Chefe da representação ucraniana no Brasil destacou trajetória de Patrushev ligada à KGB e falou sobre Lula, Embraer, Brics e reconstrução do país
A Ucrânia expressou “preocupação” em relação à visita ao Brasil de Nikolai Patrushev, assessor do presidente russo Vladimir Putin, e observa com cautela as conversações realizadas durante a estadia do representante de Moscou referente à defesa, construção naval e energia nuclear.
A análise foi feita pelo encarregado de Negócios da Embaixada da Ucrânia no Brasil, Oleg Vlasenko, que atualmente lidera a representação diplomática ucraniana no país, enquanto a vaga de embaixador permanece aberta.
Ao justificar a inquietação, o diplomata ressaltou a trajetória de Patrushev nos serviços de segurança da União Soviética e da Rússia, incluindo sua conexão com a KGB e, posteriormente, com o Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB), que sucedeu parte das atribuições da antiga agência soviética.
“Nikolai Patrushev não é um negociador comum. Ele integrou o Serviço Federal de Segurança por décadas. Como se sabe, apresenta-se como a nova versão do KGB. Dizer que alguém que trabalhou para o KGB não continua atuando é ilusório. Se uma pessoa entra, o KGB permanece como agente para toda a vida”, declarou Vlasenko.
Patrushev é também o patriarca de uma das famílias mais proeminentes da elite política russa. Seu filho, Dmitry Patrushev, ocupa a função de vice-primeiro-ministro e é considerado por analistas como um dos potenciais nomes para suceder Putin, embora o presidente russo não tenha oficialmente indicado um sucessor.
O diplomata destacou que Patrushev enfrenta sanções de Estados Unidos e União Europeia e afirmou que o russo está “diretamente associado às políticas que promovem a agressão do regime russo” contra a Ucrânia.
No entanto, Vlasenko admitiu que o Brasil tem autonomia para manter canais de comunicação com Moscou, mas criticou a recepção dada ao assessor de Putin.
“Certamente, o Brasil possui o direito soberano de estabelecer canais de diálogo, mesmo com figuras controversas. Entretanto, uma recepção em alto nível e discussões sobre defesa, construção naval e energia nuclear levantam preocupações”, comentou.
Além da reunião não oficial com Lula, Patrushev se encontrou com o chefe da Assessoria Especial da Presidência, embaixador Celso Amorim; o ministro da Defesa, José Múcio; o comandante da Marinha, almirante Marcos Olsen; a secretária-geral das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha; e o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Rodrigo Zerbone Loureiro.
Diálogo com Lula e falta de resultados concretos
Vlasenko afirmou que o encontro entre Lula e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, durante a reunião do G7 em junho, trouxe “um novo impulso” ao diálogo entre ambas as nações.
Segundo ele, os dois líderes concordaram que o Brasil atuaria de forma diplomática, inclusive através de contatos com os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
O diplomata assinalou, entretanto, que a Ucrânia ainda espera resultados mais palpáveis dessa abordagem.
“Não temos retorno algum sobre o regime de Moscou”, afirmou. Vlasenko ainda destacou que, segundo a avaliação ucraniana, a Rússia aumentou os bombardeios contra o país desde então.
“É nosso desejo obter resultados mais evidentes e concretos dessa interlocução”, enfatizou.
Indagado se o governo brasileiro havia comunicado à Ucrânia sobre a conversa telefônica entre Lula e Putin durante a visita de Patrushev, Vlasenko disse que não comenta comunicações diplomáticas reservadas.
Em uma publicação em uma plataforma social, Lula mencionou que a conversa com Putin abordou a ampliação da cooperação em energia, ciência e tecnologia, a área naval, o comércio bilateral, a guerra no Leste Europeu, o papel da ONU e do Brics, além da candidatura de Michelle Bachelet à Secretaria-Geral das Nações Unidas.
Vlasenko mencionou, ademais, um contato telefônico recente entre os chanceleres dos dois países, no qual a Ucrânia tratou dos ataques russos a navios civis no Mar Negro, seus efeitos sobre a liberdade de navegação e os riscos para a segurança alimentar global.
Ao avaliar o papel que Lula pode ter nas negociações da guerra, Vlasenko considerou valioso que o presidente brasileiro tenha acesso direto a Putin, mas ressaltou que a efetividade desse canal dependerá de resultados concretos. Entre os sinais desejados estão a aceitação de uma trégua, a cessação de ataques a alvos civis, o retorno de crianças ucranianas levadas à Rússia e a libertação de prisioneiros.
“É útil que o presidente Lula tenha acesso direto a Putin. Porém, a ausência do líder russo nas negociações de Istambul, em maio de 2025, evidenciou os limites desse canal”, alertou.
Na ocasião, nem Putin nem Zelensky participaram diretamente das conversações em Istambul. O presidente ucraniano havia viajado à Turquia, condicionando sua participação a um encontro pessoal com Putin, mas optou por não ir às negociações quando Moscou confirmou a ausência do líder russo. A Rússia enviou uma delegação chefiada pelo assessor Vladimir Medinsky, enquanto a Ucrânia foi representada por uma equipe liderada pelo então ministro da Defesa, Rustem Umerov.
As conversas, que foram as primeiras negociações diretas entre os dois países em mais de três anos, tiveram duração inferior a duas horas e terminaram sem qualquer acordo sobre uma trégua. Contudo, as partes concordaram com a troca de 1.000 prisioneiros de guerra de cada lado e decidiram continuar as discussões.
O Brasil tentou intervir antes do encontro, com uma ligação de Lula a Putin na véspera das negociações, defendendo que o líder russo viajasse à Turquia para um encontro pessoal com Zelensky.
Zelensky mantém o convite para que Lula visite a Ucrânia, e o ministro das Relações Exteriores ucraniano também convidou o chanceler Mauro Vieira. Segundo Vlasenko, no entanto, Brasília ainda não confirmou publicamente uma data para qualquer uma das visitas.
“Uma visita a Kyiv abriria espaço para decisões concretas sobre paz, comércio, investimentos e reconstrução de nosso país. A Ucrânia está preparada para receber ambos na data que for mais conveniente para a parte brasileira”, afirmou.
Indagado sobre a possibilidade do Brics influenciar Moscou, Vlasenko revelou ceticismo. A seu ver, os membros do grupo possuem posicionamentos muito distintos e não existe um mecanismo que permita produzir uma decisão conjunta sobre a guerra.
“Se nem na ONU conseguimos chegar a uma decisão concreta entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, discutir o papel do Brics não traz muitas perspectivas”, destacou.
O lado ucraniano salienta que o Brics não possui um mecanismo formal para chegar a uma posição coletiva sobre o conflito e, por isso, Kyiv vê mais oportunidade de atuação nas relações bilaterais entre Brasil e Rússia.
Peças brasileiras para drones
A visita de Patrushev ocorreu em um contexto mais amplo de Moscou visando expandir a cooperação com países do Brics na área de drones.
Conforme informações divulgadas pela agência estatal russa Tass e mencionadas em uma reunião ministerial do bloco, a Rússia apresentou uma proposta de colaboração em sistemas aéreos não tripulados de uso civil, prevendo desenvolvimento conjunto e compartilhamento de tecnologia em áreas como agricultura, logística, mapeamento e inspeção de infraestrutura.
A proposta é de particular interesse, pois muitos componentes utilizados em drones civis também podem ser aplicados no setor militar. Motores, controladores eletrônicos, sistemas de navegação, baterias, câmeras e estruturas de fibra de carbono, por exemplo, podem ser utilizados em equipamentos comerciais e em aeronaves de combate. A intersecção entre esses mercados tornou as cadeias de fornecimento de drones um dos aspectos mais sensíveis das sanções impostas à Rússia desde o início do conflito.
Indagado sobre um possível interesse russo em integrar produtos ou empresas brasileiras à cadeia de suprimentos militar, Vlasenko afirmou que, até o momento, não existem evidências que possibilitem a acusação de uma empresa brasileira específica de fornecer componentes para drones russos.
“Até agora, não há evidência que permita acusar uma companhia brasileira específica de fornecer peças para os drones russos”, observou.
A Ucrânia monitora de forma sistemática os destroços de equipamentos usados nos ataques e acompanha rotas de reexportação e cadeias de produtos de uso dual, que podem ter tanto finalidades civis quanto militares.
Entretanto, o diplomata alertou que as informações sobre um possível interesse de Moscou no mercado brasileiro devem ser acompanhadas.
“Nosso país verifica regularmente os destroços de drones e suas emissões, e compreende que Moscou frequentemente adquire componentes estratégicos intermediários. A reexportação ou utilização de produtos de uso dual é uma preocupação. Portanto, as informações sobre um possível interesse russo devem ser investigadas, ainda que o interesse não seja prova de fornecimento”, ponderou.
A inquietação da Ucrânia em relação às cadeias de produção russas também abrange o complexo industrial de Alabuga, no Tartaristão, onde são fabricados drones utilizados pela Rússia no conflito.
Esse complexo se destaca como um dos centros significativos da produção dos drones Geran, versão russa dos Shahed de origem iraniana, que são empregados em ataques contra a Ucrânia.
Vlasenko observou que existem evidências disponíveis publicamente, acessíveis no próprio site do programa Alabuga Start, de que pelo menos uma empresa brasileira participa do local. Segundo ele, mais de 90% dos integrantes do programa atuam no setor de fabricação de drones.
O diplomata adicionou que a Embaixada da Ucrânia formalmente apresentou a questão às autoridades federais e locais no Paraná em setembro de 2025. Na comunicação, a representação ucraniana também destacou a divulgação do Alabuga Start pelo cônsul honorário da Rússia em Curitiba, além de páginas e influenciadores brasileiros que o mencionaram.
Ucrânia já conversa com empresas brasileiras
No âmbito econômico, Vlasenko declarou que a Ucrânia já mantém conversas preliminares com empresas brasileiras interessadas em oportunidades ligadas à reconstrução do país.
“A Ucrânia anseia por transformar sua parceria estratégica com o Brasil em uma agenda prática de soluções digitais, habitação, geração de energia descentralizada através de enfoques locais, como, por exemplo, logística e agroindústria. Outro tema muito importante para nós é a desminagem e tecnologias de reconstrução”, afirmou.
Na visão de Vlasenko, a proposta também se alinha à estratégia brasileira de diversificar seus parceiros comerciais.
Kyiv ainda busca reativar a Comissão Intergovernamental de Cooperação Econômica e Comercial entre os dois países e estabelecer uma carteira conjunta de projetos.
O diplomata também mencionou que a Ucrânia já havia manifestado interesse no A-29 Super Tucano, fabricado pela Embraer, mesmo antes da invasão russa em larga escala. No entanto, o desenrolar do conflito trouxe uma nova possibilidade de utilização para a aeronave.
“A invasão e a campanha russa de terror contra nossas cidades e civis ucranianos criaram uma nova função para o A-29. A aeronave é muito útil para a defesa contra drones”, comentou.
A declaração ocorre em um momento no qual a própria Embraer busca ampliar o uso do Super Tucano em missões contra aeronaves não tripuladas. Em novembro de 2025, a fabricante brasileira anunciou novas capacidades para que o A-29 possa localizar, acompanhar e abater drones, atendendo à demanda de países europeus que buscam alternativas mais econômicas em relação a caças e mísseis tradicionalmente utilizados na defesa aérea.
A estratégia ganhou impulso na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), especialmente em razão de episódios de incursões de drones russos no espaço aéreo de nações-membros da aliança militar no Leste Europeu, como Polônia e Letônia. Os dois países avaliam o Super Tucano para missões de proteção contra drones, enquanto Portugal se tornou o primeiro operador da versão A-29N, adaptada aos padrões da Otan.
Dado que os drones podem custar apenas uma fração do valor dos mísseis usados para abatê-los, as forças armadas europeias começaram a buscar opções mais acessíveis para enfrentar alvos lentos e de baixa altitude.
Neste contexto, a Embraer busca posicionar o Super Tucano como uma camada complementar da defesa aérea, tendo menor sofisticação em relação a caças de última geração, mas apresentando custos operacionais mais reduzidos em operações contra drones.







