Dor crônica influencia tratamento da depressão

Um artigo publicado na revista Nature Mental Health argumenta que parte dos pacientes rotulados como portadores de depressão resistente ao tratamento pode não ter, de fato, uma condição refratária a medicamentos, mas sim uma dor crônica jamais mensurada.

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A dor crônica é frequente em pessoas com depressão e reduz a resposta aos antidepressivos. Ainda assim, ela não faz parte da definição formal de depressão resistente, não consta nos questionários mais usados na prática clínica e costuma ser deixada de fora dos ensaios clínicos que sustentam as diretrizes de tratamento. Segundo o artigo, quando a depressão não responde à terapia, os médicos costumam perguntar se a medicação falhou, mas raramente questionam se a dor crônica chegou a ser avaliada.

Os autores destacam que a falha em medir a dor pode influenciar diretamente as decisões de tratamento, mas fazem uma ressalva importante, o objetivo não é dizer que a dor explica todos os casos de depressão resistente, e pacientes não devem alterar ou suspender medicações com base nas conclusões do artigo.

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Nilson Mendes Neto, médico e pesquisador da Harvard Medical School, cujo trabalho se concentra na interface entre dor crônica e saúde mental, explica que existe uma diferença importante entre o médico saber que o paciente sente dor e essa dor ser efetivamente medida e incorporada de forma estruturada à avaliação da depressão resistente. Segundo ele, a classificação atual da depressão resistente se baseia sobretudo na falha de tratamentos antidepressivos conduzidos com dose e duração adequadas, sem que a presença, a intensidade e o impacto funcional da dor entrem formalmente nessa definição. Ferramentas amplamente usadas para avaliar depressão, como o PHQ-9 e a escala de Hamilton, também não mensuram diretamente a carga de dor do paciente.

Por isso, mesmo quando o médico sabe que o paciente sente dor, muitas vezes falta uma medida padronizada capaz de indicar o quanto essa dor pode estar contribuindo para a persistência dos sintomas ou para uma falha terapêutica aparente. Nilson reforça que o argumento não é que os médicos ignoram a dor, mas que a própria estrutura usada para medir e classificar a depressão resistente não exige que ela seja avaliada de forma sistemática.

Segundo o pesquisador, uma parcela dos pacientes classificados como tendo depressão resistente pode, na verdade, apresentar um problema de dor não identificado. Ele é cuidadoso ao afirmar que isso não significa que a maioria dos casos de depressão resistente seja explicada pela dor, nem que pacientes com dor não tenham uma depressão genuinamente resistente ao tratamento. O que os autores defendem é que, em alguns pacientes, uma condição dolorosa não mensurada pode estar contribuindo para essa aparente resistência, já que a dor tanto pode alterar a resposta ao antidepressivo quanto influenciar a forma como os sintomas persistentes são interpretados. Segundo Nilson, ainda não é possível saber qual proporção de pacientes está nessa situação, justamente porque a dor não costuma ser medida de forma sistemática.

Sobre o contexto brasileiro e o Sistema Único de Saúde, o pesquisador vê implicações relevantes. A primeira é que o problema não exige necessariamente tecnologia cara para começar a ser enfrentado. Na atenção primária, nos ambulatórios de saúde mental e nos Centros de Atenção Psicossocial, uma avaliação estruturada sobre presença, duração e impacto da dor poderia ajudar a identificar pacientes em que esse componente merece investigação antes de se concluir que a depressão é, de fato, resistente ao tratamento.

Segundo Nilson, isso é especialmente relevante para o SUS, já que muitos pacientes com depressão também convivem com condições dolorosas crônicas, como lombalgia, osteoartrite, fibromialgia e neuropatias, problemas frequentemente acompanhados em serviços diferentes, embora se trate do mesmo paciente. Para ele, o argumento reforça a importância de integrar melhor a saúde mental e o cuidado da dor.

Há também uma questão de eficiência envolvida. Antes de escalar para tratamentos progressivamente mais especializados e custosos, faz sentido garantir que fatores clínicos potencialmente modificáveis tenham sido avaliados de forma sistemática, o que não significa atrasar ou negar tratamentos eficazes para depressão resistente, mas aumentar a precisão do diagnóstico para que o tratamento certo chegue ao paciente certo.

No Brasil, segundo o pesquisador, isso poderia começar de forma relativamente simples, incluindo o rastreio de dor na avaliação de pacientes cuja depressão não responde ao tratamento, registrando essa informação de maneira padronizada e fortalecendo a integração entre atenção primária, psiquiatria e cuidado da dor. Para ele, a implicação prática para o SUS é direta, antes de tornar o tratamento mais complexo, é preciso ter certeza de que a avaliação não deixou de medir algo importante e potencialmente tratável.

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