Por muito tempo, o ato de beber estava inserido no cotidiano da vida adulta. Os encontros com amigos normalmente eram acompanhados por cervejas, os aniversários pediam brindes, o happy hour se prolongava após o expediente e as festas frequentemente se estendiam pela noite. Em vários contextos, recusar uma bebida significava se distanciar de um código social bastante consolidado.
Este padrão começa a perder sua força. O aumento da popularidade das cervejas sem álcool e o surgimento de novas modalidades de celebração indicam uma relação menos automática com as bebidas. Isso não implica, necessariamente, em deixar de consumir, mas sim em optar por quando, quanto e por qual razão beber. Simultaneamente, surge uma nova forma de lazer que concilia prazer, convivência e bem-estar sem tornar o excesso uma condição para se divertir.
A consultora em tendências e comportamento, Sabina Deweik, observa essa transformação e destaca uma alteração na forma de fazer escolhas. Para ela, a cerveja sem álcool passou de um símbolo de restrição para uma opção entre diversas possibilidades.
“Durante muito tempo, a cerveja sem álcool era vista como uma limitação: o produto destinado àqueles que não podiam beber. Atualmente, começa a ser encarada como uma escolha. O consumidor moderno não pretende necessariamente abrir mão da cerveja, do sabor, do ritual de brindar ou da experiência de estar com outras pessoas. Ele deseja ter a liberdade de modular essa experiência: beber em algumas ocasiões e não em outras; alternar entre bebidas alcoólicas e não alcoólicas; manter a disposição, o sono, a produtividade ou a clareza mental.”
Essa transição do consumo automático para escolhas mais conscientes também pode ser observada em outras formas de entretenimento. Gradualmente, práticas antes consideradas incompatíveis com a diversão começam a coexistir com festas, bares e happy hours.
Novos jeitos de estar junto
Durante décadas, recusar uma bebida era, em certos círculos, quase como rejeitar o grupo. O álcool funcionava, conforme palavras de Sabina, como uma tecnologia social que ajudava a romper inibições, celebrar ocasiões e sinalizar pertencimento. Aceitar uma rodada era uma forma de se integrar.
O que está mudando é essa associação. Não a necessidade de celebrar, encontrar pessoas ou brindar, mas a ideia de que o álcool precisa ser o centro dessas experiências.
“As novas gerações não estão necessariamente rejeitando a celebração. Estão dissociando a festa da embriaguez. Desejam dançar, encontrar pessoas, namorar, brindar e participar, mas sem que a bebida seja uma obrigatoriedade ou a única forma de se sentir à vontade. Essa transformação cultural é significativa: está emergindo um pertencimento que não depende da intoxicação.”
Isso se manifesta em formatos de entretenimento que eram menos comuns há alguns anos. As morning parties, que começam de manhã e se encerram antes do almoço, estão crescendo junto com o conceito de soft clubbing, que mantém música, dança e encontros, mas reduz a centralidade do álcool e da madrugada. O coffee clubbing segue uma lógica similar. Corridas coletivas seguidas de café também se tornam rituais sociais, ocupando um espaço que antes era reservado ao happy hour.
Atualmente, eventos sem álcool já não são organizados apenas para pessoas abstêmias. Muitos participantes consomem em outras ocasiões, mas buscam experiências em que o álcool não desempenhe um papel central.
O preço do excesso
Seria fácil simplificar essa questão a uma geração que bebe menos, mas Sabina ressalta outro aspecto da transformação. Mais do que o ato de consumir, está em jogo a relação estabelecida com a bebida.
“Essa geração parece menos disposta a aceitar o pacote completo que tradicionalmente acompanha a bebida: a perda de controle, a ressaca, o comprometimento do dia seguinte, os altos gastos e a pressão para beber como uma condição de aceitação. Os valores que estão emergindo incluem clareza, saúde mental, qualidade do sono, presença, autocontrole e intencionalidade. Isso não significa que os jovens desistiram de buscar prazer ou diversão. Eles parecem estar questionando por que a diversão teria que vir acompanhada de autossabotagem.”
Essa relação mais seletiva com a intensidade também se reflete em outras áreas da vida, como redes sociais, trabalho e alimentação. Ao invés de abandonar completamente aquilo que gostam, muitas pessoas parecem buscar maneiras de consumir e se divertir sem ultrapassar limites.
O autocuidado também assume uma nova forma. Em vez de surgir apenas após excessos, como no descanso após uma semana intensa ou na tentativa de compensar uma noite de abusos, ele começa a influenciar decisões anteriores. O que importa não é somente o prazer imediato, mas também como cada escolha impactará o dia seguinte.
O novo lugar da cerveja sem álcool
Para acompanhar essa mudança, as bebidas também precisaram se adaptar. A cerveja sem álcool que existia há anos era, no máximo, uma concessão. Algo que era escolhido quando não havia outra opção. Seu sabor frequentemente a tornava mais evitada do que desejada.
“O consumidor já não aceita uma bebida sem álcool apenas porque é mais saudável. Ele busca sabor, experiência, sofisticação, marca e ritual. Quando um produto deixa de ser adquirido apenas por restrição e passa a ser escolhido por desejo, ele muda de patamar cultural.”
A Spaten Pro exemplifica essa mudança. Ao adicionar proteínas à fórmula, a Ambev se conecta com um consumidor que busca diferentes dimensões de bem-estar e procura realizar escolhas que respeitem sua rotina. A bebida não é mais vista apenas como uma alternativa para quem não quer álcool, mas como um produto que pode ser escolhido por diversos motivos.
Sabina enxerga nesse deslocamento, de um produto de nicho para um item desejado, uma indicação de que essa mudança pode ser mais perene do que uma mera moda passageira.
“Movimentos como Dry January, sober curious, mindful drinking ou soft clubbing são expressões de uma mudança maior: a busca por um prazer que não resulte em um custo tão elevado no dia seguinte. A estética e os nomes dessa tendência podem mudar. O que permanece é a pergunta que a originou.”
Pertencer de outro jeito
É viável beber menos, fazer pausas, optar por produtos sem álcool ou simplesmente decidir de acordo com a ocasião, sem que essa escolha precise ser justificada.
“Essa flexibilidade ajuda a eliminar o estigma. A pergunta não é mais ‘por que você não está bebendo?’; agora é apenas ‘o que você gostaria de beber?’. É uma mudança sutil, mas que representa uma ampliação da liberdade social.”
O que Sabina descreve é uma alteração na maneira como se participa das experiências coletivas. O consumidor quer escolher como interagir nelas, ao invés de simplesmente seguir comportamentos adquiridos. Não é necessário optar entre prazer e bem-estar, ou entre socialização e autocuidado. Ambas as dimensões podem coexistir.






