O que seus sonhos tentam lhe contar

O despertador toca e você acorda no meio de um sonho. Por alguns minutos, ainda tenta entender o que viveu enquanto dormia. Então o dia começa, mensagens no celular, água fervendo para o café, barulhos na rua, e tudo o que foi sonhado desaparece. Não se trata de uma falha de memória, mas de mecanismos ativos que mantêm certos conteúdos fora do alcance da consciência.

Continua após a publicidade

Cláudio Costa, psiquiatra, psicanalista e professor da Afya Educação Médica Belo Horizonte, explica a questão desde sua origem. Sigmund Freud, neuropsicólogo e pai da psicanálise, publicou por volta de 1900 o clássico “A Interpretação dos Sonhos”, obra que inaugurou o que Costa descreve como uma ferramenta extraordinária para a análise e interpretação dos sonhos. No livro, Freud diferencia esse novo método das antigas adivinhações e premonições mágicas e supersticiosas que a humanidade havia criado até então. A descoberta central era a de que o sonho não vem de fora, não é mensagem divina nem presságio, mas produção própria de quem o sonha, construída a partir das experiências vividas e arquivadas na memória, conscientes ou não.

Para explicar como a psicanálise compreende os sonhos, Costa recorre à imagem de um quebra-cabeça desorganizado, cheio de nuances, que só se monta à medida que quem sonha expõe os fragmentos recordados a um analista, que aos poucos os junta e decifra seu significado, sem elementos mágicos ou misteriosos envolvidos. O que existe é linguagem, mas numa gramática que o próprio sonhador não domina conscientemente, razão pela qual a interpretação não deve ser feita sozinha nem terceirizada para dicionários de símbolos. Segundo Costa, Freud criticava os famosos dicionários dos sonhos justamente porque cada sonhador tem uma gramática própria, completamente inconsciente, e cada sonho é único, fazendo sentido apenas dentro de um processo bem conduzido, como o processo analítico.

Continua após a publicidade

Ainda assim, nem todo mundo interessado nos próprios sonhos está em análise, e não é preciso estar para que prestar atenção a eles já tenha valor. Lembrar de um sonho e registrá-lo são coisas diferentes. A lembrança é frágil, depende do humor do momento, da pressa e da disposição do dia, enquanto o registro força uma pausa, na qual a pessoa se vê obrigada a dar linguagem a algo vivido num território que dispensa linguagem. Segundo Costa, anotar os sonhos pode ser um recurso interessante, capaz de fornecer elementos preciosos num processo de análise, já que o paciente passa a perceber não apenas a frequência de determinados temas, mas também sonhos com conotação afetiva diferente, alguns banais, outros mais marcados por emoções negativas, ansiosas ou geradoras de sofrimento.

Esse mapeamento afetivo tem pouco a ver com o enredo literal do sonho, como quem apareceu ou onde a cena se passou. O que mais importa são os afetos que permanecem ao despertar, já que um sonho que deixa rastro de ansiedade comunica algo diferente de outro que desperta saudade, alívio ou alegria. Quando esse registro é mantido ao longo do tempo, começa a revelar padrões que ajudam a entender como a vida psíquica vem se organizando. Os sonhos também são atravessados pelo que Freud chamou de restos da véspera, acontecimentos recentes, preocupações do dia a dia e experiências que mobilizaram emoções nas horas anteriores ao sono, relação mais evidente nas crianças e que, nos adultos, costuma aparecer de forma mais indireta.

A forma como contamos ou explicamos um sonho é uma versão já processada e editada de algo que a mente não consegue mostrar diretamente. Costa descreve quatro mecanismos por trás desse processo. A condensação comprime vários significados em uma única imagem ou cena, como uma história resumida que só se decompõe durante a análise. O deslocamento faz o conteúdo verdadeiro do sonho aparecer dissimulado em detalhes escolhidos inconscientemente para esconder seu real significado, como uma narrativa cheia de reviravoltas que só revela o essencial no final. A representação por imagens traz uma cena fora de contexto ou repetitiva como pano de fundo, e as explicações que damos a ela ao tentar completar a lembrança podem, na verdade, nos afastar ainda mais do sentido original. Por fim, a censura seleciona, no intervalo entre o sono e a vigília, imagens e temas mais aceitáveis para o próprio sonhador.

Por isso, a orientação freudiana é não tomar ao pé da letra aquilo que se recorda, já que algumas lembranças podem ser falsas ou distorcidas. No trabalho analítico, o caminho é inverso, parte-se do conteúdo manifesto para alcançar o sentido latente dos pensamentos do sonho. Quando um mesmo tema retorna repetidamente ao longo de semanas, meses ou até anos, a psicanálise entende essa recorrência como indício de que algo permanece em aberto, seja um conflito, um desejo ou uma experiência ainda não elaborada psiquicamente. Para o inconsciente, aquilo que não pôde ser simbolizado tende a reaparecer, insistindo em diferentes formas até encontrar espaço para ser reconhecido.

Grande parte do que nos move permanece fora do alcance direto da consciência, e os sonhos oferecem um acesso privilegiado a esse território, ainda que nunca de forma transparente. O que lembramos ao despertar corresponde ao conteúdo manifesto, uma versão já transformada pelo trabalho do inconsciente, e não o conteúdo original em si. Um dos princípios mais conhecidos da teoria freudiana, lembrado por Costa, afirma que o sonho é a realização dissimulada de um desejo recalcado, ou seja, o que aparece na cena onírica não corresponde ao desejo em sua forma direta, mas a uma versão transformada por mecanismos inconscientes, de modo não intencional, apenas como o aparelho psíquico opera para tornar esse desejo aceitável à consciência. Por isso, a interpretação não se limita ao conteúdo do sonho, exigindo um trabalho de escuta que, na clínica, conta com a presença de outra pessoa capaz de ajudar o sonhador a percorrer os caminhos entre o conteúdo manifesto e os sentidos inconscientes que o sustentam.

Anotar os sonhos, revisitá-los e refletir sobre eles não substitui um processo de análise, mas pode inaugurar uma forma mais atenta de escuta de si mesmo. Com o tempo, aquilo que antes parecia disperso começa a revelar certa coerência, padrões emocionais que se repetem, temas recorrentes, imagens que insistem em voltar e afetos que atravessam diferentes sonhos. O sonho é uma produção da própria mente, construída com lembranças, desejos, conflitos e experiências em elaboração, e não oferece respostas prontas nem deve ser tomado como um código a ser decifrado literalmente. Ainda assim, aprender a escutá-lo, mesmo sabendo que parte de seu sentido permanecerá enigmática, pode aproximar a pessoa de aspectos da própria vida psíquica que a consciência, muitas vezes, tende a evitar.

Continua após a publicidade
Redação
Redação
Redação representa o esforço colaborativo de toda a equipe de jornalistas e editores dO Capixaba. Por meio de um trabalho integrado e multidisciplinar, contextualizando as informações e acompanhando as novidades do momento com agilidade e rigor.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
22ºC
Máxima
23ºC
Mínima
21ºC
HOJE
01/08 - Sáb
Amanhecer
06:11 am
Anoitecer
05:23 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
2.38 km/h

Média
21.5ºC
Máxima
24ºC
Mínima
19ºC
AMANHÃ
02/08 - Dom
Amanhecer
06:10 am
Anoitecer
05:23 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
6.99 km/h

O futuro da arquitetura não é a IA, é o profissional...

Marcos Paulo Bastos

Leia também