Transformar desejos, reordenar prioridades e alterar a forma como enxergamos a vida não é sinal de fracasso. Mesmo assim, a sociedade espera que, após determinada idade, tenhamos clareza absoluta sobre quem somos — e que continuemos os mesmos.
Existe uma questão que aparenta ser simples, mas não é: quem é você, para além daquilo que faz? Sem cargo, título ou profissão — aquela que você aprendeu a resumir em trinta segundos em uma festa. Muitas pessoas travam diante dela não por ausência de autoconhecimento, mas porque dedicaram anos construindo uma identidade difícil de dissociar do que entregavam, produziam e representavam para quem estava ao redor.
Tamires Vilela, graduada em Direito pela USP, com especialização pela FGV e MBA pelo MIT Sloan, conhece bem esse movimento. Atuou como advogada no Mattos Filho, empreendeu na logística voltada à saúde, trabalhou com filantropia na Fundação Lemann e foi executiva na Arco Educação. No currículo, uma trajetória ascendente. Internamente, porém, houve uma sucessão de momentos em que algo perdia o sentido antes mesmo de ela conseguir identificar o que se passava. Dessa experiência nasceu o livro “Entretempos: o que acontece quando a carreira que deu certo já não faz sentido” (Summus Editorial).
Sua proposta não é oferecer um método para trocar de profissão, mas sim uma forma de compreender por que ficamos tão imóveis diante do que perde o sentido — e por que insistimos em tratar essa imobilidade como algo a ser corrigido, em vez de um alerta a ser ouvido.
Mudar não é falhar
A explicação mais sincera, de acordo com Tamires, reside na própria sociedade em que vivemos.
“Vivemos em uma cultura capitalista cujo padrão é a expansão. Crescer, produzir, acumular. A régua do sucesso está inteiramente ligada a essa lógica. Uma régua que enxerga apenas uma direção consegue medir duas coisas: subiu ou parou. Quem redireciona os próprios desejos na vida adulta e muda de rota fica registrado na coluna do ‘parou’, porque virar para o lado não é um movimento que essa régua alcança. A identidade vai embutida. Quando o que define uma pessoa é a subida, o que ela é termina virando o degrau em que está pisando.”
É nesse contexto que nascem os julgamentos. Quem diminui o ritmo, reavalia o caminho ou deixa para trás uma rota que parecia promissora costuma escutar variações do mesmo veredito: “Estava indo tão bem”. “De repente?” “Para quê?” “É crise de meia-idade.” “É irresponsabilidade.”
Na visão de Tamires, essas observações quase nunca têm a ver apenas com quem está mudando.
“A crítica chega depressa porque quem reduz o ritmo abala a convicção de quem segue no piloto automático. Se somos, ao mesmo tempo, quem exige e quem é exigido, ver alguém abandonar o posto é testemunhar a ruptura de um contrato que nós mesmos celebramos e continuamos honrando sem nunca ter lido.”
A pressão, portanto, não surge apenas externamente. Ela também é introjetada, a ponto de ser complicado diferenciar o que genuinamente desejamos daquilo que fomos condicionados a querer.
O corpo avisa antes
Na semana mais atribulada de seu último cargo como executiva, Tamires quase não conseguia andar. Uma protrusão na lombar, uma agenda implacável e uma sequência de viagens entre estados integravam aquele cotidiano. Ela tomou remédio para a dor e seguiu em frente. Apenas algum tempo depois, com o devido distanciamento do episódio, foi capaz de enxergar o que transportava além do peso físico.
“Não é possível afirmar que a hérnia foi apenas estresse. Havia, certamente, má postura e sedentarismo. Mas, naquela semana, eu carregava pressão por resultados, culpa materna por quase não ver meu filho e outras inquietações familiares. Para mim, o excesso chega da forma que melhor conhece: com peso nas costas.”
O organismo costuma ser o primeiro a sinalizar que algo perdeu o significado. Também é o alerta mais simples de desconsiderar quando a rotina não permite pausas.
Nas mentorias que realiza, Tamires escuta histórias parecidas com frequência. Uma mentoranda que jamais tirava férias disse uma frase que a marcou: “Eu acreditava que não soubesse relaxar, mas, na verdade, sentia medo do que sentiria se parasse”.
O corpo grava os efeitos emocionais das nossas experiências e pode conduzir escolhas antes mesmo que consigamos explicá-las racionalmente. Coração acelerado, estômago travado, ombros que jamais relaxam. Para Tamires, entender essa conexão foi uma maneira de parar de tratar como frescura aquilo que o corpo tentava comunicar.
O cansaço de interpretar o mesmo papel
Em sua obra “Entretempos: o que acontece quando a carreira que deu certo já não faz sentido” (Summus Editorial), Tamires identifica dois estágios em que a distância entre quem somos e o que projetamos se torna cada vez mais insustentável.
O primeiro deles é o burnout de personagem.
“É um esgotamento que está menos relacionado à carga de trabalho e mais ao papel que desempenhamos nele. Eu sei representar um personagem, aprendi cedo e fui recompensada cedo demais por isso. A boa aluna, a filha responsável, a executiva que resolve tudo. Nenhuma dessas versões era falsa. Todas eram partes reais de mim, ampliadas para caber em um palco. O problema surge quando esquecemos que é possível descer do palco e quando o aplauso do personagem se torna quase oxigênio. Por fora, você segue em cartaz, mas, por dentro, algo vai murchando.”
O segundo é o que ela denomina high school corporativo: o instante em que notamos que toda organização opera como uma miniatura de escola americana, com quadro de honra, rainha do baile e atletas populares. E há outras escolas, com outras normas, dinâmicas e perfis. O que parecia identidade, então, pode ser somente um uniforme — e uniforme se remove.
Existe um termo em inglês, sem correspondência exata em português, que Tamires utiliza para traduzir essa sensação: outgrow, algo como “tornar-se grande demais para”. O ambiente segue existindo e operando, mas já não acomoda tudo aquilo em que você se transformou. É desse descompasso que surge o que ela descreve como uma vontade quase corporal de recomeçar.
O entretempo entre um ciclo e outro
A saída de um ciclo nem sempre é dramática. Com frequência, começa com um movimento interno, uma percepção que se manifesta meses antes de qualquer decisão prática.
A questão é que, ao notar que não desejamos mais algo, avançamos rapidamente para a pergunta seguinte: então, o que eu quero? Essa resposta raramente surge na hora. Antes dela, outras questões precisam emergir.
“Essa indagação é a definição exata do que chamo de entretempos: o vazio entre o encerramento de um ciclo e o início de outro, quando sabemos profundamente o que não queremos mais, mas ainda não conseguimos eleger o que desejamos viver. Minha provocação é que, normalmente, quando a pessoa descobre o que não quer, ela se apressa em perguntar: ‘Então, o que eu quero?’. E essa resposta não vem assim, de primeira. Ela exige perguntas anteriores.”
No livro, a autora estrutura esse percurso em quatro atos, que nem sempre seguem uma ordem, mas geralmente se mostram essenciais:
- Deixar morrer: reconhecer que um ciclo se encerrou, ainda que continue funcionando externamente.
- Mergulhar em si: habitar o vazio sem pressa de preenchê-lo com uma nova ocupação ou um novo rótulo.
- Traçar a travessia: responder às perguntas concretas — quanto tenho guardado? Qual é meu custo de vida real? Quanto tempo esse dinheiro me garante? — e realizar pequenos testes: um café com alguém que já vive aquilo, uma hora dedicada ao estudo do tema, um e-mail. Sem abrir mão de nada, sem anunciar nada. Qual é o menor passo possível?
- Abrir as portas: acolher a ambiguidade como parte do caminho enquanto uma nova vida se desenha.
A travessia, portanto, não é somente um exercício de autoconhecimento sem prazo definido. Também envolve uma dimensão prática. Sem considerar o dinheiro, qualquer plano pode se transformar em fantasia. Quando os números entram na equação, o vazio deixa de ser amorfo e passa a ter limites.
Identidade não é certeza
Uma das teses centrais de Tamires conversa diretamente com a pesquisadora Herminia Ibarra, especialista em transições de identidade profissional. Ibarra demonstra que a identidade não é algo estático, descoberto uma vez e mantido eternamente. Ela é múltipla, experimental e mutável. Carregamos “eus possíveis” que disputam espaço continuamente.
No burnout de personagem, um desses eus assume o comando e os demais são silenciados. Eles não desaparecem. Aguardam a vez.
A reinvenção, desse modo, não apaga o passado. Ela o incorpora. Tamires cita como exemplo médicos que migraram para cargos executivos, lideranças de organizações sociais, produtores de conteúdo ou escritores.
“Esse profissional aprendeu a lidar com pessoas, a ler artigos científicos complexos, a atuar sob pressão, a interpretar dados. Desenvolveu tantas competências transferíveis que tudo se torna uma questão de aplicar e praticar em outro cenário. Só conseguimos concretizar aquilo que somos capazes de imaginar como viável, e um entretempo é exatamente o período de voltar a sonhar.”
Descobrir o que levar consigo e o que abandonar nessa travessia pode ser mais simples do que se imagina. Uma pergunta auxilia: nesse ambiente, nessa relação ou nesse projeto, eu me encaixo ou eu pertenço?
Essa diferenciação é da pesquisadora Brené Brown, com base nos conceitos de fitting in e belonging.
“Encaixar-se é observar o ambiente, decifrar as normas e se ajustar para conquistar aceitação. Pertencer é ser recebido exatamente como você é. Quase todas as pessoas já conhecem a resposta antes mesmo de ouvir a pergunta completa.”
Quem você está se tornando?
A trajetória de Tamires evidencia, mais do que qualquer método, que a reinvenção não é um acontecimento pontual. Trata-se de um processo permanente, que acompanha a vida adulta e exige reconhecer quando a métrica utilizada para avaliar o que importa já não nos pertence.
“Quando essas dimensões da vida deixam de combinar com quem somos, surge um belo convite para mergulhar em nossa essência e naquilo que estamos nos tornando. O que é relevante para mim hoje é ganhar dinheiro? É aprender? É ter tempo de qualidade com amigos, filhos e pais? É cuidar do corpo? Esses instantes em que não nos reconhecemos são oportunidades para repensar quais áreas da vida desejamos priorizar no momento e por qual razão. Lembrando que nenhuma escolha precisa ser definitiva. Vale para aquele período. E assim vamos atravessando diferentes tempos e entretempos ao longo da existência.”
A questão não é renunciar a quem somos, mas compreender que nunca fomos uma versão imutável de nós mesmos. A identidade se edifica, desfaz-se parcialmente e se reorganiza de novas maneiras.
A pergunta essencial, portanto, não é “quem sou eu?”, mas “quem estou me tornando — e o espaço em que estou ainda é capaz de acolher essa transformação?”







