O Trono Visível De Ciro a Saul: a história de um povo que trocou o governo de Deus por um rei que pudesse ver

Existe um versículo na Bíblia que virou cheque em branco. Está em Isaías 45, e nele Deus chama um homem de “meu ungido”. A palavra hebraica, mashiach, é a mesma que chegou até nós como “messias”. O escândalo é o destinatário: Ciro, rei da Pérsia, adorador de outros deuses, um homem que nunca abriu a Torá. O próprio texto registra, duas vezes no mesmo oráculo: “ainda que tu não me conheças”.

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Deus usou um homem que não O conhecia. E o texto não pede desculpas por isso.

Esse versículo circula hoje nos púlpitos e nos grupos de família com uma função precisa: justificar. Se Deus ungiu um rei pagão, então o líder da vez também pode ser ungido, e a ausência de frutos cristãos na vida dele deixa de ser problema. “Deus usa quem Ele quer.” A frase é verdadeira. O uso que fazem dela é que precisa de exame. Porque Ciro nunca reivindicou a unção, nunca usou o nome sagrado como plataforma, nunca pediu o voto de Israel. A unção de Ciro foi uma declaração que Deus fez sobre ele. A de agora é uma declaração que o povo faz, e repete até virar certeza.

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E é aqui que a Bíblia guarda uma história muito mais antiga, e muito mais desconfortável, do que a de Ciro. Porque antes de perguntar quem é o ungido, ela pergunta outra coisa: quem está ungindo, e por quê?

O dia em que Israel pediu um rei

Primeiro livro de Samuel, capítulo 8. O profeta envelheceu, os filhos dele não servem, e os anciãos de Israel se reúnem com um pedido que parece razoável: “nomeia um rei para que nos lidere, à semelhança das outras nações”.

À semelhança das outras nações. A frase é o coração do capítulo, e talvez de toda a história política do povo de Deus. Israel era, por definição, o povo que não deveria ser como as outras nações. Não tinha um rei visível porque tinha um Rei invisível. E é exatamente isso que se torna insuportável. Um governo que não se vê, não se toca, não se fotografa. Um trono que não desfila. O povo não estava pedindo liderança, já tinha. Estava pedindo visibilidade. Queria um trono que os olhos pudessem conferir.

A resposta de Deus a Samuel é uma das frases mais tristes da Escritura: “Não é a ti que rejeitaram; foi a mim que rejeitaram como rei” (1 Samuel 8:7). E na sequência, algo notável: Deus não impede. Manda Samuel avisar, com precisão de contrato, o preço do trono visível. O rei tomará os filhos para os carros de guerra, tomará as filhas, tomará o melhor das lavouras, tomará um décimo dos rebanhos. O verbo “tomar” se repete como um martelo ao longo do aviso. O governo invisível dava. O trono visível toma.

O povo ouviu o contrato inteiro e respondeu: “Não! Queremos um rei”.

O teólogo Walter Brueggemann, num dos comentários de referência sobre esses livros (First and Second Samuel, 1990), observa que o capítulo 8 funciona como uma crítica permanente à monarquia inserida no próprio coração da história que a inaugura: Israel recebeu o rei que pediu, junto com a fatura que preferiu não ler. O nome do primeiro rei era Saul. Alto, bonito, impressionante, tudo que um trono visível pede.

A necessidade que não escolhe lado

Antes de costurar isso ao presente, o contrapeso evita a leitura preguiçosa. Desejar bons governantes não é rebeldia contra Deus. Participar da vida política não é idolatria; é, muitas vezes, dever. E o mecanismo que estou descrevendo não tem bandeira: cada tribo, de cada espectro, já ergueu o seu trono visível e ungiu o seu ocupante com a mesma liturgia de certezas. Quem lê esta coluna procurando munição contra o lado adversário está cometendo, nesse exato momento, o erro que ela descreve.

O que a psicologia acrescenta é o motor. Erich Fromm, em O Medo à Liberdade (1941), descreveu a tendência humana de fugir da angústia de decidir por conta própria, entregando a vontade a uma autoridade que prometeu ordem. A entrega alivia. Esse é o problema. O alívio é imediato e a fatura é parcelada, e a fuga nunca se apresenta como covardia. Se apresenta como fé. O pedido de Israel em Samuel 8 é o retrato psicológico perfeito desse movimento: confiar num Rei que não se vê exige uma maturidade espiritual que sustenta a incerteza. Um rei de carne resolve a ansiedade no ato. Basta olhar para ele.

E o Brasil tem vocação histórica para esse arranjo. Maria Isaura Pereira de Queiroz, no clássico O Messianismo no Brasil e no Mundo (1965), mapeou o padrão muito antes das redes sociais: de Canudos ao Contestado, comunidades inteiras organizaram a esperança em torno de homens que prometiam restaurar a ordem do mundo. O messianismo não é acidente na nossa história. É um dos dialetos com que este país fala da própria dor.

O homem que perdeu o chão

“Vicente”, nome trocado como sempre, chegou ao consultório aos 41 anos com insônia e uma ansiedade sem endereço. Comerciante, casado, membro ativo da igreja desde a adolescência. Foram necessárias algumas sessões até o fio aparecer, e o fio não era financeiro nem conjugal. Era teológico.

Vicente havia acreditado, com a fé inteira de quem não sabe crer pela metade, que Deus tinha levantado um líder para consertar o país. Não era opinião política; era certeza espiritual, confirmada no púlpito e no grupo da família. Houve uma bandeira na vitrine da loja durante meses. Numa segunda-feira, antes de abrir, ele a tirou. Não soube me explicar por que aquele gesto doeu mais do que qualquer resultado de urna.

Quando a história real não correspondeu à expectativa, Vicente não abandonou a fé. Fez algo mais corrosivo: abandonou a confiança no próprio discernimento. “Doutor, se eu errei nisso, com tanta certeza, em que mais eu estou errando?”

A crise de Vicente nunca foi sobre um político. Foi sobre onde ele havia apoiado o peso da própria esperança. Quando um trono visível desaba, a esperança não volta limpa para o dono. Volta contaminada de vergonha. E a vergonha, ao contrário da culpa, não diz “eu fiz algo errado”. Diz “eu sou alguém que se engana”. É por essa fresta que a ansiedade entra.

O desfecho já foi escrito

Aqui está o que me parece a parte mais impressionante dessa história toda, e o motivo de um espanto que eu gostaria de dividir com o leitor.

Nós não precisamos especular como termina o experimento do trono visível. A Bíblia já o conduziu até o fim e publicou o relatório. Chama-se Primeiro e Segundo Reis. Ali, rei após rei desfila diante do leitor, e sobre a esmagadora maioria deles o texto carimba a mesma fórmula, quase burocrática de tão repetida: “fez o que o Senhor reprova”. Saul, o primeiro, o mais alto, o mais bonito, termina consultando uma médium na véspera da própria morte. Salomão, o auge, o mais sábio dos reis, termina erguendo altares aos deuses das esposas. Entre o primeiro e o auge, a mesma curva. Depois deles, a divisão, a decadência, o exílio. O povo que pediu um trono visível terminou levado cativo por outros tronos visíveis, maiores que o seu.

E no entanto. Vinte e cinco séculos depois, com o relatório completo disponível em qualquer estante, o povo de Deus segue fazendo, geração após geração, exatamente o mesmo pedido. Muda o século, muda o continente, muda o nome na cédula. A frase é a mesma dos anciãos diante de Samuel: nos dê alguém que a gente possa ver.

Não escrevo isso de cima. Escrevo de dentro. A pergunta de 1 Samuel 8 não é sobre eles, os antigos, os ingênuos. É sobre a estrutura do nosso coração, que prefere qualquer trono fotografável ao desconforto de confiar no que não se vê.

Perguntas para levar daqui

Se algo neste texto tocou um nervo, não pergunte primeiro sobre o país. Pergunte sobre você. A sua fé já discordou de você alguma vez, ou ela sempre confirma o que você já desejava? Quando a sua esperança política desabou, e em algum momento ela desabou, você examinou onde ela estava apoiada, ou apenas procurou depressa um novo trono para pendurá-la? E a mais difícil: o que exatamente você está pedindo a Deus quando pede um líder, proteção para a sua fé, ou dispensa de exercê-la?

O nome que não escrevi

Escrevi esta coluna inteira sobre dois reis mortos há mais de dois mil anos, e você, leitor, provavelmente pensou em outro nome do começo ao fim. Este era o teste que o texto fazia sem avisar. E repare: eu não precisei escrever nome nenhum. Quem ungiu, quem sustentou a unção, quem completou as lacunas deste texto foi o mesmo protagonista de 1 Samuel 8. O holofote daquele capítulo nunca esteve sobre Saul; Saul nem aparece nele. O capítulo inteiro é sobre o povo que pediu. “Não é a ti que rejeitaram; foi a mim.” O líder é a resposta. A pergunta somos nós.

E para todo aquele que reivindica unção, ao contrário de Ciro, que nunca a reivindicou, a própria Escritura entrega o único teste que não depende de urna: pelos seus frutos os conhecereis. Os frutos são públicos. O exame, eu deixo com você.

Vicente, hoje, dorme melhor. Não porque encontrou um novo lugar para a esperança, mas porque está aprendendo a distinção que organiza todo o tratamento: um Rei invisível se serve confiando. Um trono visível se serve pagando.

Porque o povo que exige ver o seu rei termina, cedo ou tarde, vendo também a conta.

Referências

Brueggemann, W. (1990). First and Second Samuel (Interpretation: A Bible Commentary for Teaching and Preaching). Louisville: John Knox Press.
Fromm, E. (1941). Escape from Freedom. New York: Farrar & Rinehart. [Ed. bras.: O Medo à Liberdade. Rio de Janeiro: Zahar.]
Queiroz, M. I. P. de (1965). O Messianismo no Brasil e no Mundo. São Paulo: Dominus/EDUSP.

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Thiago Luciani
Thiago Luciani
Psicólogo, Neuropsicólogo e Neurocientista. Apaixonado por pessoas e movido pela curiosidade, dedica-se ao estudo do comportamento humano e ao desenvolvimento de estratégias para promover saúde mental, inteligência emocional e autoconhecimento. Acredita no poder do conhecimento como ponte para a transformação individual e coletiva.

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