Jogos independentes despertam cada vez mais interesse ultimamente, pois costumam surpreender — para o bem ou para o mal — já que frequentemente trazem histórias que escapam completamente do lugar-comum. Esse foi um dos motivos pelos quais a decisão de se arriscar em Deer & Boy se mostrou acertada.
Na verdade, o título chamou a atenção por dois fatores: a narrativa, que tem como tema central a relação entre um humano e uma filhote de cervo; e um segundo fator, mais pessoal, já que recentemente houve a perda de um cachorro. Por isso, havia curiosidade em ver como seria jogar algo em que, pelo trailer, já se sugeria uma ligação entre duas espécies tão distintas, além do aspecto emocional que acabou sendo trazido para a experiência.
Só vai
Deer & Boy é um jogo que não perde tempo com explicações. Logo nos primeiros minutos, ele coloca o jogador em movimento e deixa que sua história seja construída aos poucos. Em vez de recorrer a longas cenas ou diálogos, a narrativa é contada principalmente pelos cenários, pela direção de arte e pelas ações dos personagens, despertando a curiosidade a cada novo trecho da aventura.
Essa proposta também se reflete na jogabilidade. Trata-se de um jogo 2D de rolagem lateral em que se controla o garoto enquanto explora os cenários, corre, pula, empurra objetos, ativa mecanismos e procura formas de avançar. Em vários momentos, também é preciso se esconder de inimigos ou fugir de perseguições, o que ajuda a variar o ritmo da campanha sem recorrer ao combate direto.
Os quebra-cabeças acompanham essa filosofia. Eles não são difíceis, mas exigem atenção ao ambiente. Em vez de apresentar enigmas complexos, o jogo faz com que se observe o cenário para encontrar caminhos alternativos, mover caixas para alcançar plataformas mais altas, acionar mecanismos ou descobrir a melhor maneira de utilizar os dois protagonistas em conjunto. É uma abordagem simples, mas que funciona justamente por nunca interromper o fluxo da narrativa.
O cervo também deixa de ser apenas um personagem da história e passa a ser parte fundamental da jogabilidade. No início, ele é pequeno e depende da proteção do garoto. Conforme a aventura avança, ele cresce, adquire novas habilidades e passa a ajudar na resolução dos desafios, criando uma sensação natural de evolução tanto na mecânica quanto na relação entre os protagonistas.
Toda essa simplicidade faz com que Deer & Boy seja muito fácil de aprender. Em poucos minutos já se domina todos os comandos básicos, sem necessidade de decorar sistemas complexos. Essa acessibilidade também aparece na lista de troféus, que pode render as primeiras conquistas logo no início da campanha.
Se a jogabilidade aposta no minimalismo, a trilha sonora segue pelo caminho oposto. Ela é uma das grandes responsáveis por sustentar o clima da aventura, acompanhando cada momento com a intensidade certa. Seja nas cenas mais tranquilas, nas perseguições ou nos momentos mais emocionantes, a música reforça a narrativa sem jamais roubar seu protagonismo.
Mais que amigos, friends
A aventura começa com o personagem humano fugindo de casa, e é preciso tomar cuidado para não ser pego durante essa fuga, então cautela é necessária nesse primeiro momento.
O começo pode parecer um pouco confuso, pois o personagem passa por situações e lugares que provavelmente não serão entendidos de imediato. Isso é proposital: com o avanço do jogo, essas questões vão sendo respondidas. Essa primeira parte funciona como uma introdução e serve para mostrar como o menino e o cervo começam a desenvolver esse vínculo, que tem início de forma trágica.
Os quebra-cabeças apresentados no início também evoluem de forma bastante natural. Se, nos primeiros minutos, eles servem apenas para ensinar as mecânicas básicas, logo passam a combinar exploração, observação do cenário e cooperação entre o garoto e o cervo. Os desafios continuam simples, mas deixam de ser apenas obstáculos isolados e passam a integrar a narrativa e a relação entre os protagonistas.
Boa parte desses momentos exige que se observe o ambiente com atenção para descobrir como prosseguir. Em algumas situações, será preciso mover objetos para criar novos caminhos; em outras, encontrar rotas alternativas ou utilizar corretamente as habilidades de cada personagem. Quando os dois acabam separados, por exemplo, o desafio deixa de ser apenas encontrar a saída e passa a envolver a melhor forma de reuni-los para continuar a jornada.
Nenhum desses desafios chega a ser complexo, mas essa é justamente uma das qualidades de Deer & Boy. Os puzzles mantêm um bom ritmo durante toda a campanha e dificilmente interrompem a narrativa, reforçando a proposta de uma aventura contemplativa, acessível e confortável de jogar.
É isso, mas não por muito tempo
É durante a segunda parte que o cervo passa a aparecer com mais frequência e a relação entre os dois personagens amadurece. Aqui, sua presença se torna ainda mais essencial para a narrativa.
Também é nessa fase que o jogo se aproxima mais do fantástico. Dá para perceber três camadas na narrativa: uma inicial mais emocional; depois um aspecto fantástico que vai se aprofundando; e, por fim, uma camada mais mágica, com a introdução de outro personagem importante.
Apesar de parecer uma transição estranha, esses três elementos funcionam bem juntos e ajudam a sustentar a narrativa sem torná-la cansativa. Na prática, isso funciona muito bem.
Além disso, o cervo também passa a ser mais importante na jogabilidade. Conforme se avança, sua utilização se torna cada vez mais necessária para atravessar cenários e até lidar com inimigos. Inclusive, a ligação entre humano e animal acaba sendo o principal elemento de progressão do jogo.
Um ponto negativo nessa parte é um potencial chefe que aparece e que poderia ter um combate mais direto. Porém, como esse não é o foco do jogo desde o início, a solução acaba sendo lidar com a situação dentro da própria proposta e, no fim, funciona.
Friendship never ends
Por ser um jogo curto, não demora até a parte final chegar, e é nela que o tom emocional cresce ainda mais, com algumas respostas começando a aparecer sobre o passado do menino.
Mesmo assim, o jogo não entrega essas respostas de forma direta. Tudo continua sendo construído através da jogabilidade, como já acontece desde o início. Nesta parte, os cenários ganham mais profundidade e deixam de ser apenas lineares, exigindo mais atenção do jogador. Passa-se a explorar os ambientes com mais cuidado, e, ao longo do caminho, encontram-se lembranças de uma família, o que ajuda a aprofundar ainda mais a narrativa.
A transição entre as fases do jogo é muito bem executada, e o arco final mantém exatamente o tom que a experiência propõe.
Se você busca algo mais leve, sem grandes compromissos, mas ainda assim emocionalmente marcante, Deer & Boy é uma ótima escolha. Ele funciona bem como uma pausa entre jogos mais intensos ou como uma experiência para relaxar.
A narrativa cinematográfica mantém o jogador imerso do início ao fim, criando curiosidade constante sobre o desfecho. Além disso, sua curta duração pode ser um ponto positivo para quem procura algo mais direto.
Deer & Boy surpreende pela forma como executa bem aquilo a que se propõe. Ele é emocional quando precisa ser, entrega uma mensagem sensível sobre a conexão entre o homem e a natureza através de um animal e constrói uma narrativa cinematográfica que muitos jogos de grande orçamento tentam alcançar — mas aqui, com muito mais precisão.
Ter jogado Deer & Boy fez lembrar de um cachorro que se foi, e de como a conexão com um animal pode ultrapassar qualquer explicação racional. Em momentos em que tudo ao redor parece desmoronar, um pet pode ser esse ponto de apoio silencioso — uma presença capaz de reacender alguma forma de força e equilíbrio emocional.
Prós
- Narrativa cinematográfica muito bem executada;
- Jogabilidade simples e acessível, com puzzles leves;
- Mensagem emocional bem construída ao longo da experiência.
Contras
- Falta de combate mais elaborado em momentos específicos.















