Os adjetivos empregados para qualificar a música são infinitos. Há o risco de nos perdemos entre eles e, assim também, criarmos indefinições sobre o sentido e o significado da música. Assim, convido o leitor a embarcar num breve passeio que tem a pretensão de nos aproximar do universo musical via a doçura que a música pode expressar bem como outras qualidades de sabores e engajamentos. Dando partida a esse passeio, informo que o título trazido para este breve artigo, tem uma dupla função: uma homenagem e uma reflexão.
Quanto à homenagem, ela vai para o célebre Mário de Andrade, autor da obra Música, doce música. Quanto à reflexão, impossível não nos aproximar da função social da música tal qual Mário de Andrade propõe.
Poderíamos dizer que Mário de Andrade foi um escritor, poeta, musicólogo, principal mentor do modernismo brasileiro dentre tantas outras pluralidades desse ser inquieto que delinearam as incontáveis atividades por ele exercidas. Como grande agitador cultural, atuou principalmente na cidade de São Paulo e teve seu nome associado à Semana de Arte Moderna, momento importante de questionamento da arte brasileira no sentido de mudanças técnicas e estéticas em prol de mudanças técnicas e estéticas. Dizia-se ser trezentos … trezentos e cinquenta como em seu poema Eu sou trezentos.
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pireneus! ôh caiçaras!
Se um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!
Percebendo-se trezentos ou trezentos e cinquenta, Mário de Andrade projeta essa multiplicidade para o entendimento da música em sua obra. Música, doce música é uma coletânea de artigos, conferências e críticas musicais do autor lançado em 1933.Posteriormente, passou a fazer parte de suas Obras Completas como sétimo volume.
Importante pontuar que o título dessa obra não significa uma verdade para o autor, mas sendo, antes de tudo, uma provocação. Mário de Andrade se contrapõe à visão do artista como aquele que não está no reino da razão, desconectado da realidade, ou aquele que vive a Arte pela Arte. Se o artista nada tem a dizer de prático, de técnico ou da vida material, essa arte estaria localizada no campo da perfumaria, como bem disse a arte-educadora Rita von Hunty. Torna-se fundamental dizer o quanto as esferas de poder se utilizam dessa efemeridade atribuída à arte pois a sua capacidade visceral de dizer coisas coloca o artista inserido na realidade de forma crítica e reflexiva, com imensa capacidade de influenciar e modificar formas de pensar.
Desse modo, Mário de Andrade oferece um título leve e despretensioso para atrair o leitor para reflexões sérias e engajadas sobre as problemáticas sociais via a música. Ainda que a doçura, bem como o amargor, a acidez e tantos outros sabores e saberes, possam estar presentes na composição musical. A concepção de ser a música um fato social, expressão cunhada pelo semiólogo Molino em 1975, coincide profundamente com o pensamento Andradiano, ainda que post factum.
Sim, a música é um fato social que traz as doçuras e todos os sabores da vida. Origina-se nos saberes da vida social do artista, que é voz dos grupos sociais aos quais pertence (família, escola, religião, time de futebol etc.) e de suas experiências de vida. E assim, o pensamento engajado, crítico e reflexivo é a tônica do artista e de sua obra. Não podemos nos esquecer dessa verdade existencial da arte, mais propriamente da música.







