As conversas comerciais entre o Canadá e os Estados Unidos ruíram no último instante da noite de sexta-feira (21), reacendendo a disputa tarifária, com Ottawa prometendo responder às tarifas de Washington na mesma medida. Embora ambos os lados tenham demonstrado otimismo no começo da semana quanto à possibilidade de fechar um entendimento para evitar a aplicação de tarifas de 50% sobre US$ 20 bilhões em mercadorias canadenses até o prazo da meia-noite, as tratativas não progrediram. O premiê canadense, Mark Carney, declarou que os vizinhos não lograram um acordo que “alcançasse os objetivos”. “Diante disso, decidi interromper as negociações comerciais com os EUA e instruí os negociadores canadenses a voltarem a Ottawa”, afirmou Carney em nota. Em entrevista coletiva no sábado, Carney disse que as alterações de última hora propostas pelos Estados Unidos “foram injustas, antieconômicas e reduziram as vantagens comerciais para o Canadá”. O primeiro-ministro também pôs em dúvida a confiabilidade de um pacto com os americanos. O premiê canadense sustenta que os EUA tentaram restringir os acordos comerciais do Canadá com outras nações. “Eles pediram demais e ofereceram de menos”, completou. Carney prometeu retaliação “dólar por dólar”. As medidas, previstas para entrar em vigor em 8 de setembro, abrangem tarifas sobre aço, laticínios, eletrodomésticos, maquinário agrícola, celulose, papel e eletrônicos, conforme detalhou no sábado. O líder canadense acrescentou que o país nunca renunciará ao “acesso exclusivo” aos seus minerais críticos. Trump e Carney, bem como altos representantes comerciais das duas nações, mantiveram contato direto ao longo da semana, após Trump ter concedido uma prorrogação de três dias às tarifas. No começo da semana, Trump chegou a afirmar: “Fechamos um acordo com o Canadá”. Em seguida, ponderou que o entendimento “ainda depende da finalização dos documentos”. “O Canadá se recusou a concluir o acordo comercial conforme os termos estabelecidos no início da semana”, escreveu o Representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, no X na manhã de sábado. Conforme Greer, o pacto previa “cortes substanciais de tarifas sobre aço, alumínio, automóveis e madeira”, além de “uma parceria histórica do ponto de vista econômico e de segurança nacional”. “A despeito da oferta dos EUA de garantir ao Canadá o melhor tratamento entre os grandes exportadores para o nosso mercado, novas demandas e a desistência de outros compromissos por parte dos canadenses abalaram o frágil equilíbrio construído nos últimos dias”, declarou Greer. Mais tarde, em participação no programa “Fox & Friends”, da Fox News, Greer afirmou que os EUA prosseguiriam com suas próprias contramedidas depois que o Canadá anunciou retaliação às novas tarifas. “Não há novas negociações planejadas com os canadenses. Estamos avançando com medidas em resposta à retaliação”, disse o representante americano, sem oferecer detalhes sobre as contramedidas. A Casa Branca não respondeu ao pedido de comentário da CNN. O novo impasse decorre de uma relação comercial que vem se degradando de forma contínua desde o retorno de Trump ao poder. Trump aplicou tarifas a setores relevantes do Canadá, como automóveis, aço e alumínio, enquanto Ottawa respondeu com medidas próprias. Apesar de Carney ter recuado nas contramedidas mais amplas no ano passado, Trump seguiu incomodado com as restrições ao álcool americano impostas por governos provinciais canadenses. Carney disse que o Canadá propôs revogar as retaliações do ano passado e devolver o álcool americano às prateleiras. As tarifas que passam a valer agora têm alcance relativamente restrito, atingindo cerca de US$ 20 bilhões em produtos importados do Canadá, o equivalente a aproximadamente 5% do total de mercadorias que os EUA compraram do país vizinho no ano passado. É pouco provável que tais medidas tenham um impacto expressivo sobre os consumidores americanos, que já enfrentam preços elevados da gasolina. O ponto central é a retomada da guerra comercial. “As novas tarifas americanas foram desenhadas para nos prejudicar e dividir”, afirmou Carney no sábado. “São um erro de cálculo. São um erro de cálculo porque os canadenses sempre cuidam uns dos outros”. Em nota divulgada na sexta-feira, Carney disse que o Canadá adotaria “medidas adicionais para apoiar os trabalhadores e as empresas canadenses”, além dos quase US$ 25 bilhões já destinados a esse apoio nos últimos 18 meses. O premiê canadense afirmou que a economia do Canadá está “acelerando” e que Ottawa “não permitirá que nenhuma nação determine o futuro” do país.
O que havia sobre a mesa?
Os EUA avaliavam reduzir as tarifas canadenses sobre aço, alumínio e automóveis. Aço e alumínio estavam submetidos a tarifas de 50% e, de acordo com relatos, as autoridades cogitavam cortá-las pela metade. Já os automóveis canadenses pagavam tarifas de 25%, aplicadas somente ao conteúdo não americano, o que permitia às montadoras descontar o valor das peças fabricadas nos EUA da parcela do veículo sujeita à tarifa. A redução da alíquota para 15% chegou a ser discutida. Trump há tempos critica as restrições canadenses que limitam a capacidade de os produtores americanos de laticínios venderem seus produtos no Canadá. O Canadá até permite a entrada de lácteos americanos em seu mercado, mas restringe o volume por meio de cotas. Importações que excedem essas cotas podem sofrer tarifas proibitivas, o que na prática limita vendas adicionais de laticínios dos EUA. No início da semana, Trump destacou que o acordo, ainda não concluído, seria “ótimo para nossos agricultores”. “Nossos agricultores não serão mais prejudicados, pois estavam sendo muito afetados pelas ações do Canadá”, completou.
Lei pouco conhecida
Trump está recorrendo a uma legislação pouco conhecida dos anos 1930, nunca antes utilizada para impor tarifas desse tipo. A medida quase certamente enfrentará desafios na Justiça, como já ocorreu com diversas tentativas do governo de aplicar novas taxas. No entanto, a menos que os tribunais bloqueiem o uso da lei dessa maneira, ela pode dar a Trump um novo e potente instrumento para aplicar tarifas de até 50% ao Canadá. O mecanismo também poderá ser usado contra outros parceiros comerciais sempre que o governo dos EUA identificar uma ameaça ao comércio do país. Ao contrário de outras leis que Trump usou para reconstruir seu vasto regime tarifário depois da decisão da Suprema Corte no começo deste ano, a chamada Seção 338 não parece estabelecer um prazo de validade para as tarifas. Ou seja, as tarifas aplicadas com base nessa lei podem valer por tempo indeterminado, salvo se Trump ou um futuro presidente decidir removê-las. Os produtos canadenses atingidos nesta primeira etapa vão muito além daqueles que estão no cerne das reclamações declaradas por Trump, abrangendo quase 500 itens. Por enquanto, Trump manteve de fora muitos produtos dos quais os EUA dependem fortemente do Canadá, como energia, minerais críticos e pescados, mas esse cenário pode mudar.






