O cuidado ainda tem gênero

Esses dias estou passando mal.

Continua após a publicidade

Nada dramático o suficiente para virar história de novela, mas suficiente para me levar ao hospital. Aquela sensação estranha de quando o corpo resolve lembrar que também tem limites.

Depois de alguns exames, a médica voltou com aquele tom prático de quem já repetiu aquela frase muitas vezes:

Continua após a publicidade

— Vou te dar uma medicação que dá sono. Você tem alguém para te buscar? Está com acompanhante?

A pergunta era simples. Mas ficou ecoando dentro de mim.

Eu estava sozinha.

Naquele instante algumas pessoas passaram pela minha cabeça. Pessoas que eu sei que iriam, se pudessem. Amigas queridas, familiares. Mas também pensei nos horários de trabalho, nos filhos, nas rotinas que engolem o dia das pessoas. Pensei na distância de alguns.

E pensei: não vou incomodar.

Enquanto esperava o efeito da medicação, comecei a olhar em volta.

Na sala de espera, a maioria das acompanhantes eram mulheres.

Mulheres acompanhando outras mulheres.
Mulheres acompanhando homens.
Mulheres segurando bolsas, documentos, resultados de exame.

Mulheres perguntando na recepção.
Mulheres indo buscar água.
Mulheres resolvendo.

Só tinha um homem ali. Ele estava com a filha.

Aquilo me chamou atenção de um jeito quase óbvio demais para ser coincidência.

Porque o cuidado, na nossa sociedade, ainda tem gênero.

Somos nós que aprendemos desde cedo a cuidar: perguntar se chegou bem em casa, lembrar do remédio, levar ao médico, ouvir as dores que ninguém mais tem tempo ou paciência para ouvir.

E isso não acontece só dentro das famílias.

Olhei de novo ao redor e pensei também em quem trabalha ali:

Enfermeiras.
Técnicas de enfermagem.
Recepcionistas.

Profissões de cuidado são, em sua maioria, exercidas por mulheres. E curiosamente são também algumas das profissões menos valorizadas da nossa sociedade.

Professora.
Enfermeira.
Empregada doméstica.

Trabalhos que sustentam a vida cotidiana, mas que raramente recebem o mesmo reconhecimento, o mesmo salário ou o mesmo respeito.

Nós cuidamos dentro de casa e cuidamos fora dela.

Cuidamos da saúde.
Cuidamos das emoções.
Cuidamos das relações.
Cuidamos do funcionamento invisível da vida.

E naquele dia, deitada numa maca de hospital, me veio uma pergunta incômoda:

quem cuida de quem cuida?

Porque quando a gente adoece, seja o corpo, seja a alma, às vezes percebe um certo vazio ao redor. Não necessariamente por falta de amor. Mas porque o mundo foi organizado de um jeito em que as mulheres são as que seguram tudo.

Até quando estão cansadas.
Até quando estão sobrecarregadas.
Até quando estão doentes.

Fomos ensinadas a cuidar de todo mundo. Mas quase nunca fomos ensinadas a pedir cuidado de volta.

Naquele dia eu não quis incomodar ninguém.

E saí do hospital com uma sensação estranha que muitas mulheres vão reconhecer sem esforço:

a de que estamos sempre disponíveis para o mundo.

Mas o mundo raramente foi ensinado
a estar disponível para nós.

Postei apenas uma foto do meu braço tomando soro no hospital. Meu filho viu. Ele estava na van voltando da escola quando isso aconteceu. Me mandou mensagem na hora perguntando o que estava acontecendo.

Chegou na casa do pai — porque era o dia da semana em que ele fica lá — almoçou e veio andando até a nossa casa. Chegou perguntando se eu precisava de alguma coisa. Se queria água. Se precisava de remédio. Se ele podia sair com o cachorro para eu não precisar fazer isso passando mal.

Ficou ali, ajudando no que podia.

Depois voltou para a casa do pai, porque no dia seguinte acordaria às cinco da manhã para ir para a escola.

E é enquanto eu estou aqui, ainda me recuperando, que escrevo essa crônica.

Pensando em tudo isso.

Pensando em quantas mulheres vão reconhecer essa sensação sem que eu precise explicar muito.

Mas também pensando que talvez a mudança comece em gestos pequenos.

Se o cuidado ainda tem gênero, talvez a mudança comece exatamente aqui:

ensinando os meninos a cuidar também.

Continua após a publicidade
Caroline Pignaton
Caroline Pignaton
É formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e mestre em Comunicação e Territorialidades pela mesma instituição. Assina o Diário da Feminista Depilada, um espaço de crônicas afiadas, sinceras e atravessadas pela experiência de uma mulher 40+, jornalista, feminista e mãe. Na coluna, episódios de machismo — dos mais sutis aos mais escancarados — ganham forma e linguagem, revelando como essas violências se intensificam e se tornam ainda mais cruéis a partir da maternidade. Um diário conduzido por ironia, crítica e afeto, para quem já se cansou de fingir que não vê.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
21ºC
Máxima
22ºC
Mínima
17ºC
HOJE
14/07 - Ter
Amanhecer
06:16 am
Anoitecer
05:16 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
7.13 km/h

Média
20.5ºC
Máxima
22ºC
Mínima
19ºC
AMANHÃ
15/07 - Qua
Amanhecer
06:16 am
Anoitecer
05:17 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
4.35 km/h

Ventosaterapia: Muito além das marcas circulares na performance esportiva

Lúcia Miranda

Leia também