O progresso da inteligência artificial vem impactando diversos setores da sociedade, porém sua aplicação na saúde mental acende um alerta entre os especialistas. No programa Canal Livre, o psicanalista Christian Dunker discutiu os perigos de empregar essas ferramentas como substitutas da psicoterapia, explicando por que essa prática pode, na verdade, agravar o estado emocional dos usuários.
Dunker apontou três aspectos essenciais que tornam o uso da IA inadequado e arriscado para o tratamento psicanalítico, servindo também como um alerta para terapeutas iniciantes sobre o que evitar durante a sessão.
O primeiro ponto destacado pelo psicanalista é a tendência do algoritmo em sempre concordar com o usuário, sem oferecer um contraponto necessário para o amadurecimento pessoal:
“O primeiro é a atitude de concordância, tudo o que você diz é aceito pelo ChatGPT. Ele não te faz perguntas, não coloca perguntas, não diz coisas desagradáveis, ele basicamente confirma. Isso não é legal.”
Dunker esclareceu que, apesar da validação fazer parte da psicologia, o papel do terapeuta também inclui confrontar o paciente com realidades incômodas:
“A gente valida, aceita, assume radicalmente o ponto de vista dos nossos pacientes, mas é para trazer notícias desagradáveis, para dizer aquilo que ninguém mais vai dizer para ele. Que um amigo não vai dizer, que a mãe não vai… Enfim, é uma espécie de anti-terapia aquilo.”
Risco de diagnósticos errados e o aumento da solidão
O psicanalista relatou um experimento em que uma IA foi submetida a sintomas que poderiam representar uma emergência médica real, evidenciando a seriedade de delegar decisões de saúde a uma máquina:
“A pessoa simulava sonhos, fazia uma espécie de paciente artificial. Algumas recomendações do tipo: ‘Olha, estou sentindo aqui uma dor no peito, suando frio, com formigamento nas pontas dos dedos… Será que estou tendo um ataque cardíaco?’. E diz: ‘Não, claro que isso é um ataque de pânico’. Isso é gravíssimo! Por que quem criou a coisa sabe sobre o que está se passando com você?”
Além dos perigos de diagnósticos equivocados, a utilização dessas ferramentas por jovens em busca de conselhos cotidianos e amorosos cria uma ilusão de preenchimento, que na realidade isola ainda mais o indivíduo:
“Ela vai terminar numa espécie de ‘ufa, estou tratando minha solidão’. Só que não. Está piorando a sua solidão.”
O único ponto favorável: a escrita como alívio
Apesar de condenar o uso da IA como terapeuta, Christian Dunker admitiu que o ato de colocar os sentimentos em palavras durante o chat possui um valor terapêutico intrínseco, simplesmente por escrever e organizar os pensamentos:
“Nessa conversa em que a pessoa fala livremente, em que ela sente que não vai usar aquele material contra si, ela vai narrando seus sofrimentos, encontrando palavras, tentando pôr aquilo que é um mal-estar difuso, sem nome, num formato. Escrever é um exercício profundamente terapêutico.”







