O plano da Sony de encerrar a fabricação de discos de jogos a partir de janeiro de 2028 não significa, necessariamente, que os lançamentos do PlayStation vão sumir das prateleiras. A companhia está dialogando com redes varejistas de vários países para identificar novas alternativas de venda de games físicos, mesmo que as embalagens deixem de trazer um disco dentro.
Em uma sessão de perguntas e respostas promovida após a divulgação dos resultados financeiros do primeiro trimestre do ano fiscal de 2026, a diretora financeira Lin Tao ressaltou que o varejo permanece como um elo essencial para os negócios da marca PlayStation. Segundo a executiva, a Sony comunicou o encerramento da produção com antecedência justamente para ter tempo de ouvir os comerciantes e moldar a estratégia de acordo com cada mercado.
Uma das propostas avaliadas é o modelo apelidado de código na caixa. Nesse formato, o cliente ainda encontra o produto em uma loja física e recebe a embalagem convencional, mas, no lugar do disco, há um código para baixar o jogo pela PlayStation Store. Lin Tao destacou que essa prática comercial já existe na América do Norte e pode ser mantida após a migração para o formato digital, com a Sony pretendendo analisar as particularidades de cada mercado e conversar individualmente com os parceiros para chegar a um resultado favorável para os dois lados. Segundo ela, a companhia vende PlayStation há 30 anos e sempre considerou os parceiros de varejo importantes, razão pela qual optou por comunicar a conclusão da produção de discos em estágio inicial, dando tempo suficiente para ouvir a opinião de diferentes parceiros ao redor do mundo.
Para as lojas, porém, uma caixa trazendo apenas um código está longe de oferecer todas as vantagens de uma cópia física. O produto digital não pode ser revendido depois de ativado, emprestado livremente a outra pessoa ou colocado no mercado de usados, atividades que ainda sustentam uma parcela considerável do varejo especializado.
A Entertainment Retailers Association, entidade que representa o setor de entretenimento físico e digital no Reino Unido, já se posicionou contra o fim dos discos, argumentando que a mudança coloca a conveniência das empresas acima da liberdade de escolha dos consumidores. Segundo dados levantados pela associação, 25% dos jogadores britânicos com menos de 25 anos ainda utilizam discos, e o mercado de games em mídia física gerou mais de 300 milhões de libras no Reino Unido ao longo de 2025, o que mostra que existe uma fatia relevante do público interessada em produtos físicos. Para a entidade, discos permitem compartilhar, colecionar, preservar e revender jogos, e a distribuição digital deveria funcionar como opção complementar ao formato físico, não como substituição integral.
A CEO da associação, Kim Bayley, classificou o anúncio da Sony como um triunfo da conveniência corporativa sobre a escolha do consumidor, afirmando que, todos os anos, milhões de jogadores ainda optam por comprar cópias físicas por valorizarem a posse real do produto, já que um disco pode ser compartilhado com a família, trocado, colecionado, preservado e jogado por muitos anos, liberdades que uma licença de download geralmente não oferece. Segundo ela, os jogos físicos continuam atraindo pessoas para as lojas e oferecendo valor real por meio de presentes, coleções e revenda, e a indústria deveria abraçar todas as formas legítimas pelas quais os consumidores desejam comprar jogos, em vez de restringir suas opções. Para Bayley, a distribuição digital transformou o mercado de games e é extremamente popular, mas deveria complementar os formatos físicos, e não substituí-los.
Apesar das críticas, a mudança já está em estágio avançado. A maior fábrica de discos da Sony, localizada em Thalgau, na Áustria, já começou a transferir funcionários para outras funções. A unidade, com capacidade para produzir cerca de 600 mil discos por dia, recebeu investimento de aproximadamente 30 milhões de euros em equipamentos destinados à produção de microlentes ópticas, e os cerca de 300 trabalhadores do local devem ser treinados para atuar nessa nova divisão. A expectativa é que a fabricação de discos na planta caia para cerca de 10% da capacidade atual em 2028, o que reforça a ideia de que uma eventual reversão da decisão da Sony se torna cada vez menos provável.
Uma petição criada para pressionar a empresa a manter as mídias físicas já ultrapassou 300 mil assinaturas, mas até o momento a Sony não deu sinais de que pretende recuar. A estratégia da companhia parece concentrada em manter as lojas integradas ao ecossistema PlayStation, mesmo que os futuros jogos vendidos em caixas sejam, na prática, produtos totalmente digitais.







