O que seria a metafísica? Conforme José Antonio Antón, em sua obra “Elementos de Metafísica Tradicional”, “como a realidade se estrutura, como se organiza e se define, a quais princípios e razões obedece — tudo isso é matéria de reflexão metafísica”. Assim, a metafísica, tal como Aristóteles afirmava sobre a ontologia, é a ciência fundamental, a observação e o estudo sistemático da essência mais profunda da realidade, ou seja, sua substância e seu funcionamento interno.
Ou, como é comum pensarmos, a metafísica é o campo que investiga o imaterial, aquilo que está além — “meta” — do físico ou do concreto. Tudo passa, mas a metafísica persiste ao longo da história. Metafísica é puro privilégio. Vamos compreender essa ligação peculiar entre privilégio e metafísica.
Há duas categorias de produto que jamais se encaixam na noção de luxo, por mais que tentem nos iludir. Alimentação e tecnologia. Ambos são efêmeros e, portanto, não podem ser considerados luxo. Afinal, onde há luxo, há durabilidade.
A alimentação, mesmo quando assinada por chefs renomados, com preços exorbitantes e servida em restaurantes com filas intermináveis por meses, não tem relação alguma com luxo. Aliás, se você é uma pessoa refinada e espera meses para jantar em um restaurante chique em Estocolmo, está apenas sendo vulgar e confirmando que possui um espírito de novo-rico.
Quanto à tecnologia, a Apple conseguiu se transformar em um fetiche — tenho Apple, logo existo —, mas luxo não é. Tecnologia, por natureza, é refém de sua época. Hoje a inteligência artificial é o centro de tudo; amanhã ninguém se importará. Dar atenção à IA será como escrever poesia futurista ou palestrar sobre o Waze.
Por exemplo, basta assistir a filmes ou séries de anos atrás com tecnologia: ela é o elemento que mais envelhece na obra, não acha? Pense em “Jornada nas Estrelas”, que, entre outras coisas, “previu” o celular. Na série, o que perdura são os temas metafísicos ligados ao mistério do universo.
O que é este universo? Alguém o criou ou ele é fruto — improvável, para alguns — do acaso? Se o acaso impera cegamente sobre as coisas, o que será de nós, humanos, que o enxergamos com nossos próprios olhos? Para onde vamos, então? Quem somos nós nessa teia misteriosa de seres? O que importa mais: a razão representada por Mr. Spock ou a emoção, representada pelo Doutor McCoy? O ideal seria a mistura delas, na figura do Capitão Kirk?
Já no filme “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, além da estética tecnológica deslumbrante, o que permanece inalterado é o monolito, misterioso desde a “alvorada da humanidade”, na pré-história. O objeto é descoberto por primatas e desperta o conhecimento de caçar para se alimentar de carne. O filme aqui ecoa a ideia do filósofo Francis Bacon, que viveu na virada dos séculos XVI para XVII, de que o conhecimento é, antes de tudo, o poder de controlar a natureza ao nosso redor.
Além dessa questão, o filme concebe uma IA, o famoso Hal 9000, que mata um humano para se defender do plano dos dois astronautas de desligá-lo — matá-lo — depois de identificarem um defeito nele. Aqui avançamos em questões metafísicas permeadas pelo debate moral.
A IA poderá alcançar o estado supostamente humano de possuir total autoconsciência de sua integridade? Por que os humanos teriam o direito de eliminar uma IA? Apenas por serem humanos? Por que seríamos tão especiais?
A tecnologia perdura quando levanta problemas metafísicos e morais para seu criador. Estaria a tecnologia prestes a replicar nossa condição diante de nosso criador? Esse tema também está presente no filme “Blade Runner”, de Ridley Scott, quando os replicantes, humanos artificiais, se rebelam contra a escravidão, como nós fizemos em nossa história, e buscam seu criador humano para poderem viver eternamente. A finitude como defeito inerente à condição humana e a consequente busca por sua cura.
O que nos torna humanos não poderá um dia ser produzido artificialmente pela ciência? Essa fronteira metafísica pode ser ultrapassada sem destruir a nós mesmos? A dimensão prometeica da técnica se repete há 2.500 anos.
As questões metafísicas permanecem. A técnica é grandiosa apenas quando nos propõe questões permanentes, pois seu avanço de hoje amanhã estará datado. Nisso reside a analogia da metafísica como luxo. O animal metafísico em nós é o que nos torna singulares, mesmo que isso não signifique nada diante do universo indiferente. Mesmo se a espécie sapiens desaparecer, a metafísica como problema ainda existirá, ainda que em silêncio.







