Os laços familiares podem funcionar como um refúgio seguro, um ponto de retorno quando a existência demanda um pouco mais de serenidade. Contudo, essas conexões também são capazes de se tornar intricadas e, em certas situações, converter-se em um fardo difícil de suportar.
Reconhecer essa realidade não configura ingratidão, nem implica anular os gestos de carinho. Trata-se apenas de entender que o mesmo espaço que acolhe também é capaz de ferir, assim como aqueles que cuidam podem deixar marcas profundas. Por isso, é essencial observá-las com sinceridade, identificar o que traz bem-estar, nomear o que provoca dor e avaliar o peso de cada elemento nessa balança.
Entre narrativas de acertos e desacertos, recordações prazerosas e mágoas antigas, a Vida Simples selecionou sete filmes que auxiliam na reflexão sobre a complexidade dos relacionamentos familiares. Veja a seguir:
‘Pai Mãe Irmã Irmão’ (2026)
Diretor: Jim Jarmusch
Nesta obra, o cineasta Jim Jarmusch, um dos grandes expoentes do minimalismo dramático, aborda com ironia como o passado de uma família pode influenciar a dinâmica dos relacionamentos e até que ponto é viável superar, ou não, as distâncias construídas ao longo dos anos.
A narrativa acompanha três núcleos familiares distintos. No primeiro, um filho e uma filha fazem uma visita esporádica ao pai idoso, que reside isolado em uma região fria, cercada pela floresta de Nova Jersey. O reencontro, no entanto, assemelha-se mais a uma visita de assistentes sociais do que a uma reunião familiar.
Em meio a silêncios, desconfortos e estranhamentos, a distância acumulada com o passar dos anos faz com que o pai não encontre meios de se aproximar dos filhos, enquanto eles também parecem incapazes de estabelecer um diálogo com ele.
No segundo núcleo, duas irmãs muito diferentes entre si se encontram na casa da mãe, em Dublin, para o chá anual que compartilham. O mal-estar e a ausência de uma intimidade genuína emergem da tentativa de corresponder às expectativas de uma mulher excessivamente apegada às convenções sociais. Presas a formalidades e ressentimentos, as três se comportam como se estivessem cumprindo uma obrigação diplomática.
Em Paris, um irmão e uma irmã retornam ao apartamento onde cresceram, agora vazio de pessoas e pertences após a morte recente e trágica dos pais. Entre recordações de pequenos momentos, reflexões sobre a fragilidade da vida e silêncios compartilhados, os dois encontram um no outro uma forma de consolo para atravessar uma perda irreparável.
Onde assistir: MUBI.
‘O Casamento Da Minha Mãe’ (2025)
Diretora: Kristin Scott Thomas
Uma reunião familiar para celebrar o casamento da matriarca torna-se o ponto de partida para uma história sobre amor, rancor e perda. Três irmãs, que conhecem perfeitamente as fragilidades umas das outras, voltam à casa onde cresceram para acompanhar o terceiro casamento da mãe, Diana.
O que deveria ser um fim de semana festivo logo adquire a tensão de uma bomba-relógio emocional. Entre provocações, silêncios e antigas feridas, as três filhas (uma oficial da Marinha, uma estrela de cinema e uma enfermeira) são forçadas a confrontar traumas do passado, frustrações acumuladas e a sensação de que os caminhos escolhidos até ali talvez necessitem de novos significados.
Onde assistir: Amazon Prime Vídeo e Apple TV.
‘Anêmona’ (2025)

Diretor: Ronan Day-Lewis
Condenado por um incidente do passado, Ray Stoker torna-se um fugitivo e passa a viver isolado em uma pequena cabana no meio da floresta. A visita do irmão é marcada por momentos de calma e pelos acessos de fúria de Ray, que, aos poucos, começa a se abrir sobre um luto profundo, os abusos sofridos na juventude e as marcas deixadas pela guerra.
O personagem revela, de certa forma, a rigidez e a dificuldade de expressar sentimentos que muitos homens carregam e que, com o tempo, podem se tornar fontes de sofrimento. O título “Anêmona” também faz referência a uma flor delicada, mas capaz de resistir em terrenos áridos. A metáfora ajuda a compreender Ray, que, mesmo ferido pelo passado e consumido pela culpa, ainda tenta encontrar uma maneira de seguir vivendo.
Onde assistir: Amazon Prime Vídeo, Google Play Filmes e Claro TV+.
‘Era uma Vez Minha Mãe’ (2025)
Diretor: Ken Scott
Baseado no livro autobiográfico do advogado francês Roland Perez, o filme acompanha a trajetória do caçula de seis irmãos, nascido com uma deficiência que o impedia de andar. Diante do diagnóstico, sua mãe, Esther, concentra toda a energia em ajudá-lo a se curar. Para isso, recorre a diferentes médicos, tratamentos experimentais e até curandeiros, sempre movida pela esperança de um milagre capaz de mudar o destino do filho.
Já adulto e capaz de andar, Roland enfrenta outro desafio: aprender a impor limites à mãe superprotetora e encontrar espaço para seguir o próprio caminho. Dirigido por Ken Scott, o longa-metragem constrói um relato emocionante e, muitas vezes, bem-humorado sobre o amor materno incondicional, capaz de mover mundos e fundos para que um filho tenha a oportunidade de construir uma vida plena.
Onde assistir: Amazon Prime Vídeo, Google Play Filmes e Youtube.
‘Mãe e Filho’ (2025)
Diretor: Saeed Roustaee
Mahnaz é uma enfermeira viúva que cria dois filhos com o auxílio da irmã e da mãe idosa. Longe da imagem idealizada de uma mãe que dá conta de tudo, ela parece sobrecarregada pelas responsabilidades que acumula como profissional, filha e principal responsável pela família. Ao mesmo tempo, precisa lidar com Aliyar, o filho adolescente, que enfrenta problemas na escola e mantém com ela uma relação marcada por conflitos.
Depois de recusar a proposta em um primeiro momento, Mahnaz decide aceitar o pedido de casamento do namorado, Hamid. A escolha, no entanto, abre uma caixa de Pandora e desencadeia uma sequência de acontecimentos trágicos.
Dirigido pelo cineasta iraniano Saeed Roustaee, o longa-metragem não divide os personagens entre mocinhos e vilões. Em vez disso, mostra pessoas feridas tentando sobreviver em uma estrutura social marcada pelas desigualdades do patriarcado e por mulheres que, sobrecarregadas por enfrentar diretamente esse sistema, acabam direcionando a própria frustração umas contra as outras.
Onde assistir: Amazon Prime Vídeo, Apple TV e Claro TV+.
‘As Três Filhas’ (2024)
Diretor: Azazel Jacobs
Três irmãs com personalidades e estilos de vida completamente diferentes se reúnem no apartamento do pai, em Nova York, para acompanhá-lo durante os últimos dias de vida. Diante da perda que se aproxima, cada uma encontra uma forma própria de lidar com a situação, o que faz com que diferentes visões, sentimentos e maneiras de viver o luto colidam entre si.
Com a ajuda de Ángel, especialista em cuidados paliativos domiciliares, elas tentam atravessar esse momento da melhor forma possível. Ao mesmo tempo, são levadas a olhar para a relação entre elas e a reconstruir laços que foram deixados de lado ao longo dos anos.
Onde assistir: Netflix.
‘Entre Irmãs’ (2017)
Diretor: Breno Silveira
Luzia e Emília são irmãs que vivem na pequena cidade de Taquaritinga do Norte, no interior de Pernambuco, durante a década de 1930. Criadas pela tia Sofia, as duas aprenderam desde cedo a costurar, mas cresceram com personalidades e sonhos muito diferentes. Enquanto Luzia convive com as dificuldades de ter um braço atrofiado após um acidente na infância, Emília deseja se casar e deixar a cidade para viver na capital.
O destino das duas muda com a chegada de Carcará, temido líder de um bando de cangaceiros, que leva Luzia à força. Emília, por sua vez, se casa com Degas, herdeiro de uma família aristocrática, e se muda para Recife, onde passa a conviver com a alta sociedade pernambucana.
Separadas por realidades completamente distintas, as irmãs precisam encontrar formas de sobreviver em uma sociedade marcada pela violência, desigualdades e limitações impostas às mulheres. Baseada no livro A Costureira e o Cangaceiro, de Frances de Pontes Peebles, o longa acompanha os caminhos de Luzia e Emília sem deixar de lado o vínculo que permanece entre elas.
Onde assistir: Amazon Prime Vídeo, Google Play Filmes e Youtube.







