Durante muito tempo, bastava uma legging, um blazer e um tênis para definir a revolução do athleisure. O conceito era claro: desenvolver roupas esportivas capazes de acompanhar uma rotina que não se encerrava na academia.
Agora, essa lógica foi transformada. Mais do que circular entre diferentes ambientes, as peças esportivas passaram a incorporar soluções tecnológicas voltadas ao corpo, ao desempenho e também à pele.
Essa mudança ajuda a entender por que o esporte conquistou um lugar estratégico na moda de luxo. Conforme o relatório do World Economic Forum, realizado em parceria com a consultoria Oliver Wyman, a economia global do esporte movimentou US$ 2,3 trilhões em 2025 e deve alcançar US$ 3,7 trilhões até 2030.
O avanço fez o setor deixar de ser enxergado apenas como referência estética. Grandes casas de moda passaram a investir em coleções orientadas à performance, enquanto marcas esportivas ampliaram sua atuação para além do vestuário.
A Dior, por exemplo, vem se aproximando do universo esportivo com cápsulas inspiradas no golfe e parcerias com personalidades como o piloto Lewis Hamilton. A Burberry, por sua vez, lançou sua primeira linha oficialmente dedicada à prática esportiva.
Já a C&A apresentou a Ace, nova marca de athleisure que investe em tecidos com regulação térmica e peças inspiradas no chamado “social sports”, conceito que une movimento e convivência social.
Para Moa Gijsen, diretora criativa, pesquisadora de tendências e fundadora da escola Creative Matrix, o sportswear se consolidou como um dos grandes símbolos da cultura contemporânea por combinar autenticidade e performance.
Essa aproximação também se manifesta na relação entre esporte, celebridades e moda. A On Running, que registrou crescimento de 26,4% no primeiro trimestre de 2026 e atingiu sua maior margem bruta da história, passou a associar nomes como Zendaya, Roger Federer e João Fonseca a uma ideia de comunidade e desejo que vai além do produto em si.
Quando a roupa passa a cuidar do corpo
A nova etapa do athleisure não se limita à estética. A tecnologia começou a integrar a própria estrutura das peças.
A Nike lançou neste ano a Nike Mind, uma linha de calçados desenvolvida com base na neurociência. Os modelos foram criados para estimular, por meio das plantas dos pés, os receptores sensoriais e preparar o estado mental do atleta antes da atividade física.
Na moda, a inovação também chegou aos tecidos. Em 2025, a Coperni apresentou a C+ Carewear, produzida com uma fibra que contém probióticos. Em contato com a fricção e o calor do corpo, a proposta é transferir os ativos para a pele e reforçar a barreira cutânea.
A brasileira Insider segue uma linha parecida com a coleção InSculpt, que combina bioativos do café e minerais incorporados aos fios. De acordo com a proposta da marca, os componentes podem estimular a microcirculação e a oxigenação, favorecendo a textura e a firmeza da pele.
E a integração entre roupa e tecnologia pode avançar ainda mais. Pesquisadores do MIT apresentaram, no ano passado, um computador em formato de chip capaz de ser costurado diretamente nas roupas, incorporando sensores, memória digital e Bluetooth ao tecido.
Do esporte para estilos de vida específicos
Com tantas possibilidades, o futuro do sportswear também envolve roupas desenvolvidas para demandas cada vez mais específicas.
A Bad Running aposta no universo da corrida sem seguir a rigidez tradicional ligada ao esporte. A ideia é enxergar o corredor não apenas como atleta, mas como alguém que também tem vida social, repertório e interesses que vão além da prática esportiva.
No tênis, a Slyce trabalha com peças voltadas às exigências particulares da modalidade, combinando elasticidade, respirabilidade, secagem rápida e tecidos antibacterianos.
Segundo o head de produto da marca, Alison Davanzo, não existe uma tecnologia universal. As soluções precisam ser criadas de acordo com a finalidade de cada peça e com os movimentos específicos de quem vai usá-la.
É justamente nessa combinação entre necessidade e tecnologia que o athleisure parece encontrar sua próxima fase. Antes, a pergunta era se uma roupa esportiva poderia encontrar a vida fora da academia. Hoje, o desafio já é outro: o que mais uma roupa pode fazer pelo corpo além de vesti-lo?






