que só cresce no escuro do isolamento. Aí entra a informação, que é autonomia em estado bruto: saber dos próprios direitos, saber que o 180 atende. Guardar documentos também, coisa prática que ninguém lembra. Cada gesto desses devolve um pedaço do controle da vida, mesmo com a relação ainda de pé.”
Nenhum gesto isolado é capaz de solucionar uma relação abusiva. Em contextos de violência, recorrer a apoio e orientação especializada pode ser indispensável, sobretudo quando a pessoa ainda não consegue ou não deseja tomar uma decisão definitiva.
A proposta do livro é voltar o olhar para um intervalo que costuma permanecer oculto entre o começo das concessões e o instante em que a violência se torna inegável. É nessa fase que surgem alterações no jeito de falar, de decidir, de se movimentar, de conservar amizades e até de confiar nos próprios sentimentos.
Germana sintetiza esse deslocamento com outra imagem. “O monstro nunca foi tão grande quanto eu achava. Ele só parecia grande porque eu estava de joelhos.”
Notar que algo não está certo não exige que se tenha todas as respostas naquele momento. Pode ser o início da retomada daquilo que uma relação abusiva costuma subtrair gradualmente: a possibilidade de olhar para a própria vida e reconhecer que ela ainda pertence a quem a vive.







