O Trono Desocupado A crise da autoridade paterna e o vácuo que a internet aprendeu a preencher

Um pai está na porta de casa. O filho de dezessete anos pede pra ir a uma festa que só termina de madrugada, num lugar que o pai nunca ouviu falar, com gente que o pai nunca conheceu. Há uma pausa. E então vem a frase que esse pai acredita ser prova de confiança: “Faz o que você achar melhor.” O filho sai. O pai fecha a porta com a sensação confortável de ter sido moderno. O que ele não percebe é que acabou de recusar um trabalho que era seu, e entregar ao próprio filho de dezessete anos a tarefa de ser, sozinho, a autoridade que ainda não tinha estrutura interna para exercer.

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Essa cena se repete, em variações, em milhares de casas. E revela uma ideia sedutora que atravessa esta geração de pais: que virar amigo do filho é evolução. Que a autoridade rígida de antigamente, aquele que batia na mesa e cuja palavra era lei, finalmente foi superada por algo mais horizontal, mais humano. O problema é que ninguém avisou a essa geração que autoridade e afeto nunca foram opostos. E que, ao esvaziar essa cadeira, achando que estava libertando o filho, muitos pais só deixaram um lugar vago. Lugares vagos, como toda casa sabe, não ficam vagos por muito tempo.

O Rapaz Que Não Sabia Onde Estava o Pai

“Bruno” tinha vinte e dois anos quando chegou ao consultório. O motivo declarado era ansiedade social: travava em situações simples, entrevistas de emprego, conversas com mulheres, encontros informais com colegas. Em poucas sessões, um padrão específico emergiu. Bruno não tinha medo de errar. Ele tinha medo de não saber a régua.

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O pai de Bruno era, nas palavras dele, “supertranquilo”. Nunca brigaram. Nunca houve um “não” que doesse de verdade. Quando Bruno, aos dezesseis anos, faltava à escola repetidamente, o pai dizia que confiava nele, que ele já era “praticamente um homem” e que saberia se cuidar. A frase soava como respeito. Na prática, era ausência disfarçada de confiança.

Numa das sessões, Bruno resumiu o que sentia numa frase que organizou todo o tratamento: “Doutor, meu pai nunca me bateu, nunca gritou comigo. Só que ele também nunca me segurou. Eu cresci sem saber onde é que eu ia bater quando eu errasse.”

Bruno cresceu sem nunca ter sentido o peso de um limite que não se negocia. E, ironicamente, foi exatamente esse peso que ele passou a procurar, sem saber, em outro lugar. Encontrou em vídeos de influenciadores de autoajuda masculina que prometiam ensinar, com a segurança que faltava em casa, “como ser homem de verdade”. Regras claras, hierarquias explícitas, um roteiro pronto de dominância. Bruno não seguia aquilo porque acreditava piamente. Seguia porque, pela primeira vez, alguém estava dizendo “é assim que se faz” com a firmeza que ele nunca tinha ouvido do próprio pai.

O Trono Não Fica Vazio

Jacques Lacan, ao formular o conceito de função paterna simbólica, o Nome-do-Pai, fez uma distinção que continua sendo mal compreendida fora dos consultórios: essa função nunca foi sobre a presença física ou a personalidade de um homem específico. É sobre a introdução da lei, do limite, do terceiro elemento que interrompe a fusão entre mãe e filho e autoriza o filho a existir como sujeito separado, com desejo próprio. Um pai pode estar fisicamente ausente e ainda assim exercer essa função, através da palavra da mãe, de um padrasto, de um avô. E um pai pode estar em casa todos os dias e nunca exercer função nenhuma, porque abdicou do papel de introduzir limite.

Vale dizer, para que este texto não seja lido como assunto exclusivo de pai e filho homem: a função estruturante do limite paterno atravessa filhas do mesmo jeito. A ansiedade social de Bruno tem irmãs clínicas com o mesmo desenho em consultórios femininos, só que a busca por régua raramente vai parar na manosfera. Vai parar em outros lugares, igualmente ávidos por vender certeza a quem cresceu sem nenhuma.

O que a psicanálise chama de função paterna, a psicologia do desenvolvimento vinha descrevendo de outro ângulo há décadas: a criança e o adolescente precisam de figuras de autoridade que ofereçam estrutura previsível, não apenas afeto disponível. Diana Baumrind, em sua taxonomia clássica dos estilos parentais (1971), já mostrava que o estilo permissivo, caloroso mas sem exigência de limites, produz jovens com pior autorregulação emocional do que o estilo autoritativo, que combina afeto alto com exigência clara. Calor sem estrutura não é o oposto da rigidez. É outra forma de abandono.

No Brasil, esse quadro tem um sotaque próprio. A psicóloga Daniela Centenaro Levandowski, que pesquisa envolvimento paterno em famílias brasileiras, descreve uma geração de pais que reagiu à rigidez que sofreram na própria infância indo para o extremo oposto, sem nunca ter aprendido um meio-termo. O pai brasileiro de hoje, muitas vezes, não abdicou da autoridade porque leu Baumrind. Abdicou porque jurou, quando criança, que jamais seria como o próprio pai, e ninguém lhe ensinou que existe uma diferença entre não ser um tirano e não ser autoridade nenhuma.

Não é a primeira vez que esta coluna toca nesse território. Quando escrevi sobre a Síndrome de Peter Pan Reversa, tratei de filhos empurrados a crescer rápido demais. Aqui, o mecanismo é irmão gêmeo, só que invertido: não é o filho perdendo a infância, é o filho perdendo a régua que deveria vir de fora antes de conseguir construir uma por dentro.

O trono da autoridade paterna, quando o pai teme sentar nele por medo de parecer duro, não fica vazio. Alguém, ou alguma coisa, senta.

O Não Que Dói é o Não Que Constrói

Aqui é preciso nomear o que está por trás dessa fuga toda. O pai que troca limite por amizade não está, na maioria dos casos, tentando fazer o mal. Está evitando um sofrimento: o próprio desconforto de ver o filho puxar a cara, bater a porta, dizer “você não confia em mim” ou “todo mundo vai, só eu que não posso”. Esse desconforto é real. E é exatamente aí que mora o erro de cálculo.

O sofrimento que o filho sente ao ouvir um não sustentado não é dano colateral a ser evitado a qualquer custo. É o material bruto com que se constrói capacidade de frustração, tolerância ao limite, e, mais tarde, a habilidade de sustentar os próprios nãos como adulto. Um pai que blinda o filho de todo desconforto não está poupando sofrimento, está terceirizando esse sofrimento para uma versão futura e mais desamparada do mesmo filho, que vai ter que aprendê-lo sozinho, mais tarde, com juros. O que Bruno foi buscar na internet, com um estranho de tela dizendo “é assim que se faz”, era exatamente esse sofrimento adiado, cobrado com atraso e sem ninguém por perto para atravessá-lo junto.

Quem Senta no Trono Quando o Pai Sai

No caso de Bruno, quem sentou foi um algoritmo. E aqui é preciso nomear o fenômeno sem caricatura: a chamada manosfera, esse conjunto heterogêneo de criadores de conteúdo que vendem masculinidade como um manual de instruções, não nasceu de um vácuo ideológico. Nasceu de um vácuo relacional. Jovens que cresceram sem clareza sobre o que significa ser homem, sem um pai que modelasse isso na prática, encontram no YouTube e no TikTok uma resposta simples demais para uma pergunta complexa demais. E respostas simples, quando ninguém ofereceu nenhuma outra, são irresistíveis.

O filósofo Byung-Chul Han descreve, em Sociedade do Cansaço (2015), a transição de uma sociedade disciplinar, regida por figuras externas que dizem o que é proibido, para uma sociedade de desempenho, em que o próprio sujeito é lançado à tarefa infinita de se autoexplorar sem ninguém dizendo onde é o limite. O pai que abdica da função de dizer não empurra o filho, cedo demais, para essa lógica: você é livre, portanto você se vira. Só que liberdade sem estrutura prévia não liberta, ela sobrecarrega. E é exatamente nesse ponto de exaustão que a manosfera oferece seu produto mais vendável: uma hierarquia externa pronta, num mundo que parou de oferecer qualquer uma.

O erro comum é tratar esse fenômeno como causa da crise. Ele é sintoma. A internet não sequestrou os filhos de pais presentes e estruturantes. Ela ocupou o espaço que ficou aberto quando a geração anterior de pais, na tentativa legítima de romper com a rigidez autoritária que sofreu, jogou fora o limite junto com o autoritarismo.

Nem Toda Proximidade É Abdicação

Aqui cabe uma pausa que evita o exagero fácil. Nem todo pai afetuoso e próximo é um pai omisso. Existe uma diferença categórica entre o pai que constrói intimidade sem abrir mão de dizer não, e o pai que confunde ausência de conflito com boa relação. O primeiro é o que a literatura chama de autoritativo: presente, caloroso, mas com limite claro e sustentado mesmo sob protesto do filho. O segundo é permissivo disfarçado de moderno.

Também é preciso dizer que a autoridade rígida do passado, aquela que governava pelo medo e pela distância emocional, não é o modelo a se recuperar. O pai que nunca abraçava, que só existia como ameaça, produziu seu próprio tipo de filho ferido. A resposta à crise atual não é voltar ao autoritarismo. É recuperar a autoridade sem abandonar o afeto, algo que exige mais trabalho do pai do que qualquer um dos dois extremos, porque não vem pronto em nenhum roteiro, nem no antigo, nem no da internet.

Há, na tradição bíblica, uma imagem de paternidade que escapa dos dois extremos e raramente é lembrada fora do domingo: a de um pai que corre ao encontro do filho que voltou, mas cuja casa, antes disso, sempre teve regras. Aliança, não ausência de lei nem ausência de abraço. É uma imagem cultural antiga demais para ser tratada como novidade terapêutica, e útil demais para ser deixada de fora só porque é antiga.

A Pergunta Que Fica

Todo pai que se reconheceu neste texto deveria se perguntar, sem pressa de se defender, quando foi a última vez que disse não a um pedido do filho e sustentou esse não mesmo diante do desconforto de ambos. E se a resposta demorar a vir, talvez seja porque, em algum momento, confiança virou sinônimo de abdicação, e presença física passou a ser confundida com presença de fato.

O Trono Não Precisa Ser Vazio Nem Tirano

Bruno, hoje, está aprendendo devagar a reconhecer a diferença entre ter uma régua e ter um algoritmo. Não é um processo rápido, porque o vazio que a ausência do pai deixou não se preenche com uma conversa só. Mas começou a notar que a firmeza que ele buscava em vídeos de estranhos era, na verdade, algo que ele tinha o direito de ter recebido em casa, e que ainda pode aprender a construir em si mesmo, sem precisar de manual nenhum.

Porque autoridade nunca foi o oposto do amor. É a forma mais difícil dele.

Referências

Lacan, J. (1957-1958). As Formações do Inconsciente. Seminário 5. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Baumrind, D. (1971). Current patterns of parental authority. Developmental Psychology Monograph, 4(1, Pt.2), 1-103.
Levandowski, D. C. (2001). Paternidade na adolescência: um estudo sobre o envolvimento paterno. Psico, 32(2), 75-88.
Han, B.-C. (2015). Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes.
Corneau, G. (1991). Pai Ausente, Filho Carente: O Que Aconteceu Com Os Homens? São Paulo: Brasiliense.

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Thiago Luciani
Thiago Luciani
Psicólogo, Neuropsicólogo e Neurocientista. Apaixonado por pessoas e movido pela curiosidade, dedica-se ao estudo do comportamento humano e ao desenvolvimento de estratégias para promover saúde mental, inteligência emocional e autoconhecimento. Acredita no poder do conhecimento como ponte para a transformação individual e coletiva.

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