Há um mundo que só os animais percebem

Após um dia difícil, nem sempre há disposição para conversar. Mas a solidão do silêncio também não é bem-vinda. Basta o cachorro correr até a porta quando abrimos, ou o gato escolher nosso colo assim que nos sentamos no sofá. Os problemas não somem. Apenas deixam de ocupar o centro de tudo por alguns instantes. E isso, muitas vezes, já é o suficiente.

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É dessa vivência tão comum que parte a escritora britânica Jay Griffiths em “Como os animais nos curam” (Zahar). A obra reúne pesquisas científicas, história, filosofia, mitologia e conhecimentos de povos indígenas para sustentar que os animais favorecem a saúde porque modificam nossa maneira de nos relacionarmos com o mundo, e não apenas pelo afeto que geram. Ao observar um pássaro, brincar com um cão ou acompanhar os gestos de um gato, quebramos por alguns momentos o ciclo de preocupações e pensamentos repetitivos que costuma alimentar a ansiedade.

Para Griffiths, curar não se resume a tratar uma doença. Trata-se de restaurar um vínculo que se enfraqueceu com o tempo.

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Quando o foco se desloca

A ciência investiga há décadas os efeitos do contato com a natureza sobre o cérebro, e os achados seguem na mesma direção. Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, conduzido por pesquisadores da Universidade de Stanford, mostrou que pessoas que caminharam por 90 minutos em um ambiente natural apresentaram queda significativa da ruminação mental, aquele padrão de pensamentos negativos que gira em torno dos mesmos problemas sem chegar a uma solução.

O grupo que percorreu um trajeto urbano não teve o mesmo resultado. Uma revisão publicada na Revista Brasileira de Ecoturismo, realizada por pesquisadores da Esalq/USP, chegou a uma conclusão parecida: em 94% dos estudos analisados, o contato com a natureza esteve associado à melhora da saúde física e mental, com redução de estresse, ansiedade, irritação e fadiga mental.

Essas evidências ajudam a explicar parte do efeito observado. Griffiths propõe ampliar essa conversa. Para a autora, os seres humanos viveram cercados por outras espécies durante milhares de anos. O distanciamento causado pela urbanização não é apenas uma mudança de hábitos, mas também altera a forma como nos relacionamos com o ambiente ao redor.

Essa ideia conversa com o conceito de biofilia, formulado pelo biólogo E. O. Wilson nos anos 1980 para descrever a tendência humana de buscar conexão com outras formas de vida. Desde então, diversas áreas da ciência investigam como essa aproximação influencia o bem-estar. A contribuição de Griffiths é deslocar o eixo do debate, dando mais atenção à nossa relação com os animais no cotidiano — ou à ausência dela.

Os laços que ficaram para trás

Em 2023, a OMS (Organização Mundial da Saúde) classificou a solidão como um problema global de saúde pública. Dois anos depois, estimou que uma em cada seis pessoas vivia em situação de isolamento social, condição associada a centenas de milhares de mortes anuais. As justificativas costumam passar pelo uso intenso de tecnologia, pelo enfraquecimento dos vínculos e pelo individualismo.

Ao longo da evolução, os seres humanos nunca viveram isolados de outras espécies. Caçaram, observaram, aprenderam, cooperaram e dividiram território com inúmeros animais. Para a autora, esse conjunto de relações também contribuía para construir uma sensação de pertencimento. No livro, ela reúne pesquisas mostrando que muitos idosos consideram seus animais de estimação seu principal companheiro. O dado revela a capacidade dos animais de estabelecer vínculos duradouros e evidencia a dimensão do isolamento vivido por muitas pessoas.

Griffiths observa que esses laços têm particularidades próprias. Um animal não interpreta suas palavras nem avalia sua posição social antes de responder. A relação acontece no presente, sem cobranças ou julgamentos. É essa disponibilidade que, segundo a autora, ajuda a entender por que a convivência com outras espécies pode ter efeitos tão consistentes sobre o bem-estar.

A paisagem sonora da natureza

Outro ponto explorado por Griffiths é a relação entre os sons emitidos pelos animais e o bem-estar. A autora reúne estudos sobre o canto dos pássaros, o zumbido dos insetos e o ronronar dos gatos para discutir como essas paisagens sonoras podem influenciar o corpo e a mente. Durante milhões de anos, nossos ancestrais aprenderam a interpretar os sons ao redor como sinais de segurança ou perigo. Um ambiente com pássaros, por exemplo, indicava que não havia predadores por perto. Já o silêncio repentino podia representar uma ameaça.

Uma meta-análise publicada em 2021 encontrou associação entre sons naturais e redução do estresse, especialmente quando as pessoas eram expostas ao canto de pássaros e ao som da água. No caso do ronronar dos gatos, estudos investigam se a frequência produzida por eles pode favorecer processos ligados ao relaxamento, ao alívio da dor e à recuperação do organismo, embora as evidências ainda sejam preliminares e não permitam estabelecer uma relação de causa e efeito.

Para Griffiths, os sons produzidos por outros animais não atuam apenas como estímulos agradáveis. Eles fazem parte do que acompanhou a história da espécie humana e seguem influenciando a maneira como percebemos o ambiente ao nosso redor.

Além da companhia, Griffiths aponta que também podemos aprender muito com os animais. Estudos mais recentes mostram que as matilhas de lobos funcionam muito mais como grupos familiares baseados em cooperação do que como estruturas rígidas de dominação. As abelhas tomam decisões coletivas por meio de processos que distribuem informação entre todo o grupo antes de uma escolha comum. Primatas demonstram comportamentos relacionados ao senso de justiça, enquanto cães desenvolveram uma capacidade incomum de compreender intenções humanas depois de milhares de anos de convivência conosco.

O livro convida a reconhecer que inteligência, cooperação, emoção e cuidado aparecem de maneiras diferentes em muitas espécies. Ao ampliar esse olhar, Griffiths questiona a ideia de que essas capacidades pertencem apenas aos seres humanos.

Essa perspectiva também surge quando a autora dialoga com saberes indígenas. Em diversas culturas tradicionais, os animais são entendidos como parceiros de convivência, e não apenas como recursos naturais. Por isso, ela aproxima esses saberes ancestrais das descobertas recentes da ciência para mostrar que ambas as visões ajudam a ampliar a compreensão sobre a relação entre humanos e outras espécies.

O que a cidade esconde

As ideias apresentadas no livro podem parecer distantes da rotina de quem vive em grandes centros urbanos. Porém, a autora defende que essa aproximação não depende apenas de morar perto de uma floresta ou de passar longos períodos na natureza. Ela também acontece na relação cotidiana com os seres vivos que dividem o mesmo espaço que nós.

Observar aves em uma praça ou simplesmente prestar atenção aos sons produzidos pelos animais que vivem na cidade já representa uma mudança de foco. A revisão conduzida por pesquisadores da Esalq/USP encontrou benefícios mesmo em interações indiretas com a natureza. A presença visual de árvores, plantas e animais esteve associada à redução do estresse e à melhora da capacidade de concentração, ainda que não houvesse contato físico com eles.

Em vez de abordar ansiedade, solidão e esgotamento apenas como questões individuais, o livro propõe olhar para a relação que estabelecemos com o ambiente e com outras espécies, reconhecendo seu impacto sobre a saúde.

A reflexão se estende para o campo da ética. Se reconhecemos que outros animais possuem inteligência, emoções e formas próprias de interação, a maneira como convivemos com eles também muda. Preservar habitats, proteger a biodiversidade e cuidar de outras espécies deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a fazer parte de uma discussão sobre qualidade de vida. Para Griffiths, saúde humana e saúde dos ecossistemas caminham juntas.

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